quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Brasilidade

Não sou índio. Não sou negro. Nem pardo. Nem jambo. Nem mulato. Sou duma cor que não é aquela cor. Ou de cor que não se pronuncia porque não se sabe o nome. Não se sabe, mesmo. Sou brasileiro, mesmo sem penachos, sem aldeias, sem gritos selvagens.

Não tenho ancas largas. Não jogo futebol. Não moro no Rio. Nem sou da Amazônia. Não tenho abacaxi ou qualquer outra fruta na cabeça. Nem flanelo no corcovado. Não adoro o Cristo Redentor. Acho interessante todas as belezas do meu país, mas quero conhecer outros também. Os vizinhos, os longínquos e distantes. Mesmo assim, com tudo isso, sou brasileiro.

Minha brasilidade não é estampada em selo, cantada em música. Leio os alemães, os franceses, os uruguaios, os japoneses. Assisto os franceses, os italianos, os americanos, os mexicanos. Visito os paraguaios, os argentinos, os bávaros. Sou paulistano, essencialmente brasileiro.

Vi o Nordeste; nadei nos rios do Pantanal; observei tanta coisa bonita nos litorais brasis... Não conheço o meu sotaque, mas sou, do subúrbio da maior cidade do meu país. Não tenho símbolos, não canto bossa e, mesmo assim, sou do Brasil.

Não ouço samba, mas sei da importância dele. A minha existência é paulista, mas dimensiono o meu continente Brasil também fora dos atlas.

Posso até ouvir Tom, mas Bowie e Dylan também. Posso saber da relevância dos Caetanos daqui, mas gosto dos Sinatras de lá. A minha existência e a minha cidadania vai além de quatro cores, são de todas as cores. Sou do Brasil, do azul-anil, amarelo-ouro, verde e branco, mas sou das imensidões das outras cores que colorem o mundo.

Sou da Terra, do Universo infinito, caibo além das fronteiras, resido no mundo.

Meu RG é brasileiro, e os meus caminhos são essencialmente de zonas não demarcadas, de toda a esfera, meu habitat deve ser maior, tal qual objetivos e sonhos - ilimitados.

Minha brasilidade está além do Brasil, porque está aqui, cuida do jardim, vai ao cinema, cuida de si, compra pão, trabalha vários dias para ter só alguns de descanso.

Sou essencialmente da América do Sul, sem orgulho, sem preconceito, com dignidade fundamental. Brasileiro além dos mitos, dos folclores. Do caos, da rotineira metamorfose.

Sou brasileiro suburbano, tranqüilo, metódico, honesto, desajustado, mas essencialmente preocupado com os rumos do país, do mundo.

Chega de insensatez, para viver do jeito que se dá, e lutar para o melhor, do nosso jeito, do melhor jeito. Ser o brasileiro dos dias, não dos cartões postais, nem das canções que só citam a beleza (que não pode ser ignorada) e desconsideram a nossa crueza (que não pode ser ignorada).

Sou brasileiro. Se desafinado? Não sei. Na batida dos dias, para ser herói.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Noite feliz sem "Noite Feliz"

24 de dezembro. Véspera de natal. Músicas com sininhos. Melodias pastosas, algumas poucas bonitas, para saudar essa data que nos enxarca com simbolismos aos montes desde criança.

Não. Pelo menos agora, digo não ao Jingle Bells. Para celebrar o natal, dispenso os coros natalinos, as crianças bonitinhas, as flautas doces afinadas para Noite Feliz.

Uma canção de natal que não fale do natal para saudarmos com mais força ainda as alegrias que não estão nas datas, estão na gente.

Bob Dylan, George Harrison, Tom Petty, Jeff Lynne e Roy Orbison (uma das vozes mais magistrais) para cantar pra quem quiser bem ouvi-los.

A música de natal é Handle With Care, do Traveling Wilburys, daqueles cinco "fracos" meninos.

Feliz Natal!


quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

A Calça Xadrez de Richard Gere



Ao assistir, nesta semana, Acossado (1959), de Jean-Luc Godard, algumas cenas que não são deste filme vêm à tona em meu pensamento. Lembranças de longe, ou de muito tempo, mas próximas porque conservam ainda certo frescor quando surgem, assim, quase que sem querer.

