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domingo, 14 de março de 2010

Novas

O ano não começou. A sintonia capturada pelas antenas de minha percepção diz que o ano-novo é muito velho, passado, tal qual um senhor já de idade avançada, e que mal apara a barba que alcança o peito. Esse velho senhor tem algo a me ensinar? Esse jovem já velho pode me dizer novas, e falar sobre livros velhos e filmes antigos e histórias caducas, esperados também por uma plateia sedenta por novidades?
Mas como tudo isso pode acontecer se as novidades calham de ser as velhas coisas conhecidas, as mesmas que passaram em algum momento por mim, e não as percebi - estava então distraído - que eram coisas novas que se tornariam velhas, mas com um jeito velho demais para serem coisas novas?
"O que esperar das coisas novas já envelhecidas e das velhas ainda novas?", pergunto, quase como um sussurro, ao senhor-quase-jovem. Esse senhor, que não é bem um senhor, mas tem cara de senhor, embora seja ainda um jovem de idade avançada, dá um sorrisinho sorrateiro, coça o queixo enroscando os dedos nos fios da barba espessa e suspira, "Bem, menino, espere tudo, inclusive o que não é esperado", e silencia por uns instantes, e imagino que sua fala, quase gutural, termina ali, quando é chegada a hora de ele seguir um novo rumo, só para não ter que responder questões enfadonhas como a minha, principalmente para um jovem-senhor que é um senhor-jovem, mas ele prossegue com aquela voz cavernosa, "Mas tudo com uma dose de paixão; assim, aí, nenhuma espera, por mais longa que possa ser, será em vão."
Penso um pouco. Tento entender a mensagem daquele menino com cara de velho. "Esperar o não esperado"? Como assim? Confesso que fiquei intrigado, aborrecido, pois eu esperava do senhor-menino alguma resposta que pudesse me ajudar a desemaranhar as linhas do meu pensamento, que anda muito confuso com o passar do tempo, com o passar da minha juventude que vai envelhecendo enquanto minha velhice rejuvenesce; mas o senhor-jovem me deixou sem entender patavinas, fiquei mais lelé.
"O tempo é senhor", é o que ouço. "O tempo segue", é o que sinto. Nada li, nada vi, apenas apreendi pelo espírito, por tudo que aquele senhorzinho-menino me ensinou. E continua. "Ele é voraz." O tempo é o tempo, e é a imensidão que a vida acolhe, sem indagações. A partir disso, posso entender tudo, ainda que não venha a aprender nada.




Sigur Rós - Hoppípolla

Acesse o link a seguir, para assistir ao vídeo em uma melhor resolução:

http://www.youtube.com/watch?v=4L_DQKCDgeM

sábado, 21 de novembro de 2009

Lá vai Laila

Aí. Lá vai Laila. Vai com a sua mansuetude retemperando as equivocadas ideias. As ideias equivocadas. Era tão hora de dormir que ela acordou, porque na tão hora de acordar ela dormirá. Na folgança dela tão beligerante ela alimenta a cupidez por melhores dias, de pouco equívoco do choco do cotoco do derroco do massaroco do mundo oco. Ela aprende com os quebas, e erra de tão promesseira. Ela acredita que a bocedização das pessoas estraga o mundo, o mundo oco.

"Deixa esses despiciendos, não os importantize com tão mora importância, pois a minha espécie mor de volitiva vontade era de virar água neste seco-seco oco do meu coração, meu mundo de benção, das coisas doentes e sãs".

Era Laila senão se não não era se não não não era Laila. Laila respirava entre os seus paragões, vivia naquela parecença diferente da igualdade distinta das particularidades comuns dos seres coletivos únicos. Laila naquelas tardes descansava sob uma boceta-de-mula com as mãos ocupadas com uma sempre-viva, e era tão assim que não era tão bem assim mas era Laila na atuosidade esperada dos descansantes.

"Queria um bochinche pra distração, sem discutição ou modo de preocupar. Sem locupletamento para a minha alegria, que venha o Sol e me sorria, pois não estou para não sorrir, estou é o contrário".

Laila e os seus etcéteras e tanta parentesiação para não se aguentar. Mas Laila não temia, sorvia vida, música e o desespero tão suave que tudo lhe parecia verde, nem do vermelho lembrava. Era tudo certo, e qualquer sorriso que dela vinha era lidimamente produzido. Muito bem fabricado pela autenticidade carismática dos seres inócuos mais perigosos, fracos e tão fortes. Era Laila assim com tudo, com seus cupinchas, brindando com curaçau o festejo, mesmo nas jaças das verdades.

"Amiúde, pensei que o mundo era pra sonho além. Insistem comigo que é aquém. Mas eu sou o objeto sonhado, cá, além de mim".

E Laila vivia e sonhava. Escusava-se dos levados, mas ela mesma tão só levada que a fazia escrever sonho por sonho em sua caderneta, ao som do sanhaço-cinzento, que esperava colorir os momentos que fabricavam os seus dias:

"Caligrafei o achado sonhado. Estipulei o verbo findo conjugado na letra grossa tanta de tanta tinta e de tanta vida. Meigo é o meu desejo sincero de querer relatar e escrever essa vida que não se fia, pois há anjo que me espia".

Laila serenou e voltou a cabeça para o lado de lá, para desacordar num sonho que lhe mostrará naquela noite os dias vividos de amanhã que ela simpatizou ontem, e que vive sempre. A mão direita delicada dela desprendou-se do peito e deixou cair rente à cama a sempre-viva...

sábado, 8 de agosto de 2009

O sr. Café e os pássaros

Era mais uma daquelas manhãs outonais, quando o sol finge que esquenta o dia e nos fazemos acreditar que isso é verdade. Mas era, no entanto, um dia de sol. O vento silvava entre as copas debutantes e flácidas das árvores que ladeavam a rua em que morava o sr. Café. Um nome estranho para uma pessoa estranha. O sr. Café era um homem de seus quarenta anos, mas parecia mais, mais. Espírito sisudo, semblante carregado que em nada era atenuado pelo bigode cultivado com certo afinco e vaidade. Com seu rigor tentava manipular ao redor, o preciso raio de notável um metro em que poderia agir, persuadir ou descolorir o tema vez alegre de alguém, de algum.

Sr. Café e sua calva cabeleira, testa larga, bochechas tingidas de um rubor quase artificial. Enfim, o sr. Café era, em sua essência, make up até nas oras de gozo. Café-da-manhã, "bom dia!", banho, "até mais!", sexo. Corpo robusto, tórax largo, dotado de uma considerável pelugem, que destacava-se em seu colarinho. Ah, para o sr. Café era um distúrbio os sons da natureza, ou qualquer som que não fosse escolhido ou produzido por ele. As suas esquisitices poderiam beirar a insuportabilidade mas, ainda, conseguia manter a neutralidade necessária entre os gostos pessoais e o mundo coletivo; afinal, por mais que quisesse, era um homem que ainda dependia das relações sociais, vivia em comunidade.

O que passaria pelo cerebelo do senhor sr. Café? Senhor sr. Café...

Voltando à manhã outonal, de sol frio, de sábado, o sr. Café acordou entendendo que tudo deveria se repetir outra vez, pois seria apenas mais um dia, dentre outros sábados em que não trabalhava, portanto, deveria cuidar dos afazeres domésticos, já que morava sozinho, não tinha filhos, enfim, era um excelente modelo clássico de solteiro que poderia ser comercializado em um antiquário. O sr. Café coa o café, em toda a ambivalência que o momento produz. O Café coa o café. O Café passa o café. O Café toma o café. O Café acordou para o café. Este era o tempo para ele, dele. Para o sr. Café, o tempo era cíclico, sem linearidade, ia e voltava, permutava-se em uma grande esfera invisível, e por esta razão nada era essencialmente novo, pois tudo não passava de repetição. E o sr. Café nunca lera Mircea Eliade. O tempo não era fantástico, nem legado de outras gerações, outros povos, o tempo era o tempo, sem divisões, como uma imensa roda que gira gira gira gira gira, tendendo planar sobre os mesmos lugares, as mesmíssimas coisas em que depositara fé desde que aprendera com os pais, já tão distantes residindo em seu córtex cerebral, o código de civilidade, que veio a confundir por toda a vida com o código que os humanos das mais variadas origens, classes e culturas chamam por felicidade.

Neste sábado, logo após o café, o sr. Café, notou um barulho incomum que vinha do jardim dos fundos da casa que dava para a janela de seu quarto. Largou a louça na cozinha, secou a mão em um dos panos de prato que estava sobre uma cadeira, e ainda mastigava o último pedaço de pão. Chegou ao quarto, quando percebeu que o som, antes seco, tornara-se um pouco mais estridente, portanto foi à janela abrir as persianas, entender aquilo que parecia um canto intermitente. Ao abrir a janela percebeu um movimento incomum que vinha do alto da laranjeira, cujo os galhos roçavam em parte da janela. Havia um canto mais agudo, que vinha de cima. Quase instintivamente, o sr. Café, colocou as mãos nos ouvidos para abafar o som. O mesmo instinto que o fizera levar as mãos aos ouvidos, o fez tirá-las dos ouvidos e escutar um pouco mais daquele canto que era filtrado pelos sentidos que parecia que, por um instante ao menos, o sr. Café deixara de lado o jeito circunspecto de encarar a vida. Agora, e mais para o sempre, parecia ter despertado outra vez, um despertar diferente daquele que fazia todos os dias para tomar o seu café, o seu banho, para trabalhar. O sr. Café avistou debaixo, no pé da janela, lá o movimento e barulho de um casal de pintassilgos, que não rivalizavam, mas que tentavam uma aproximação, um do outro.

O sr. Café não entendia nada de pássaros, e muito menos de seus cantos, ou das belezas como essa que a natureza o agraciou. Mesmo que o seu tema e a sua normalidade fossem tão avessos, tão afastados destas possibilidades de deslumbramento. Ressoou dentro dele um movimento de agradecimento, quase maternal, em todo jovial. O sr. Café sentou à cama e chorou. Percebia que por tantos anos trabalhara para que algo escapasse dele, sem que soubesse que este algo seria a sensação de vida que desfrutara ao ouvir o casal de pintassilgos. O pintassilgo macho fazia as vezes junto à fêmea, para que outras gerações de pintassilgos pudessem brindar outras gerações de indivíduos com os seus extraordinários cantos. O sr. Café entendeu. Percebeu que não teria o tempo todo do mundo, e que tudo era uma passagem, e que deveria compor um outro olhar sobre as coisas, sobre ele mesmo.