As cenas, às quais me refiro, ficaram um bom tempo confusas, naquelas lembranças da infância, das noites com os olhos pregados à TV. Confundi protagonistas, nome de filmes, músicas, interpretações. Numa época em que, para mim, nem era importante saber quem era o diretor deste ou daquele filme.

As imagens confusas, embaçadas por um certo tempo, tornam-se nítidas quando volto a ouvir aquela música da cena do chuveiro. Pela primeira vez, ver um homem e uma mulher nus, num filme, fazia parte do descobrimento, do mundo e de mim mesmo. Homem e mulher unidos, fazendo amor, era uma possibilidade apreendida dos filmes, primeiramente. Eu saberia muito depois o quão bom e importante é dar e receber isso o que chamam de carinho, de amor.

Suspicious Minds, por Elvis Presley, é a canção da cena do chuveiro. Para bom entendor meia-palavra basta? Os entendedores então já devem saber do filme a começar pelo título deste texto. A Força de um Amor (1983) é o filme. Remake americano de Acossado, filme seminal da Nouvelle Vague francesa.

O argumento do filme francês, de François Truffaut, é o mesmo para o filme americano (a história de um ladrão de carros que decide burlar todas as regras para viver com a mulher que ama), mas a versão americana é bem diferente do original francês. O filme conta a história de um ladrão de carros, que na fuga, em um de seus roubos, acaba por matar um policial. Com a complicação de sua situação busca ajuda junto à sua namorada. O ladrão embute a idéia de fugirem para o México. No elenco, Richard Gere e Valérie Kaprisky fazem as vezes de Jean-Paul Beomondo e Jean Seberg. As cidades de Marselha e Paris, do filme de Godard, aqui são substituídas por Las Vegas e Los Angeles.

Como visto, o enredo parece mesmo muito simples. Jesse Lujack (Gere), como um emblemático galanteador, lança mão das suas poderosas armas de conquista para convencer Monica Poiccard (Kaprisky) de que o melhor caminho é a estrada, vencerem sobre as rodas de um cadillac até alcançarem o sol do México.

Lembro-me que as cenas deste filme compuseram um quebra-cabeça que peça a peça foi montado, pelos anos da infância, puberdade até ser estabelecido posteriormente no mundo dos adultos.

As cenas de nudez, de sexo; o sentimento de devoção de um homem à uma mulher; os sonhos desenhados com um tino sentimento de inviabilidade de realização, mas, mesmo assim, acreditados; o plano de vida arriscado por um ideal que tange a inocência, com uma impureza leal característica dos filhos que descobrem que o mundo dos pais é o seu também.


O último grito, o último giro, a última dança... O abraço de despedida que promete volta; a confissão mentirosa de 'eu não amo você'; a mentira deflagrada: 'sua mentirosa'; a piscina azul com o som da água de Monica imersa; a imagem no tremeluz do maiô vermelho; Jesse, tal como um Tarzan, descendo até a piscina; Jesse adorando a vida e lendo, compulsoriamente, O Surfista Prateado; Jesse, um anti-herói, um marginalzinho que vê a vida como objeto de total desfrute. Isso, na minha infância, me causava certo fascínio, mesmo que não entendesse muito bem.

O banho de chuveiro ao som de Elvis; os arranques no cadillac. A redenção de Jesse por Monica, talvez a seu único combustível de fé em sumplantar as armadilhas que se enredavam para por fim a sua crença, abalar a sua carga de confiança no amor. A incidental de Philip Glass resume um pouco tudo isso.

De novo, agora, a última corrida, o último giro, a última dança. Jesse parecia acreditar, mais do que nunca, no grand finale; que nunca o separariam de Monica. Tudo isso, no último escape, do último giro... Numa das fugas, buscar abrigo num cinema.