O sr. Café tomou seu banho. Afeitou o bigode, o que não fazia há anos. Presenteou-se com uma incircunspecção que não tinha desde os tempos de colégio. Era preciso. Havia algum ciclo, mas renovado. O sr. Café, muito quieto, refreou os ímpetos, não negou a si o desejo de ser o que quisesse ser, sem estabelecer-se em modelos. O sr. Café olhou mais uma vez para o espelho, franziu, sorriu e foi andar. Como aqueles que dizem "vou andar por aí..."

A vida lhe pedia caminhadas.

sábado, 4 de abril de 2009

Descansos

O jovem casal brincava no último banco do último ônibus. Por um momento, enquanto os dois esperavam pelo ônibus, pensavam que já o haviam perdido. "Perdemos o último". E antecipavam em pensamento a caminhada que enfrentariam naquela madrugada fria. Agora, pareciam ter esquecido da aflição que os dominou por um tempo lá fora, e brincavam lá dentro. Parecia um desafio: quem contava a piada mais sem graça? Mesmo assim, riam por qualquer coisa, até por um casual silêncio que vez ou outra se instaurava ali no fundo. Com as caras de dúvida e apreensão, não bastava muito para caírem no riso, desfiarem lorotas, enquanto o motorista parecia testar o limite do ônibus, das ruas, das curvas, quase ignorando o semáforos vermelhos: era já tarde, muito tarde, e não só os jovens, mas o motorista, como o cobrador, queriam, precisavam antecipar a hora do descanso, do lar.

Os postes de luz, vistos de fora, àquela velocidade do ônibus, pareciam meras faíscas que enchiam o ar com um gás esfumaçante muito branco, e depois sumia. Ficava um para trás e logo vinha outro à frente. As ruas eram cortadas com o ronco grosso do motor à explosão. Explodia não só o combustível, mas como a intensidade dos barulhos do casal lá no fundo que podia ser ouvida até onde estava o motorista. Os gatos pingados que estavam naquele carro que fazia sua última viagem, repousavam com a cabeça encostada à janela; alguns sentiam a atmosfera silenciosa que espalhava-se pela cidade naquelas horas tardias. Era tudo bonito e tão feio, quase não se via nada, e o rasgar do ônibus pelas ruas parecia espantar apenas os cachorros, os únicos foliões e transeuntes naquelas avenidas e vielas.

O jovem casal parecia mais quieto, conversava em voz alta e ainda assim algo praticamente incompreensível por qualquer um que estivesse naquele ônibus. A carroceria do ônibus balançava conforme os desníveis, e por uma certa imprudência do motorista, por que passava naquelas vias urbanas mal conservadas. A prudência já fora abondanada há muito pelo motorista, tudo pelo aconchego de sua cama, pela comida esquentada que devia esperá-lo, escondia sob o pano de prato sobre o fogão. Parte dos gatos pingados adormeciam, espera-se, para todas as sortes, que o destino deles fosse o ponto final do ônibus, tão barulhento e tão salvador para o jovem casal, que há alguns minutos conformava-se com uma longa caminhada naquela noite.

Em poucos minutos, o ônibus cruzava a esquina da Matriz, serpenteava as ruas que findavam no largo do colégio municipal, tradicional, das paredes externas corroídas pela erosão de tanto vento, chuva e sol, e quase nenhum zêlo por sua arquitetura neo-barroca que parecia teimar a ser relegada aos posteriores somente através das fotografias. Os meninos não pensavam; o motorista e o seu companheiro também não; os gatos pingados não sabiam ou não queriam saber, queriam somente descansar.

O ônibus entrou na rua paralela ao cemitério; o jovem casal, forçando os olhos, o cenho tentavam ver os muros brancos e altos da necrópole. Dali, as únicas coisas possíveis de serem vistas eram as cruzes que apontavam para o céu. Eram suntuosas sobre os imensos mausoléus: quase-torres, pareciam indicar o destino das almas que habitavam os corpos ali guardados, tornados meras carcaças de ossos, sob as campas de granito dentro de seus respectivos esquifes.


A noite não era mortuária, era viva. Era escura e doce. Era fria com pequenos sopros mornos dos ventos do norte. E os meninos, quase em total silêncio, sentiam isso, sentiam arrepios até o momento em que o ônibus cruzou, e jogando o peso do corpo para a esquerda, quando o ônibus pegou a direita. O quarteirão demarcado pela muralha branca do cemitério terminava naquela curva sinuosa. O ônibus seguia o seu itinerário, com traços de ansiedade do motor, que não eram da máquina, mas do motorista, o homem que a manobrava. O jovem casal trocou olhares com uma senhora que acabara de levantar-se do banco e dar o sinal, e não sabiam porque sentiam alívio. A senhora desceu. E o motor resistiu, intensificando o seu ronco no declive que sustentava em primeira marcha. Terminado o pequeno morro, as cores que distinguiam o bairro do centro da cidade começavam a ficar mais nítidas - já estavam em frente à quadra de esportes, de onde se via uma luz fulgurando ao fundo. Vinha da casa do zelador. Os gatos pingados que dormiam, agora estavam acordados, pareceiam ter sido despertados pelo cheiro do local, peculiaríssimo, que reforçava que aquela zona suburbana era um microcosmo que não tinha relação alguma com o grande centro da cidade. Não tinha. Quase um outro país.

O menino, sonolento, com a vista embaçada pelo sono, percebia que já era quase hora de descer. Viu alguns dos gatos pingados fazerem uma espécie de saudação ou agradecimento aos últimos operários daquela noite: o sr. motorista e o sr. cobrador. Ele operava algum raciocínio para levantar-se do banco, acordar a namoradinha e dar o sinal para poderem descer. No entanto, algo imprevisível ocorreu. Ao chacoalhar os ombros da companheira, viu que esta permanecia estática, imóvel, sem indício de despertar da sonolência. Chacoalhou-a outra vez: nada. Ficou então preocupado. O corpo da garota não respondia à nenhum estímulo. Colocou a sua mão sobre o peito da garota, onde não conseguia sentir o tumulto de vida daquele coraçãozinho. O cobrador, lá da frente, sinalizou que haviam chegado ao final do longo trajeto. "Final!" E agora? Ele gestículou algo não inteligível ao cobrador, que não entendeu e que continuava a falar por sinais, "final". O rapaz gritou, "ela não está bem", "ela precisa de ajuda". O cobrador foi até ele, estendendo o braço e disse "é hora de descansar" e, abrindo um largo sorriso, alcançou o seu ombro e o balançou o suficiente para que o menino entendesse "é o fim", e angustiadamente o meninou gritou, "não pode ser o fim", quanto tudo se apagou.

O menino então despertou do pesadelo e viu ao seu lado a menina quase de pé, e o cobrador dizendo com os olhos "é a hora do descanso". O menino entendeu tudo e ficou bem por estar de volta daqueles sonhos fúnebres e de ver a companheira sorrindo para ele. Com uma angústia tamanha, abraçou-a forte logo que desceram do ônibus, quando despendiram-se do cobrador e do motorista com um leve aceno; os dois já estavam longe, alcançavam a distância. Ainda assustado, ele a mirou com um certo olhar preocupado, mas ainda enternecido, como se dissesse, todavia: "estar com você é tão bom", e desceram a rua, para mais alguns passos para os seus descansos.

quarta-feira, 4 de março de 2009

À minha face

O céu visto do Metrô, entre as estações Armênia e Tietê, às 6h30 da manhã.


O rosto voltado para a parede, entre a cama e a parede. Escondida de não sei o quê. Escondia-te de algo que não querias encarar. Teus medos tão meus. Pela fresta, da porta meio aberta, invadia uma parte sensível de luz, razoável para apertar os teus olhos. Levava então as mãos ao rosto, o protegias mais com o lençol. Tão bela e crua. Tão só, mesmo comigo. Qual não era a minha simpatia em te ver despertar. Observar-te entender que a cama não era o mundo. O mundo tua continuação. Mas era assim todos os dias. Todo santo dia, religiosa nos cuidados do calçar os chinelos ao lavar o rosto. Encarar a luz.

Guardavas uma esperança. Não a dividias, talvez por receio, medo. Eu entendia, mas tanto quis saber, e quis que tivesses a dividido comigo também. Saber das tuas agonias e alegrias. Nunca pedi. Na verdade, nunca peço. Queria uma alegria suave a marejar os teus olhos, ainda que não explícita. Era bom pra mim, de certa forma. Gritava silenciosamente por querer ver o que tão politicamente escondias de mim. Estás certa. Vejo o teu café adornando a mesa com mais uns grãos, e a semente de linhaça que tanto fazes questão. Mas antes de sentares à mesa, vejo com que presença antes ris aquele riso perfumado da lavanda da toalete nova que deixei esta manhã sobre o lavatório. Teu rosto e tuas mãos tão silenciosos quanto cheirosos.

Minhas memórias são agora mais fortes. Contavas os acontecimentos do dia anterior no café, enquanto seguravas delicadamente um naco de queijo na mão esquerda, enquanto sorvias o café que eu preparara com uma afeição. Transbordei e continuo aqui, a falar de ti. Das coincidências, das minhas demências, querências. E de como não pude contigo, não pude com ninguém mais. Sinto a boca azeda.

Vejo o teu descanso outra vez. A visão encosta no sonho. Eu arrecado uma força.

Dormes tão bem, sem barulho, sem minha visão. Apertas os olhos, mas o sono é mais forte que o clarão que vaza da janela, e te condiciona à inconsciência, para continuar na vida de lá. Exclusa da exclusão. Dormes bem encostada à parede protegida com um fino lençol. Cobri-te no tardar da noite, e naquela manhã permanecias coberta, com o teu quase-manto.

Será que sabes o que penso de ti? Alguma desconfiança? Acho que não, e se sabes, finges não saber, com sabedoria.

Posso te acordar? Posso ver como recebes a primeira luz do dia, como a percebes? Como tua retina retrai e tua boca retorce? Ouvir o teu resmungo por ter sido acordada na hora imprópria? Acordar-te quando mais prezavas o sono?

A resposta talvez seja sempre 'não', à minha face. Mas entendo as tuas negativas.

Ficarei com as fotografias daqueles negativos que renderam as molduras que adornam as paredes de minha casa. Em quase todas sorris desavergonhadamente. E acho que não quero mais nada. Ou quero e não sei.

Não te escondas. Não vou me aproximar. Fico aqui. Viverei bem, só, por te assistir, te acolher e te velar...

Vires o rosto para a parede e continues a descansar.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Sonhei que sonhei

- Sonhei que sonhei, mãe.

- É, filho? Que ótimo.

- É.

...

...

...

- Você não vai dizer nada?

- Precisa dizer alguma coisa?

- Bem, nada, não precisa dizer nada.

- Filho, diga. O que é que você quer que eu diga?

- Não, mãe, nada não.

- Diga...

- Não, mãe. Esquece.

- Esquecer e deixar você encabrunhado?

- Deixa.

- Filho, olha aqui.

- Humpf!

- Estou pedindo, filho, olha aqui.

- Mãe, tô aborrecido. Deixa pra outra hora.

- Filho, estou te pedindo, por favor, olha aqui...

- Fala...

- Por que você ficou aborrecido assim, de repente?

- Nada.

- Diga. Você me disse que sonhou que sonhou. Depois fechou a cara...

- Ah, mãe... Eu pensei que a senhora ia ficar curiosa pra saber o que eu havia sonhado que havia sonhado.

- Desculpe-me, então. Mas é um pouco estranha esta história de 'sonhar que sonhava'. O que isso quer dizer?

- Na verdade, não quer dizer nada. Talvez queira dizer, sim, mas só um pouco.

- O quê?

- Mãe, eu tenho sentido que as pessoas não sonham mais. Sonhar de verdade, sabe?

- Filho, querido, desculpa, mas está difícil de entender o que você está querendo me dizer.

- Bem, como eu posso dizer... Mãe, os meus colegas de escola têm me dito que os pais deles passam pra eles que sonhar é bom, mas que os sonhos devem ter limites...

- Continue...

- E, mãe, isso tem ocorrido várias vezes. Tem alguns colegas que têm medo de fantasiar sobre os desejos deles. Como se não fosse certo, proibido. Eles me dizem que é preciso viver a realidade. Tenho medo de acreditar nisso.

- Mas, filho, você tem medo de acreditar no que os seus amigos pensam, ou você tem medo de pensar como eles?

- É, acho que é isso. Tenho medo de pensar como eles.

- Bom, querido, você sabe bem que eu nunca te proibi de nada que seja bom, principalmente de sonhar.

- Tenho medo, mãe.

- Querido, não entendo o seu medo. Tem mais alguma coisa?

- Mãe, é esse negócio de viver a realidade. Eu sei que é a vida real de todo dia é a que vale de verdade. Tenho medo de que o meu sonho de andar de trem por aqueles países gelados fique só no pensamento... Mas é que eu acho estranho a gente ser proibido de sonhar, de imaginar coisas pensando, sonhando, lendo um livro...

- Filho, você deve sempre sonhar, não pode pensar diferente. Mas não entendi ainda esse negócio de 'sonhar que sonhou'... Me explica?

- Mãe, eu sonhei que sonhei. Eu sonhei que o sonho só era possível num outro sonho, que a gente vivia uma realidade onde já não pudesse sonhar. Vivíamos num mundo onde só existiam duas cores, o laranja e o cinza. As coisas eram estranhas, o mundo era estranho. Fiquei com medo. Será que isso é uma premonição do futuro? Sei lá, tem gente que diz que a gente pode ver o futuro pelo sonho.

- Filho, meu amor, vem cá. Olha para a mamãe. Não tenha medo dos sonhos e nem dos pesadelos. Se os sonhos dizem sobre o futuro eu não sei, mas são os sonhos que nós temos que podem fazer com que sejamos felizes no futuro. Por isso, te digo, não tenha medo dessas coisas. Não se envergonhe do seus sentimentos e desejos, um dia você vai viajar num desses países gelados, vai rolar na neve, mas isso não faz com que você esqueça da realidade que você vive hoje, sem abrir mão de sonhar.

- É mesmo, mãe.

- Então, vai lá pro quintal, vai brincar. Muitas crianças do mundo gostariam de ter este Sol na janela e de sentir o calor dele pra fazer muita coisa, pra se aquecer e brincar.

- O Sol também é bonito, né, mãe? O Sol é bonito igualzinho às montanhas de neve.

- Isso filho, igual às montanhas de neve...

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

A janta, amor...

Carla sempre se aborrecia com a enrolação de Rui para o jantar. Jantar posto, e era uma nova novela Rui largar a TV, o telejornal, queria se inteirar de tudo. Usava como desculpa o trabalho que lhe ocupava o tempo. Nisso, Carla, cansava-se de alertar Rui. Os chamados de Carla ecoavam no corredor, que ligava a cozinha à sala, sobre a comida que esfriava na mesa.

- Rui, deixa isso. Pôxa, não dá pra ver isso depois? Tem internet. Depois você vai lá e vê tudo que esses caras estão falando aí?

- Tá, tá...

- Ei, vai esfriar...

- Tá bom.

- Tá bom, nada. Vem cá!

- Já vou.

- Ah, tá. Vem e depois pede pra esquentar tudo no micro-ondas. Por acaso, tenho cara de palhaça?

- Não, querida, não tem. Mas que você é engraçada, isso é...

- O quêeee? Desaforento! Eu me esgoleando e você ainda fazendo piada com a minha cara.

- Não querida, eu só disse que você é engraçada.

- Ah, e você quer que eu encare isso como um beijinho no rosto. Me poupa, Rui. Todo dia é a mesma coisa.

- Tá, você tem razão. Todo dia é a mesma coisa. Então vamos fazer diferente.

- Ã...

- Sim. É só você, a partir de amanhã, não me chamar mais durante o jornal, certo?

- Ha ha!

- Adoro quando ri assim.

- Pára, Rui. Você sabe bem que isso não é um riso. Que merda! Caramba, eu fico pensando o dia inteiro no que fazer para o jantar, com carinho, tento inovar, fazer algo diferente, por você, por nós, tentar fazer com que a nossa vida não seja contaminada por esta coisa que chamam de rotina. Tento fazer um agrado, e você nem aí.

- Não é bem assim.

- Como não? Tem dia que você ronca aí no sofá. Emenda jornal no filme e o filme em outro programa, aí vai... Esquece da comida, esquece da cama, esquece de mim...

- Mas...

- Nem 'mas' nem 'menos', Rui! Estou cansada.

- Carla, precisa se revoltar assim? Olha, você está certa. Eu às vezes piso na bola mesmo. Às vezes você me liga lá do seu serviço só pra perguntar o que eu gostaria de comer, daí peço pra você fazer e, dependendo do dia, acabo nem jantando, porque depois bate uma preguiça, um cansaço aqui no sofá, maior do que a fome...

- Que bonito! Ele reconhece. É tão bonitinho...

- Tá, Carlinha, não precisa ironizar.

- Tá, meu poeta, me responde agora, na prática o que muda? Discursinho de que sabe que eu me empenho e tal, mas você faz alguma coisa pra mudar?

- Faço, claro que faço. Todos os dias reconheço pra você que não faço nada pra mudar. Já é alguma coisa...

- Deixa de graça.

- He! He! Tá bom. Vou parar de te encher, meu amor. Desculpa por hoje, e por todos esses dias. Eu prometo não aborrecê-la mais, juro.

- Rui, até quando?

- Até quando o quê, querida?

- Até quando você vai ficar fazendo essas juras ridículas de 'eu faço', 'eu reconheço', 'vamos mudar' e blá blá blá blá blá. Chega, né, Rui!?

- Calma, Carlinha! Eu estou sendo sincero contigo.

Um silêncio reinou por extensos trinta segundos, até que Rui o quebrou com uma pergunta.

- Você sabe o que eu queria agora?

- Não.

- Eu queria te dar um abraço, um beijo. Mas você tem que deixar eu chegar perto de você. Eu fico com medo quando você fica com essa cara...

O sorriso de Carla vibrou pela casa pela primeira vez naquela noite.

- Ah, seu bobo, seu bobo. E eu sou mais boba ainda por gostar de você, amar alguém como você. É só você falar assim para eu me derreter. Ai, às vezes como eu queria ficar com raiva de você, de verdade, pra você ver o que é bom. Mas eu não consigo, não consigo. Você me desmonta com essa cara de cachorro pidão.

- Eu não sou um cachorro pidão. Sou um gatinho pidão.

- Ah, ainda se acha. Posso com uma coisa dessa?

Quase infinitamente num minuto se abraçaram e deram-se um longo beijo. E outros trinta segundos de silêncio se apoderaram da situação até que Carla começasse outra vez:

- Posso te pedir uma coisa?

- Sim, querida.

- É uma coisa pequenininha, juro...

- Tá, Carlinha.

- A janta, amor...

Caminharam, então, juntos, para a ceia mais importante: a ceia de todos os dias.

Como todo casal normal, Carla e Rui precisavam de um frescor de vida, que poderia vir de uma noite de amor, de uma discussão. De lampejos de alegria, ou de contendas de choro. Conheciam o poder do micro-ondas para salvaguardá-los, especialmente Rui, nas noites de jantares nos horários trocados. Sabiam da especialidade que é entenderem-se no razoável da fina pétala brumada, dos dias difíceis adocicados pelo perfume sensível, irrequieto, único do amor.

Haja gostar. Desentendiam-se e amavam e amavam-se.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Tardio

Arrumei a minha estante. Eu tinha uma certa apreensão por mexer nela; há tanto tempo que não mexia neste espaço, e não sabia o que eu poderia encontrar por lá. Sabia que ali guardava mais do que poeira e escritos nunca lidos em voz alta. Ainda havia ali o resto de um tempo que fortificou-se em mim. Estabeleceu alicerces. A minha estante, de algum jeito, transformou-se mais do que somente o lugar onde eu guardo os livros, tornou-se o lugar onde, teimosamente e covardemente, tranquei o meu passado. Temia o que havia entre os volumes. Não resumia-se a restos de lembranças, mas a camadas ulteriores, que alcançam os dias de hoje, do tempo. Temia, portanto, deparar-me com os almaços prensados por aquelas letras que, hoje, poderiam não ter um sentido ou o sentido, ou mesmo sensibilizar a memória. Mas aquelas folhas, que encontrei depois de arrumar a estante, não me deixaram estático, mas com um vazio inerte. Em um deles, não me lembro, há a 'claridade lívida do caçador'. Não me recordo de tanta coisa assim, mas me demoro muito a compreender que quase todo o instante dividido parece ter sido regido pelos escritos e anotações que preenchem muitos dos volumes.