Estas imagens se juntam quando me lembro um pouco do que me ocorria. Do filme e da melancolia e emoção que me acometiam ao assisti-lo num fim de noite, já muito tarde. Enquanto meus pais dormiam, eu, de alguma maneira, na sala, sonhava acordado. O mote era ver o mundo que eu ainda não via. Sem saber, que muita coisa viria depois; e muito depois poderia me lembrar da calça xadrez de Richard Gere, de sua aposta com a vida, daquele amor que não cria ser mundano; arriscar tudo.

O balanço, o beijo e o fim sem volta, de quem acreditou no impossível. As crianças acreditam no impossível. Acreditam porque não mensuram o tamanho das coisas estabelecidas, nem divisam bem o que faz parte do mundo imaginário e do mundo real.

Para mim, era mais do que possível ser um Jesse Lujack a correr pelas ruas, rasgar o peito, e dividir o chuveiro com alguém digno de meu amor, cantando Suspicious Minds.

Ainda não tive a minha calça xadrez, mas é uma questão de tempo. Aprendi que - ainda que se deslize nas tentativas - é preciso mesmo arriscar...

Penso, matuto e não desacredito.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Vinho Rosé

As vinhas prensadas. O suco maturado. Meio em cor. Pouca. Fermentá-lo o suficiente para o rosa furtivo. Da morna cor. Alguns acham que é vinho inferior, menor. Não. Não foi, não é.

O vinho rosé verdadeiro não é mistura de vinhas; é o vinho rosé, na fermentação de muito preparo e cuidado e pouco contato com a casca da uva. Nem muito sangue, nem muita água.

Vinho rosé. Quais vinhas adocicarão meu paladar gulag? Meu corpo tinto, minha alma branca. Meu presente é rosé. Fuligem do vulcão me fez tossir. Preparei novas prensas, medi acidez, marquei o aroma. Não é o tinto e nem o branco que ouso produzir. É o rosé.

O engaço se sustiu da seiva que já não circula por ele. O bagaço é o que produziu líquido, suco para os açúcares do álcool purpurificado, roseado ou branco. Manso, não rege-se novas nas novas uvas da rosca infinita que as carregam para o caminho da prensa, que substitui pés.

Os sentidos se distraem na colheita das uvas da colina. Nem menos engraçadas as uvas desta safra nos trazem aquela graça, única e competente. Exaltado Baco, exclamadas profanações. A hora do deus místico, da cabeça solta, dos sentimentos não-controlados. Acham que é uma lei escrita naquelas colinas. Vinhos diferentes. Outra safra. Outra vida. Vidas diferentes. Não poupam a poupa que nos dá torpor, alegria. Nos dá vinho. Quero rosé.

Não ser o tinto e nem ser o branco causa já uma estranheza. Ser rosé é não ter time ou uma preferência sucinta. Rosé porque é a mediação, talvez. Rosé porque não é vermelhidão da carne, nem a alvidez do espírito. Porque não é de espírito e de carnes. Nem de amor. Nem de dor. Amor e dor nem devem ter cor, mas pintam com vermelho o primeiro, o segundo veste branco. Vejam as brancuras dos hospitais. Os olhos da paixão, crispados, brilhantes e vermelhos.

Mas não. É o meu ser a forma e cor matizado em rosé. Não o meio. Não o fim. Não o início. Mas o único. A forma, cor únicas. Vinho rosé alaranjado ou bem púrpura conhecido. Mas, de nada se sabe das cores e dos aromas dos vinhos. Dos das nossas.

Por não ser de partido ou coligação etílica escolho o rosé, algo que mais se aproxima - não da anarquia - da neutralidade. Mas o rosé não é neutro.

Cabernet Sauvignon ou Merlot para adornar a mesa na decomposição sincera das suas vinhas, do calor fermentado na cor transparente roseada.

Por que furtar-se? Provar um rosé, assistir Judy, sentir que ainda é muito bom ouvir Nara.

Um dia, além de sobre rosé, conversaremos sobre outras coisas, talvez andando pelas ruas de São Francisco ou mesmo, mais fácil, pelas alamedas de São Paulo - a caminho de umas boas conversas, de uns bons vinhos e de umas bem-vindas boas noites.

Começar a falar de vinho e terminar com referência de amizade é tão clichê, eu sei, mas é o meu que ninguém tasca.