Roubaram um pedaço precioso de mim. Há uma tensão particular ao observar as lombadas daqueles livros, e toda vibração de uma 'morte misteriosa' que emana daquele lugar. Combalido e cansado, tento não alimentar estes argumentos, mas tenho que fazer, por mim, pelo que ainda preciso viver, pelo que preciso morrer. Devo mandar embora os livros, aquela estante. Não em pouco tempo, mas com alguma persistência, em alguns anos, remontarei uma nova estante; um novo compêndio de que precisarei para o que me resta de futuro. Todo minuto encerrado ali fora mal resolvido, mal explicado, mal conversado, mal entendido, mal ouvido. O que poderia supor de um querer de que nada se ouve, se escuta. Um praguejo, uma esconjuração ou um lamúrio sequer. Há infinitas faltas ali. Anedotas que não existiram e sorrisos que nunca burilaram a falta de compreensão do que julgávamos ser uma honesta troca de carinho, uma divisão natural das leis de um provável amor.

Mas tudo era provável. Provavelmente, não faltarão provas, mas os fatos em si. Tudo era possível, mas o que restou foram as impossibilidades com as quais não contávamos. Aquela emanação de equilíbrio acabou por ofuscar-se no primeiro passo de um caranguejo, a caminho de sua toca. Havia uma beleza inconstestavelmente ruída. E não queríamos acreditar. Por que eu não quis acreditar? Até hoje não consigo me responder. Ainda não sei se é por medo, ou por falta de algo que possa me fazer entender o momento fatídico que levou-nos, companheiros, à ruína e, assim, deixar com que cada um estabelecesse a rotina que, hoje, conhecemos bem, deste reerguimento inteiriço tão difícil. Separados por um mundo além do mundo. Éramos tão fortes. Eu era forte. Eu sabia mais do que ninguém de que podia soerguer-me sobre a amargura restante e tentar reerguer-nos, tão destruídos por uma imaturidade ou por uma vaidade jovem, literária. Parte dela esteve guardada na estante. Temi remexer. Temi rememorar e tocar nos papéis que reavivariam os conflitos. Nunca estive preparado. Preferimos o silêncio, perdemos um ao outro. Talvez, com um pouco mais de coragem, pudesse ter dado conta do que estava entre os livros e se estendia até o recalque dos meus pensamentos. O pensamento é 'não podia ter perdido'. Sobraram tantas coisas e não sobraram nada. Apenas papéis. É provável que pra você nem os papéis de seu lado sirvam para algo como servem para rasgar em caos o meu presente que se achava, até há pouco, quase tranquilo. Mas nunca foi tranquilo. Nunca tranquilo porque sabia que tinha uma divida, não paga, inópia. Falávamos, desmedidamente, de sucesso, que sobrou no poema, de E. Dickinson, perdido em meio àqueles livros:


Sucess is counted sweetest
By those who ne'er succeed.
To comprehend a nectar
Requires sorest need.

Not one of all the purple host
Who took the flag to-day
Can tell the definition,
So clear, of victory,

As he, defeated, dying,
On whose forbidden ear
The distant strains of triumph
Break, agonized and clear.


O sucesso escrito para fazer parte daquele poema. Somente ali.

Não consigo desviar os olhos da sala, da estante. Algo muito mais forte parece se apoderar dos meus sentidos, fazendo com que estes concentrem-se ali, naquele cômodo agora tão detestável quanto amável, onde a amei pela primeira vez. Há tanto disso em meio àquelas brochuras, perco as contas. Em síntese, perco-me. Sempre fiquei perdido, pois vivi uma desilusão desnecessária, até mesmo arrogante, funesta. Por não ter querido gostar um pouco mais de mim. A constatação é de uma simplicidade absurda quanto burra. O discernimento ocorre sempre num tempo errado, para que as mágoas não se resolvam com explicações ou com expiações de culpa. Começamos certos, terminamos sem saber os nomes das ruas que nos levariam às nossas casas, estávamos sem casa, ou pelo mínimo não tínhamos mais nada a ponto de inviabilizar dividirmos aquele teto por pelo menos uma noite. Como tudo tornou-se incompreensível e isto só agrega à sintaxe uma conotação expletiva, de toda desnecessidade que são estas palavras redigidas protegidas do sereno que tranquiliza a noite desta vivenda arenosa do ar, que me parece mais sublime mas ainda pesado.


Queria resolver alguns pontos - impossível. Queria safar-me de alguma culpa - inconcebível. Queria talvez recuperar o tempo perdido, mas a convulsão violenta que me atenho para cuspir o enjoo que fora remexer naqueles papéis; enjoo que foram estas palavras aglutinadas sempre no padecer de uma esperança, torna o plano inviável. Palavras indignas, talvez sujas porque sangram alguma dor. Mas toda a benevolência sonhada, e recuperação dos males causados, sofridos, parece repousar no acometimento do tempo que dá de encontro ao que se concebe, até os últimos breves minutos que me permiti sonhar, ser tardio.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

A Triste ou Feliz Condição do Menino-Olho

O Menino-Olho não se vê. É o próprio olho, e não enxerga a si. Tem um vislumbre absurdo do mundo. O que lhe rodeia é vibrante, todas as cores lhe parecem mais intensas. As paixões, vistas de longe, mesmo assim, a ele se mostram dilacerantes. Não a sua paixão, mas as dos outros. Ele não se apaixona. Vive de olhar, observar. Até que se sucederia bom empregar algumas horas e ofícios para acudir, se tivesse, seus outros sentimentos, com uma menina que pudesse olhá-lo, com aquela mesma força com que ele olhava o mundo. Mas não dava. Não era maldade ou má-vontade. Não dava. Mas o Menino-Olho, ainda, se prazia com aquela sua vida. E como.

Todos os olhares eram para ele. Para ele, os trezentos e sessenta graus eram pouco. Queria divisar os seus sentidos. Partilhá-los um pouco com o ouvir de uma boa música que fosse; com o tatear de uma boa pelúcia que tivesse; com o provar de uma boa iguaria que lhe prouvesse; com o aspirar de um suave perfume que lhe coubesse. Não havia cabimento total para tantas sensações. A visão lhe ocupava boa parte do tempo de sua vida e Ouvir, Provar, Tatear e Cheirar eram sentidos de luxo, que para todos os outros eram de extrema necessidade. Segundo sua natureza, a ele bastava enxergar. Ver o mundo. Vigiar todas as coisas. Observar o que os olhos comuns e os menos normais podiam almejar chegar. A rotina do Menino-Olho era enxergar as diferenças com acuidade, as semelhanças com temperança. Mas tudo, bem regado, com um olhar de esperança.

O Menino-Olho, em um de seus relatos, lembrava que via sangues à tantas distâncias, tantas terras dali. Via tantas festas, não ouvia o que festejavam. Mas via que, por algo, brindavam. Essa vida de tantos olhares e tantas óticas divididas por tantas fronteiras delimitadas por estreitos, lagos, estradas, oceanos. Cabia ao Menino-Olho entendê-las só com o olhar, ainda que não lhe soasse familiar as línguas ditas, as canções entoadas naquelas cerimônias, umas de alegria, outras de tristeza.

Quantas brigadas, quantos chefes, quantas crianças, quantas pessoas, enormes, críveis ou não, podia se ver de longe pelo Menino-Olho. Não se sabia se não lhe cansava aquela sua natureza. O Menino-Olho podia vagar, viver de ver, olhar todas as coisas, mas necessitava de um instante, para acudir outros sentimentos que não o da visão. Todos se indagavam, menos o próprio Menino-Olho que mal dormia para não desligar-se daquele ofício que julgavam cansativo, que não haveria proteína de lágrima que resolvesse a sugerida escassez de energia. O Menino-Olho irrigava-se já com tantas lágrimas. Outros burburinhos surgiam, todos se perguntando se aquelas eram lágrimas sofríveis ou de felicidade. Como seria bom saber mais sobre aquele menino, dar-lhe melhor destino; não renegar-lhe apenas a fortuna de ver e não viver.

O Menino-Olho cria? Não se sabe. Sabe-se somente que via. Nem se se dividia crença com São Tomé. Traziam-lhe tantas músicas bonitas, do mundo; compravam-lhe tantas frutas de sabores espetaculares; cediam-lhe tantas texturas mágicas; transportavam-lhe aromas divinos. Tudo com a esperança de que se ocupasse, sim, com outras tarefas que não fosse o "ver".

O Menino-Olho não entendia nada daquilo, e lhes direcionava aquele olhar de ternura e de suavidade. Os acarinhava com o olhar. A todos restavam lágrimas desobedientes quando lutavam por um sentimento de esperança, quando esta já era findada. O Menino-Olho enxergava bem, e vivia tudo como outra benção ou oferenda de cores. Todos lhe desejavam mais do que cores, mas amores; muito além de luz e claridade; mas paixões diversas daquelas que mexem e remexem nos corações antigos, novos, perceptivos, brutos... todos os corações da boa matéria.

"Acudam o Menino-Olho! Façam-no muito mais do que só ver!" Os discursos imperativos eram esses, mas nada mudava muito. O Menino-Olho enxergava cada dia mais intensamente os instantes de nascimento do dia. Os instantes da vésper até aquela hora que a lua chega no cume do céu. Quando, depois, volta a descer pra voltar a dar lugar ao sol. Ou seja, o Menino-Olho enxergava tudo e todos, todo o tempo do mundo. Para todos, isso não era bom. Ele tinha que ter algo que lhe serenasse o espírito e lhe trouxesse outras sensações. Não podia se pensar em vida longa para um indivíduo que vive apenas de um dos sentidos. Mesmo os cegos, ainda que não vejam, vivem dos outros sentidos com todo o poderio que o talento os permite. Superestima os sentidos que possuem. Com os surdos não é diferente. Valorizam o enxergar. E os mudos, para os quais todo gesto é uma dádiva, a palavra mais bonita não falada, não escrita, nem sonorizada, só gesticulada. Poesia sem verbo.

Em todos os círculos discutia-se a condição do Menino-Olho. Se era humano alguém viver do enxergar e esquecer de todos outros movimentos de prazeres feitos para desvendar a vida. O Menino-Olho é um daqueles que precisam de cura, de ajuda. "Não é possível! Ele não fecha o olho..." Todos os raciocínios, todas as ciências despertadas para enveredar pela vida do menino, do Menino-Olho, que só enxergava.

A verdade das mais verdadeiras era aquela de que todos um pouco já sabiam, mas renegavam, talvez por instinto, ou mesmo por ignorância de não entender sobre a metafísica da vida. Discutiu-se muito sobre o Menino-Olho, até que decidiram que deixasse que a natureza lhe encaminhasse pelo caminho do olhar, pois, realmente, já não havia nada que pudessem fazer. O problema maior residia mesmo aí. Falaram, ouviram, agarraram e sentiram todos os perfumes. Aspiraram as maiores e melhores sensações para o Menino-Olho à busca de uma cura para o que julgavam ser doença. Tsc, tsc. Faltou-se enxergar com olhos reais quem era verdadeiramente o Menino-Olho. Diferente, no início, poderia assustar. Mas o Menino-Olho era muito são; nunca apiedou-se de si. Ria infinito nas manhãs. Nunca entristecera ninguém, e só dirigia olhares benevolentes aos outros, desde o início...

Foi então que perceberam que não havia doença naquele menino. Aliás, se houvesse, a doença não era dele, mas, sim, dos outros olhos que não o enxergavam bem. O Menino-Olho vivia bem com sua particularidade... A doença fora diagnosticada nos olhares que vinham dos olhos que não eram os do Menino-Olho. Percebeu-se, depois, que o entendimento melhor do universo particular do Menino-Olho conferia-lhe paz; o respeitavam mais, como um de todos. Entenderam o quanto as diferenças se espalham e migram, e que não há como habitar no social sem cada um com o seu jeito de ser: os seres são tão díspares. Outros reivindicariam o direito de respeito também: suas diferenças. Enfim.

Não enxergavam o Menino-Olho como se deveria. E o Menino-Olho, feliz, consigo não enxergara, em nenhum momento, as coisas com olhares de desesperança com os olhares que direcionavam a ele.

Mas tudo já é de um outro tempo, e as maneiras se encaminham melhor agora, com o entendimento das diferenças, para mais alívio.

Uma questão de percepção, muito além do enxergar.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Aurora

Entre montanhas amarelas e minas cor-de-abóbora, havia um pasto verde onde se ouvia o desmanchar de um gargalho num pic-nic. Agora, lá vai Aurora para o sul. Ouvir outro som. Ouvir o machado lascar a madeira. As farpas, sem querer, ferroarem as mãos. Aurora não é só. É muitas. Manhã, noite.

Aurora quer brincar. Quer estabelecer o céu no chão. Carpir amanheceres. Uma leitura de feituras. Aurora não é só:

- Não caso o descaso, agora.

Almofadas verdes, camas azuis, chãos marrons, paredes cremes, cortinas vinhas. O cubo alegre fechado de Aurora. Tinia um zumbido de música. Lá, distante. A crença de Aurora era relevante e revela-se, assim:

- O desamor me fez amor, sempre.

Levanta-se pra zunir. Tantos traços coloridos na televisão de Aurora. Os noticiários e o que não é real. Sonhos ainda não-reais tão leais à cabeça do sonhador.

- Minha cabeça é um sono de estrela.

O que Aurora queria dizer? Tão simples:

- Deito na areia pra sentir o abraço do mundo, a Terra me alcançar e me largar.

Aurora faz alguns tratados sobre líquens de pedras escorregadias, de quintais úmidos. Ou sobre cantos onde o sol não chega. Frestinhas dos ângulos retos, das paredes com os chãos.

Mas Aurora sabe que há tantos outros espécimes, outros fungos, bolores que precisariam mais de um alcance do sol de seus tratados. Do sol do norte de verdejar testas, estúrdios desmantelados corações. Aurora esboça em tantos papéis, em tantas matemáticas, em alguns assovios. Era pra lembrar tudo e todos de que do dia branco sobrava a noite que azulava a janela e os olhos, pra dentro, de Aurora.

- Tintei a memória de fósforo. Ascendi e descendi.

Um silêncio branqueava.

- Quero lambujamor.

Vesparam rosa as idéias imitadas de Aurora. Era original.

Eram meias-noites. As narrações de Aurora sobre o dia claro e a noite escura era o sândalo dos poetas. O suspiro das árvores e o fôlego dos machados. A cantiga dos verdes, a melodia dos azuis. Dos verdes e dos azuis. Das praias, das frias e das vermelhas. Nada e nenhuma história se acaba. Não acaba. Zum.

Uns carros lá fora azucrinavam as ruas; umas ruas tremiam casas; umas casas destelhavam-se com os ventos rudes... Era a sinfonia da Aurora. Nenhum pássaro cantava.

Estórias criadas e adotadas por Aurora. Sem pestanejo.

Ninguém cansou, mas todos dormiram.

Pudera. Findada a madrugada, não era Aurora quem se despedia, mas, sim, quem chegava.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Carta

São Paulo, 1° de Outubro de 2008.


Minha querida,



quanta saudade, quanto sentimento quando tudo me parece que vai se dissolver em vão. Quero vê-la, mas há um espaço enorme entre a minha vontade, que somatiza nessa ausência simultânea de um e de outro. Chove muito aqui em São Paulo. Agora o relógio marca 19:06. É uma quarta-feira abençoada. Tudo de bom aconteceu. Só mesmo a distância entre nós faz com que a situação não seja melhor.

Hoje recebi um telegrama: o convite para um novo emprego. Bem, você sabe que isso não é bem um convite, mas o resultado de um esforço enorme nos últimos tempos, para que pudesse então encontrar um novo trabalho. O bico como professor de inglês estava me consumindo energia e me rendendo pouco dinheiro. Não que eu não gostasse de lecionar, mas, você sabe, era mais pela paixão pelo conhecimento (pois sempre acreditei que se aprende mais ensinando do que o contrário) e de poder passá-lo a alguém, do que pelo salário, muito baixo. Aquela escola era pequena, não dava para ter pretensões maiores ou tentar algo diferente.

Posso dizer que a experiência como professor foi valiosa. Lê-se, todos os dias, em qualquer lugar, que tudo que é vivido é riqueza que soma para a nossa experiência, para toda a vida. Ainda que isso seja um discurso batido, nunca duvidei. Sempre acreditei. E você sempre me culpou e me acusou pelos meus pensamentos e discursos românticos. Talvez porque, em algum momento, acreditei piamente em que o mundo iria mudar, bastávamos nos predispor à revolução. (Estou tomando um café coado, talvez o mais gostoso que fiz nos últimos dias). Uma breve história dos homens nos livros me fez acreditar que era só erguer a voz, reunir os camaradas que estaríamos a meio passo de um "mundo diferente", lembra? Devia ter uns dezesseis; mas você, sempre mais madura que eu, sempre me disse que o negócio era "trabalho, determinação e suor". Hoje sei mais do que ninguém, neste labirinto de pedra e fumaça que é essa cidade - pela qual me apaixonei na mesma intensidade que senti indiferença no início, era como não se sentisse esse chão - que a batalha é muito mais complicada do que aquela que vivemos nos livros. Não que aquelas tenham sido fáceis, mas é fato: não foram vividas por nós.

Suas palavras, em cada dia, em cada bloco do meu caderno, estalam difusas e logo se ajeitam dando forma à verdade embutida nelas, às quais, pouco a pouco, vou me acostumando e me adapto nestes dias, nesta cidade sem você. Quando digo que me acostumo não quer dizer que não sinto a sua falta ou que essa diminui com o correr do tempo; é o contrário. Sinto tanto a sua falta, que hoje comprei flores, iguais àquelas que a presenteei em seu aniversário (flores mistas do campo, lembra?) para colocar no meu canto preferido da sala. As flores, o maço, o cheiro-verde lembra você. O meu olfato estava tão desacostumado desta doçura, com todos os dias aspirando o monóxido de carbono do ar e as outras asparezas daqui, que quando cheguei em casa, deitei-me no sofá, arrumei as flores no vaso, fiquei a contemplar aquele espetáculo particular de ter e sentir flores do campo no apartamento; não foi uma fuga do mundo, foi uma corrida no pensamento para os seus braços.

Deixe-me continuar sobre o telegrama. Pois bem, o trabalho parece ser bom, não vou receber muito no início, mas vou fazer o que gosto de fazer que é desenhar. Vou trabalhar num escritório de design, este filiado a uma das grandes agências publicitárias daqui de São Paulo. Algo mais promete para o meu desenvolvimento profissional por lá, pelo menos é o que eu imagino e espero. Estou apostando que "desta vez vai". Estou muito feliz, claro. Mas não quero fazer muitas projeções. Um dia por dia. Certo? Sei lá, tenho aprendido muito sobre viver e a sobreviver (e viver sozinho em uma outra cidade onde ninguém te conhece ajuda nisso) neste meio sempre instável. Ah, já ia me esquecendo de dizer: recebi o seu cartão! A sua caligrafia me trouxe paz nestes dias; e o sol sorrindo que desenhou no canto do cartão me fez mais alegre. O sol sorrindo é a sua melhor caricatura.

Mas não quero imergir nesta contemplação do "coração solitário". Eu comecei a carta falando de saudade, mas não quero terminá-la neste tom, ressaltando o sentimento de ausência, a dor que vaga no peito, só porque não a vejo há meses. "Só" me parece não ser uma palavra muito apropriada, porque isso não é pouco, acho. E "só" também é um vocábulo que designa solidão. Tudo o que não se quer para os corações aflitos.

Quando digo que tudo de bom aconteceu, não está restrito à notícia do novo trabalho, às flores que adornam meu canto. O que "preenche" este tudo é ter vivido a sua presença hoje como não fiz desde que nos despedimos naquele janeiro gelado. O que aconteceu que não conseguimos nos tocar, sentir o hálito quente no pescoço e os nossos sussurros ordinários no pé do ouvido? Temos os nossos compromissos, as nossas responsabilidades, os nossos afazeres, as nossas dívidas, os nossos prazeres, as nossas vidas, mas acho que merecemos um pouco mais: nos merecemos. Concorda? Quando decidi redigir esta carta estava pensando "furiosamente" nisto. Não sei nem se o advérbio de "fúria" aqui cabe bem, mas é fato de que a sua ausência tem me causado fúrias constantes. Não de você. Fúria de mim. Fúria de todas as coisas que nos aparta. Fúria de toda a verdade estabelecida, que ressoa desde o momento que tiro os pés da cama e tenho que me deparar nesta cidade com os gestos e rudezas das pessoas que cruzam o sinal, o meu caminho, esbarram e não se importam com nada, mesmo que por um sinal, um gesto pequeno de absolvição.

Mas a finalidade maior desta carta é a de lhe dizer que estou bem. Poderia ter lhe dito por telefone, coisa que nos acostumamos neste tempo de fazer: viver a vida entre os cabos e as fibras óticas. Não fossem estas conexões poderia dizer que já nem me lembrava de seu respiro. Mas você sabe que estou bem; da ligação que lhe fiz ontem, quando estava quase adormecida, com voz de sono.

A carta surgiu porque me veio o desejo de registrar a notícia em algo que pudesse depois ver e rever, reavivar, tocar. A carta tem isso de bom, ainda que não carregue a praticidade de um telefonema, esta não se perde no tempo, nem no ar como as nossas vozes. A lembrança capta um momento ínfimo de nossas verborragias. A cartas registram tudo o que se quer e lá ficam até o momento que se decide rasgá-las ou desfazer delas. Cartas são declarações eternas. Podemos, vez ou outra, arrancá-las de nossos objetos e rever aquelas palavras, que num momento, podem ser restabelecidas com o frescor de quando foram escritas. Eu gostaria justamente disso. De deixar registrado o dia, a hora, a chuva, o café saboroso (já estou na terceira xícara), as flores, a lembrança que remete à sua figura. Está tudo aqui registrado nas pautas que serão carregadas por pessoas que nem conheço até chegar em seu portão. Para, logo, rasgar o envelope, tirar-lhe um dos cantos para ver do que se trata, o que naquela folha encerra.

Meu anjo, não encerro nada, apenas abro pra você, como nunca (como os poetas) d'antes, o meu carregado sentimento de amor. Almejo que estas minhas palavras borradas por esta caneta (que solta tanta tinta) reguem em algo o seu espírito, que lhe conceda, assim como a sua caligrafia e o seu "solzinho" me fizeram, um pouco de paz e de energia renovada.

Por tudo isso, posso dizer que a minha quarta-feira foi abençoada, como espero que seja a quinta e a sexta. Que este sentimento de benção se perpetue pelo fim de semana, e esteja às meias e prossiga até o dia em que eu possa encontrá-la outra vez. Quando então poderemos, não só com os telefonemas e cartas (ainda neste mundo das conexões virtuosas), tatear-nos e dizer-nos: "É mais belo o vivido quanto mais o sonhado por vivê-lo". O sonho está neste encontro, que abro e antecipo por meio desta carta.

Tenho quase certeza que, por todos nós, nada se dissolverá em vão.

Um beijo terno, do seu

Amor

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Falar da quase culpa

Ah. Mm. Ss. Dizer. Uma minha quase nossa culpa. É minha. Desculpe-me. Eu devia ter prestado mais atenção. Mas não. Quem disse que sou quem quero que não quero ser? Mas desculpe-me. Meia-noite e vinte e nove e você com essa voz molenga. Não bebe, não irrita. Beija-me, inspira-me. Aspira meu ar no beijo, roça sua pele no meu lábio molhado. Cuspi tantas palavras em meu amor, ontem. Nesse horário; naquela hora.

Veja, meu benzinho, eu lhe quero tanto bem... A quero ardentemente bem. Mais ainda. A quero azeitada todas as noites pra mim. Para ser não só minha culpa e ser sua também. Não quero falar dessa quase culpa. Tem um tempo pra mim? Não leva-me a sério, não a levo pra cama, não deixa-me lhe entender, não a deixo poder coisa. Mea culpa. Mais um beijo? Se sim, responde-me. Se não, ausente-se.

Quando hoje serei dono novamente seu? Seja um pouco menos rancorosa, comunica. Comunique-se. Dá-me a mão, deixa-me chegar um pouco mais, perceber a fumaça que vem do seu corpo. Arder na minha mão. Ardê-lo, fervê-lo em mim, pra não poder ser mais e não falar-se mais de culpa pelo menos enquanto viver. Pode? Acode. Acuda-me, faz-me um favor, abençoa-me, que o que cri já não é de crer por tanto momento perdido. Tanto tempo que passou nesse tempo que você passou que você não notou-me. É só a via. Era a via. Minha via, minha estrada, meu caminho. Sinédoque. Veja o que fez-me. Nada é tão bonito como isso: Desiludir-me por "ti". Por você.

Viaja pro meu bairro, para a minha solidão de longe onde há de se fazer asfalto, não dá pra caminhar por lá... Nesta solidão é incaminhável. Tanta coisa por tapar e sanar e venho até você com discurso piegas, "salva-me, ajeita-me, direciona-me". Não caiu nessa, não é? Eu bem que já intencionalizava essa má intenção, mas sei que você em sua inteligência não deixará passar barato essa boca que eu quero fazer com você. Minha coloquialidade a constrange? Meu jeito?, minha pieguice?, meu discurso?, meu amor?

Querer alguém é fácil. Vá lá, fazê-lo feliz como o que quer... Vá. Está tudo feito e acabado. Debrucei-me sobre o seu colo, só pra ver se arrancava um pouco da sua atenção. Você é mesmo perfeita. Rígida. Não dividirá jamais as suas particularidades comigo. Ficarei à parte. Ficarei com a minha culpa. Nem quer, se esconde, ignora-me toda hora para não falar da quase culpa. Já assumi, a assumi. A quero mais que amanhã, menos que pensei, mas a quero, sim. É tudo o que sei.

Vou matar a lua, enlamear a sua rua; calçar os seus chinelos. Vai ficar descalça. É coisa de bem feitoria. Porque quer. Escolheu assim. Apesar de a amar; ainda faz uma pose de esperta: meia-vadia. Vadiagem honesta, claro. Mas é uma vadia de marca. Boa. Presunçosa. Ah, como me dilacero no seu corpo azedo, conforme, enorme. Sem nome. Quero um pouco mais de você. Quero mais de você. Quero você. É. Me estremece o corpo e as partes do meu enigma que reservei quando pudermos olhar um pro olho do outro e xingar-nos à vontade. Afinal, eu sou um puto novo pra você. Eu sei que você queria mais. Um velho safado, talvez. Um rei irado, pode ser. Um rico doente, sim. Um homem demente, penso. Mas eu sei que eu sou um pouco do que procura. Não perderia meu tempo aqui se não fosse. Eu sei. Deixa "eu" saber? Me conta alguma coisa. Pode ser desonesta. Eu aceito. Pode ser puta outra vez. Eu aceito. Eu quero.

Arranque-me pra você. Leve-me com os seus apetrechos. Roce-me no seu lábio, como o seu batom. Deixa eu dar um pouco mais de beleza para a beleza que me dá um pouco mais de leveza na vida que me tira um pouco mais de alegria sem razão. Essas coisas não são nada razoáveis. Talvez, se deixar-me plantar semente do querer, nesse peito cansado, há uma promessa pra mais adiante de transformar essa semente no jardim todo que teremos, o germinal da saúde de nossos corpos, a benção de nossas bijuterias na penteadeira, a materialização e saudação de nossas boas fotografias, nem reveladas e ainda por tirar, ainda por fazer pose, ainda por dizer "xis"...

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Aura

Aura tirava o excesso de areia das pernas. Batia as mãos nas coxas, espanava todos os grãozinhos impregnados à sua pele, branca tal como as falésias que davam fim à costa da praia em que estava. Podia se ver de lá, de onde estava lavando as pernas nas ondinhas do mar, as falésias de calcário, que mais pareciam gizes gigantes, com os quais se poderia escrever até no céu, marcar até no mar, na água solúvel que só não desmancha sentimentos sólidos.

Aura deu alguns passos para ir ao alcance da água, tirou a areia depois de ver-se saciada de sol, sem um bronze digno pois o dia não era mesmo de sol. Aliás, os dias não eram de sol já há algum tempo. Onde estariam os sóis que bronzeariam Aura? Muito poída com este tipo de pensamento, já nem se desgastava nestas lucubrações.

A sessão de sol acabou ali. Aura se levantou de sua toalha estendida na areia, apanhou o chapéu e foi até o mar vivificar o seu ritual destes dias do descanso. Por alguns minutos, ficou a levar, com as mãos em concha, água nos braços, no dorso, nas pernas e no rosto. Uma tarefa simples e tão despida de outras necessidades - não fosse a procura do bem-estar - que todos aqueles momentos pareciam ser mais suficientes do aqueles que se escolhe para viver aventuras. A aventura era não desafiar o corpo e respeitar a serenidade das coisas, optar pela beleza e a simplicidade, não ceder a tentação das grandes cidades. Preferir o íntimo lúcido aos portes insanos que o dinheiro oferece.

De alma pronta e corpo lavado, Aura olha pra frente e segue o caminho da volta à toalha e aos pertences que deixara ali pra Deus tomar conta. Deus não só tomara conta, como lhe dera uma bola colorida, que repousava sobre os seus óculos escuros. Mal dera o presente - nem houve tempo para espanto - Deus o pedia de volta, na pele de dois meninos mais corados que ela. Até então não havia reparado na presença das crianças - tudo lhe parecia um silêncio honesto. Pois então as crianças acenavam de longe, pedindo para que lhes devolvessem a bola. Meio desengonçada, Aura tentou devolvê-la com um chute, mas caiu: ela gargalhou com a própria trapalhada; os meninos não riram e correram em seu socorro. Nem foi preciso, no ínterim da corrida dos meninos, Aura já equilibrava-se, já de pé, com a bola colorida nas mãos, pronta para devolvê-la.

Os três entreolharam-se por um instante, com uma seriedade estranha, que acabou numa explosão de risos de vários níveis e de gargalhadas simultâneas: Aura lembrando-se do tombo trapalhão; os meninos percebendo a preocupação exagerada. Agora todos riam: Aura descorada e os meninos corados e, até mesmo, de algum modo, a bola colorida.


Num ímpeto, Aura se curvou e os abraçou. Eles, mesmo sem saber quem era aquela mulher com quem partilhavam risos de intimidade, a abraçou até onde os bracinhos podiam ir. Aura se despediu com um beijo na testa de ambos, e os meninos voltaram para onde estavam, com a bola colorida, a passar a tarde de lazer.

Um caso exemplar, não se poderá perceber tamanha agudeza da beleza das coisas; e a vida engrena mais um de seus movimentos para se valorizar o que realmente há.

Depois de algumas horas passadas, desde o episódio da praia, Aura racionalizou sobre tudo, e lembrava-se do aborrecimento inicial de não poder tropicalizar a cor de sua pele, porque o sol não a visitara naqueles dias de raro descanso.

Mas tudo aquilo agora perdera toda importância e Aura não conseguia pensar em outra coisa senão na bola colorida, nos meninos, no tombo e nos risos daquela tarde. Aura não ganhara cor, mas ganhara uma bola colorida que residiria para sempre em seu imaginário: o mote para um riso qualquer; assim como aqueles meninos que, dali por diante, ririam para sempre em seu coração: a circunstância de seus dias.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Matéria do Sonho

Em seu peito enovela dúzia de amores vividos. Num simples divago, passou a repensar. Eram tempos tão justos e mal aproximados da lembrança; medir o presente que virá a ser passado. Por quê? Porque este repassar do tempo lhe parecia mesmo justo e que, em algo, lhe enganava de viés; mesmo assim: justos. Tal como aquele aperto que comove o coração, e depois dissipa-se, como a água em poça, daquelas chuvas de verão. Era amor de primavera. A primavera se estendeu pela vida. Sinhá Linda. Nhô Formoso. Para quê os nomes, se os predicados que se apresentam os apresentam melhor do que os nomes, estes atestados feitos para que possamos saber (será?) quem somos?
Uma aturdida sensação "de nada", vazio constante, o fez de jeito para um susto maior, que até grito houve. "Senhor!" Eram as lembranças das sensações já não sentidas e que fluviou pelos olhos com uma fé sem certeza de que o futuro não era digno de temor: nem existido havia. Era algo de só pensamento e um ungüento pra bem, de vez em sempre. Toda a medida do sacríficio era uma dúvida do exercício da sinceridade - mais patrocínio de noites sem sono e sem um quente corpo pra esquentar os pés, lá embaixo das cobertas, invisíveis-brancos de tão gelados.
A solidez de seu rumo era um caminho de pedra cascalhada; louvava a força que ainda se esticava nos músculos, até à face, para um sorrateiro sorriso. Mas tão inibido, que mesmo o ar, que forçosamente lhe enchia os pulmões, naquelas noites frias, intuía ser matéria de respiro por ali, e vida. "Todos somos" - pensava - "um exercício de memória e um teste para o infinito pendente".
Era a justa condição de que lhe falavam; mas, o corpo riste, inseguro, incomparável em dor espera o tino da passagem da luz-ponte; da matéria vibrada em desencontro de se parecer mais umas dessas enunciações e ritos de natural e terna "simpleza".
"Ah, coraçõezinhos!", dizia pra si, "Coraçõezinhos quebrados, mas nunca, quando, dá dó, fabricar dor e arrependimento: não foi pra isso que fui criado". Mais um tempo, se empertiga a pronunciar - "Se rechaça a idéia, mas nunca o amor. Este segundo, como a mãe ensinou, era pra respeito, e merecia altar na louvação dos sentimentos". Ruma sempre pra verdade, como se fosse bê-a-bá dos pequenos. "As formosuras não são tão formosas quanto as formas de nosso querer bem a alguém".
Recitava: "Fé advém de cruz-credo, pra salvar-se da mágoa ardida, da idéia que aturde a fronte." Hoje não é ontem e amanhã, talvez, (sic) "nem vem". "Mas quem espera, espera, mesmo sabendo que nem vem."
Queria era um açucarzinho para adoçar a ponta da língua e as idéias que lhe andam bem temperadas, para, quem sabe, o ajudasse a resolver estes problemas de esperança. Mas não é todo arraso: a nutrição dos pequenos vai em popa.
"Quebramos tanto a cara querendo coisa que nunca será nossa, que sofrejamos na terra por essa infelicidade previsível, fraca, mas que nos perece". Descansa de suas conclusões, parece mais maduro sobre a plenitude e o descenso que a vida lhe trouxe; a realidade já não lhe parecia tão amarga, o destino das coisas, que se entende pelo seu, já parecia retumbada pela serenidade religiosa que reverberava em seus ossos, rigorosos e frágeis.
Ainda busca certa vitamina nos abraços que recebe, no reluzir das retinas, sob a tutela das lágrimas contidas, dos amigos que o alegra e traz um fulgor repentino da juventude e do amor. "Como me regenero nesses olhos de bem, de lembrança..." Parava, parecia soluçar, mas era o tempo e a verdade que lhe cingiam limites. Nhô Formoso era de Sinhá Linda; Sinhá Linda era de Jesus, era o que falava, mas a voz e o olhar, que acalentava os pequenos (já senhores e senhoras), dividia muitos e derretia a força que lhes torquiam; as mãos nos rostos e a fuga dos olhos nas mãos denunciavam a verdade que não queriam. Os pequenos eram grandes, mas Nhô Formoso só tivera "pequenos" por toda a vida. "É de fraqueza que vivemos, de beleza que nos motivamos, desculpem, minha gente, se não sobra cama e descanso no meio dessa bagunça das nossas conclusões, eu sei que assim não dormimos bem e ficamos fracotes, e na bagunça nem se encontra gente, vê só bagunça, mais nada".
Uma outra noite, sob a luz tênue do lampião num canto do quarto, repousa com o tempo contado; sonha. E é ali, nos sonhos, onde mais se enriquece. Foge a figura das sombras das noites nos olhos, não há desespero, e a paisagem que lhe aparece para caminhar é juvenil e cálida, como deve ser o "beijo de Jesus, quando encontrá-lo". Nada turba o teu corpo, quase desaparecido sob a manta listada que já esquentou também Sinhá Linda; sob a manta os minutos estão alçados à eternidade tão desconhecida, comentada pelo mundo de Nhô Formoso... Nessas divagações dessa vida, como podemos ser tão naturais, nestes pulsares espaçados que vão lhe trazer a redenção que jamais vida qualquer poderá conceder: "A paz absoluta, meus senhores".
"A água abençoa também os perdidos de sono ou os desencontrados dessa vida".
Mais um dia, outras horas de se saber que a realidade é precisamente inversa aos nossos desejos, e de que os nossos desejos são apenas misérias do nosso corpo. O que enriquece, para Nhô Formoso, são os verdadeiros sonhos, ainda que estes não passem de desenhos pintados no sono durante o repouso; os sonhos são maiores e neles é que se deve apostar. Dizia sempre, "Esqueçam os desejos, alimentem os sonhos". "Garotada, vocês não sabem de nada, por isso mesmo podem sorrir".
Há animosidade do sinal da nova manhã, o sol começa, filtra pelas frestas; mas é um "bom-dia" tão fino, como uma linha de algodão, que passa despercebida pelos olhos semi-cerrados, já despertos, de Nhô Formoso. Algo, em si, além da boa criança que sempre foi, faz o tinir para um sorriso que vai lá acordar os pequenos. Algo jovem, belo e indescritível; risinhos sonoros ocupam o vago tão enorme do quarto. Nem mais se cabe, Nhô Formoso: é criança. Vê de longe a penteadeira, deitado, sem o encosto de travesseiros que costumavam colocar ali todas as manhãs, logo que acordava, aquilo, às vezes, era um asco. Sobre a penteadeira havia uma foto de Sinhá, ali tão linda. Por hoje, parecia que respeitariam a sua intimidade e o deixariam só, compartilhar consigo aquela sensação de suficiência, e repetia pra si: "Que dure".
Passou pelo coração a fotografia do amor de primavera, e o sentimento de que se entendia agora com a natureza. Só, mas não em isolamento, calculou o gozo da hora; um tão querer desembocava num ganho infinito, num encher-se de amor. O perímeo de seus olhos amarelos, gordos e já sem o brilho da criança daquela manhã, bloqueavam a luz do mundo, que não denotava tanta esperança quanto "os sonhos, meus queridos, nestes tenho fé". Os olhos já não refletiam luz, nem percepção: bloqueados para a vida daquele mundo.
Nhô Formoso tinha já os sentidos todos arrefecidos e recebia o beijo de Jesus, enlaçado nos braços perfumados de Sinhá Linda, quando o mais novo dos pequenos entrou no quarto e viu que o pai era, mais do que nunca, só encantamento. Só pôde chorar e rir-se devagarinho, como sentindo a dor pungente da tristeza que sublimava alegria, pois entendia que o pai transformara-se em SONHO.

domingo, 27 de julho de 2008

Tristessa


Tristessa não é a junkie corrompida, puta de Kerouac. Tristessa é quem dormiu comigo esta noite, dividiu o travesseiro e a confusão que enchia a cabeça. Tristessa é forte, com as ancas certas, tudo no lugar. Tristessa, como a outra, tinha a carne dourada, as coxas voluptuosas; com um qualquer gesto fatal, na sedução da psiqué hipnotiza-me em sua tenra carne. Tristessa nem sabe o meu nome, Tristessa nada a mim confessa, mas me quer. Não dá satisfação, mas cede destempero. Commençons, si vous le voulez bien, par un rapide historique de la situation. Tristessa parece apaixonada, esvoaça-se para mim, por mim, ainda que não dê ao menos um bom-dia, que tanto espero ouvir, de uma companheira, de um amor. Após muito pensar, não peço a Tristessa amor; descobri que nada pode me dar, e que tem um poder de subtração que não cabe em minha explicação. Não argumenta-se.
Tristessa me acompanhou até a esquina, precisava comprar alguma coisa para o café: não tinha pão e o leite que tinha era só em pó; mas Tristessa não me falou sobre o café, queria mesmo só a mim. Parece que, a descrição que se substancia será impregnada de negativas e nãos infinitos, só porque o esperado, e a boa esperança sobre Tristessa, jamais, em vida, se concretizarão. Se estou conformado? Tristessa não me conforma, outra vez, jamais, mas tem um poder consolador que desintegra um pensamento mais racional sobre esta situação. Tento uma abstração de todo esse momento, quando percebo Tristessa apoiar-se sobre o meus ombros e começar a ditar minha escrita...
O dia de Tristessa e o meu apenas começou, e algo, subjacente desta paráfrase, quer nos unir. Me afasto do pensamento, atenho-me a uma esperança doce que me apartará dos braços quentes de Tristessa...

domingo, 20 de julho de 2008

Dois dias em um

Maria levanta os dois braços, a camiseta desce cobrindo pouco a pouco seu corpo: sua cabeça, seus seios, seu tronco. O descenso termina exato quando a vestimenta já lhe cobre. A aurora do sul vaza a janela, reflete no espelho, que por sua vez joga a luz na porta de seu guarda-roupa. É a emissão do atestado de que um novo dia está por começar, outra relação de sentimentos a serem discutidos para colocá-la no entendimento da situação, na felicidade conta-gotas, no aborrecimento avalanche de todas as manhãs. Poupou o café novo; preferiu, mais por economia de instantes, se abastecer do café requentado, amanhecido e repousado na pia naquela madrugada fria. Pegou o bule, que lhe escapou das mãos provocando o primeiro estardalhaço daquele dia - o alumínio retinindo contra a cerâmica que cobria o chão frio da cozinha fria. Era tão algures, mas desinteressada daquela verdade, não se importa com tal ressonância, com o som agudo fervilhando nos ouvidos, ou nos ouvidos daqueles com quem dividia o quintal. É muito provável que boa parte dos patriarcas ou matriarcas daqueles clãs já tenha partido para a lavoura mecânica da cidade, a muitos quilômetros dali. No máximo, quem sobrara no quintal eram os filhos, os mais velhos para cuidarem dos mais novos; era o que percebera até então no quarto de ano que passara ali. A sua família era ela mesma, prestava contas apenas para si, mas isso não matava a força supra que ainda conseguia retirar do café passado, daquelas manhãs desbotadas e embaçadas. Mesmo depois do rosto lavado e do sono descaracterizado, regia as idéias para supri-la de alguma boa nova, que nem sempre acontecia nos dias de todos os dias.
A felicidade para Maria era impessoal, não estava ligada a coisas de sorte ou oportunidade, estava mais para as coisas de espírito e de percepção, de retenção do bom estado e da harmonia de como se retém a energia que constrói o mundo, em cada segundo de cada pensamento.
Stand Inside Your Love
Amor recupera tudo. Pra tudo deve recuperar Amor. Sempre aprendeu nas letras dos cadernos da escola, naquelas caligrafias ginasiais amarfanhadas pela mochila. Aprendia sobre a energia elementar, sobre as dissoluções da física nuclear, da força centrífuga, dos vetores e das unidades de força, da mistura periódica de gases e tempo, de outras coisas dos homens resumidas na tabela de períodos, de símbolos. O balão da memória lhe enchia o tórax de ar, saciava-se da hora nervosa da ebulição efervescente da lembrança armazenada na instância superior de sua consciência. Era um pensamento limítrofe pensar naquilo de “novos dias”, de “novas idéias”: tudo a incomodava num perímetro maior de que os seus braços podiam alcançar, e nunca podiam ser alcançados mesmo e ser postos para fora da zona que ela considerava segura o suficiente para manter pleno o funcionamento de seu coração em contigüidade com a racionalização do momento, daquilo que residia lá, na matéria que a desmoronava em nostalgia – e nostalgia era o nome que se dava à matéria liquidificada pelo sentimento de quem se amanhava e se alimentava da liquefação do tempo existido, ido, datado em uma dimensão apartada da realidade do respiro, do agora que era da manhã que nasceu.
Maria saiu, viu a manhã e o sol rebater no retrovisor do carro que saía da garagem a quatro portões do seu. O dia já existia.

***

Já era tardezinha quando notou o barulho das árvores e suas folhagens farfalhando desertas na pequeneza ou na esperteza daquele lugar, do universo. A hora do belo ensaio da despedida do sol contra a aspereza do que fora o dia para Maria. Caminha até a praça que conhecera apenas há alguns dias, ali era o lugar de que se lembrava naquela cidade onde pudesse repousar e libertar-se dos pensamentos que a incomodavam, e que a empurravam para o abismo da solidão. Maria é nova na praça, na cidade. Maria é nova para Maria. Desde que saiu de casa para os préstimos da vida, para a vitória, havia nela uma sensação de estranhamento sobre todas as coisas - a ausência do pai, da mãe, da irmã lhe esvaziavam o peito de ar, alimentando-a de soluços secos, mas que não a prostravam na condição. O peito já não se enche e nem se sobrepõe como na manhã. Naquela hora, o negrume é só o de seus cabelos na penumbra, forte, longe do feixe de luz que emana do poste, onde prosta seu corpo leve e cansado.
Maria é bonita, no simples e objetivo sentido da palavra. Seus olhos castanhos, amêndoas, pareciam dinamitar os detestáveis. Seus cabelos também castanhos, lisos, ganhavam descanso em seus ombros pequenos suaves e ainda tão fortes. Maria tem vinte e um. Os seus sonhos parecem ter muito mais que a sua idade, parecem muito antigos e com um frescor que adolesce com certa intensidade. Maria nunca estivera antes em uma cidade tão grande, tão tensa, tão formosa e com tantos olhares que deflagravam alegria e tristeza quase na mesma proporção. Maria nunca estivera tão só. Fora criada e educada numa cidade pequena, onde as arestas do município eram bem conhecidas: as pessoas tinham nomes, dividiam as vidas com a cidade e multiplicavam confiança. Viera para a cidade para o estudo superior, para a faculdade, tão sonhada pelo pai, de Agronomia. O seu pai a via muito logo gerindo os negócios, cuidando da produção e distribuição das hortaliças, cuidando de seus contatos com os distribuidores, das vendas e ampliando o empreendimento. Sempre que se via nos sonhos do pai Maria não se via. A projeção do futuro era difícil para Maria, como um projetor sem filme para rodar.
Naquela tarde, quando tentava assimilar um momento bom e uma fuga do estabelecido, desde o ritual de vestir-se com a blusa de alças finas ajustando-se ao corpo, chorou, chorou como criança, mas Maria ainda era uma infante, percebeu o refúgio quente no cigarro onde tragou angústia, tentou convencer-se de que aquele vazio se dissolveria no ar, tal como a fumaça do cigarro. Agora estava com a ponta do cigarro nos dedos e com os olhos nela, e a cabeça fora dela: o vazio permanecera. O seu relógio marca cinco e quarenta e cinco; o sol se prepara pra sair, é quando despeja melancolicamente a luz que dava a cor de saúde à pele desbotada de seu rosto, e escondida sob o cardigã vermelho - presente da mãe. O choro poderia ser abafado pela manga do cardigã, como foi; o som agudo e baixo da sua baixa sintonia poderia ser ouvido, ainda assim, por quem passasse por ali. Tentou entender de que precisava de um controle, caminhou, ainda com os olhos encharcados e vermelhos, sentia. Estava restabelecendo quando sorveu o primeiro gole da coca-cola que comprou ali, naquela esquina que observara todo o tempo enquanto esteve sentada, onde acompanhou o movimento, a deslocar dos transeuntes; quantos problemas cortavam aquela esquina, quantas lembranças esfumaçavam ante os ônibus e os táxis que paravam ali, naquela esquina que observou durante toda a tarde e onde comprou a coca que lhe resolvia. A bebida descia como uma droga experiente que lhe acalmava: era um placebo. A bebida gasosa era um dos paliativos de que utilizaria para ânimo ou para despistar os olhos dos outros de seus olhos vermelhos e ainda úmidos. Precisava de uma aspirina ou de qualquer coisa que a exonerasse daquela dor de cabeça que começava a incomodar.
Abre a bolsa à procura do comprimido, e vê que trouxe consigo o discman: precisava mesmo de uma música que fosse. Melodias seriam o analgésico de Maria. Algumas notas poderiam trazer a Maria do início do dia, mais confiante de si, menos inebriante, com mais sentidos que suporia quem pudesse olhar para o seu rosto pequeno, coeso e esvaído de um torpor de sentimento. Um dos fones de seu discman não funcionava. Ligou o aparelho que agora poderia ser uma salvação da noite e esquecer de que poderia não ter tido aquela tarde, aqueles pensamentos. E com apenas um dos fones começou a ouvir Nick Cave & the Bad Seeds. Deixara o Let Love In dentro no aparelho porque o amava. Era um daqueles casos de amor e cumplicidade de que não se consegue explicar. Nick Cave era uma jóia para Maria, as suas canções a amornara e a desestranhara da vida já tantas vezes, desde os dezessete, quando assistiu a um filme, do qual não lembrava o nome, no velho videocassete de Ângela, sua amiga de infância e de travessuras juvenis. Haviam pegado o filme porque o professor de história pediu para a composição de um trabalho sobre a Alemanha do pós-guerra, e para isso consultariam uma bibliografia extensa; e um dos filmes da lista era este de que Maria se lembrava do som, menos da imagem. Nick Cave aparecia no filme, desfiando toda a insalubridade de que Maria sentia desde a pré-adolescência, quando percebia alterações significativas no seu pequeno corpo esguio. Cave, para Maria, era a resolução das funções matemáticas e biológicas alimentadas pela sua cabeça jovem, pelas impertinências, pelas indecências camufladas sob a película de seus sonhos, que ganhavam formas sob seus olhos de retinas sisas e brilhantes. O dia já transformado em noite ficara menos denso, com música para os ouvidos e para o peito de Maria.
Algo ainda não se encaixara no eixo de suas idéias, mas a cabeça de Maria parecia entender com mais frieza sobre o destemperamento da lógica por que caminhava em seu mundo. A música arruínou a sua, agora finita, deprimência; ergueu-se a lembrança do dia e a mostrou à noite. Maria tinha música no coração. As debilidades se encaixavam a partir daquele momento, e todo o equilíbrio parecia estar de volta; desde o momento em que se levantou e sentiu o vento do sul soprar através das venezianas, mas não tinha luz ali que pudesse vazar até onde estava, mas havia ao menos uma nesga de luz para os seus movimentos, e sentia a partir de então que uma enorme causa dentro de si ganhava gás, na força incontinenti de Maria. Tinha algo mais nela que não podia ser sorvido com a bebida, e parava na garganta. Não se sabe mais se é aquela angústia tragada no cigarro ou se é o choro que lhe quer render. Tudo está mais calmo, e Maria sabia que tinha, além de música no coração, a sensibilidade de que a luz que procurava ali não brilharia.
Com os olhos secos, com a boca seca, os pensamentos secos levantou, caminhou, olhou para o céu, como se para fiscalizar a quantidade de estrelas daquela noite, e ficou minutos com a cabeça erguida para os pontos de luzes distantes que a noite exibia. Mais decidida sobre a vida, sobre aquela noite, sorriu com uma honestidade de criança, serelepe, e saiu. O seu caminho a esperava por aquela hora, aquele era o momento da honestidade e o da superação: a vez do caminho de volta e a de passar a limpo os dois dias que fora aquele dia.