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domingo, 6 de setembro de 2009

De Bota pra Copa

foto: arquivo pessoal

Baía de Guanabara, que para Levi-Strauss parecia uma boca banguela, num pôr-do-sol de junho de 2009



Desembarcávamos na praia de Botafogo numa manhã de insucessos, indescansável. (Como eu queria agora uma escrita mais corrente sem precisar usar sufixos como "in", sinônimos, não incerto, de infelicidade.) Mas havia uma vontade muito grande do descanso, da manhã descansável. E como era ruidosa a paciência que temia nos dominar, ficamos então dominados pela impaciência. O alojamento não havia recebido a nossa confirmação de reserva. "Que reserva?" O albergue era "lindo" o que não nos causaria surpresa se ali estivessem hospedados alguns belos senhores da família
Muridae. Fomos atendidos por um dos administradores gringos da estalagem, quase sob a escuridão, parecia-nos proibido o acendimento das luzes para atender educamente hóspedes que chegam para ocupar os aposentos. Não sei a razão. Por que pagaríamos por "tudo" aquilo? Mas não pagaríamos mais, graças as intervenções divinas que não fizeram chegar a eles o nosso e-mail de confirmação da muquifa reserva. E não havia mais vaga. Graças! Ah, muito melhor assim seria. Com poucas pilas no bolso, teríamos de nos revirar para encontrar outro lugar para dormir, tentar um dia descansável.

Raivosos pela insolência sofrida, saímos andando por Botafogo enquanto pensávamos no que seria, no que poderia, no que viria, no que não será, no que não poderá e no que não virá. As insistentes ponderações de grana nos martelavam a cabeça. Procurar um hotel, um outro alojamento, outro hostel, outro albergue, outra pousada, outro quarto, outro abrigo, quando àquela hora já um tapume de madeira que nos protegesse da maresia, do som periódico da avenida e do barulho dos carros, e onde poderia nos proteger de uma chuva fina, tal tapume seria de infinitas estrelas.

E não sei porque razão havíamos entrado na São Clemente, o que me fez lembrar do
Balé do Pato em Botafogo, de um dos mineiros mais cariocas, Paulo Mendes Campos, que narra, dentre outras, um fato com o salva-vidas que testemunha, por força de macumba pra ter o marido de volta, uma francesa indo a um aviário, que ficava ali no comecinho da São Clemente, pra comprar um pato branco pra soltá-lo na praia. Se o pato seguisse pela baía, o marido voltaria; se o pato voltasse, saísse da água, o marido não voltaria mais. Mas Alexandrino, o salva-vidas, não perderia tempo, lógico. Quando a madame fosse embora nadaria até o pato, e como pediria posteriormente à patroa para cozinhá-lo ao molho pardo.

Alguns acreditam em destino, eu acredito em travesseiro. Pois era só naquilo que eu queria acreditar. Mas seja o destino ou a atração definitiva por uma cabeceira no miolo de Copacabana, acabamos por parar a uns quarteirões do Copacabana Palace. Estávamos tão perto e tão longe do hotel das estrelas. Mas estrela de verdade era brilhar seis andares sobre a avenida Nossa Senhora de Copacabana e ouvir o murmurinho do Rio de Janeiro. As saliências cariocas. As desmedidas fluminenses. Não era à toa. Recordava-me de outros acepipes, sobre aquela mesma e eterna Copacabana. Esses dias são as matizes de sonhos. Poderia pensar? Não. Definitivamente, não. Exclamávamos que não poderíamos pensar. Deixemos que os poderes astrais que nos levaram incontinentis pelas calçadas da zona sul nos fizessem enfim sobre o pé do céu dormitar por algumas horinhas apenas, e que a insônia paulistana fosse insuflada de uma tomada de ar quando no caminho das arestas sem fim do hedonismo carioca.

A Botafogo dos planos convaleceu-se à pequena e larga história do dormitório copacabaniano, ou copacabanense, ou copacabanês. Há tantos houvera tantos. Lembrança de chuva, de mar, de nuvem. E quantas nuvens...

Mas sobrava sol. E foi tudo tanto assim tão. Para nós. A leveza suja de Botafogo valorizou a enorme e mascarada Copacabana. Terminando igualmente igual num outro texto em que de original não há nada senão ser o próprio palimpsesto de um outro, de uma outra lembrança, outra viga do tempo e da memória, no caminhar vadio, alegre, de Botafogo à Copacabana.

domingo, 7 de junho de 2009

Momento particular

Domingo. Bem domingo. Casa. Em casa. Pode ser bom. Poderia, deveria ser. É mas então não é. Não será, pelo menos pelo visto hoje. Conclusão!? Um momento particular. Razão e razões para não ser mais o que é para deixar as coisas como estão. Eu não estou. Já fui. Agora eu era. Era de uma era tão distante, de não fazer poesia, nem brincadeira de criança para as crianças. É. As crianças dormem. Os adultos não sossegam. Eu não sossego e não me apego às coisas mais salutares que a vida como tem sido sendo tão sem ser aquela sem sabor. Se sou, já poderia ter sido. Se vou, já poderia ter ido. Se escrevo, já poderia ter lido. Poderia bem ter ido enquanto sido quanto lido. Mas não é nada. É um talvez até. No máximo. No mais, fico. Não descanso. No mais, me apego à algumas canções enquanto escrevo, enquanto não durmo.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Era abril

Amanhã vai ser outro dia!

O pai em frente à televisão ligada. Notícias sobre política, comícios, jornalistas, artistas na TV e o menino não entendia nada. Não sabia nada daquilo, do significado de tanta gente nas ruas, portanto nada fazia sentido pra ele. Muito barulho, camisetas amarelas, muita gente falando. O menino, com 5 anos, não podia mesmo saber do que se tratava. Descobriu na escola, uns 5 anos depois. Eram as "Diretas Já". Era 1984. O ano em que o mundo deveria acabar. E não acabou. Para o Brasil ele começou. Começou de novo em 1984. O menino se lembra de que, àquela época, havia sobre o armário da cozinha uma Colomba Pascal imensa (sob os olhos de uma criança, em lembrança, tudo parece ganhar uma magnitude maior do que realmente é). Era a época da Páscoa. Era abril.

Na mesma época, em uma confusão de imagens, ele se recorda do pai em frente à TV, e que fazia um sol muito forte, muito claro e que clareava toda a sala. Era feriado então; para o pai estar em casa num dia de sol, só podia ser domingo ou feriado. O pai trabalhava durante os dias e só chegava quando o sol já estava muito fraco ou quando já não estava. Era um dia de sol, e o pai lustrava a sua bicicleta no chão da sala, com a TV ligada. Todos os canais falavam de um só assunto e o pai pedia para que o menino não fizesse o menor barulho, queria ouvir a TV. Ver o que se passava. O pai do menino era metalúrgico, e conheceu nas suas visitas ao sindicato o homem que agora dirige o Brasil. Então, associou, o que entendeu só depois, a confusão de imagens, de gente e de mistério que exibiam na TV. Era a morte do Tancredo. Aquele que quis dirigir o Brasil naquela época, para levá-lo a outros rumos, outras histórias. Aquele homem, o Tancredo, morreu, pouco depois da Páscoa. Era abril.

Sem saber, 25 anos depois, o menino rememorou tudo aquilo. Recordou de tudo, agora num mundo diferente do daquele que compartilhara com o pai, e que agora não compartilha mais. O menino, sem querer, se lembrou do pai, do tempo, do sol, das vontades e da ingenuidade. Ele fotografou alguma coisa que não se perderá, não em filme nem em documento. Guardou, simplesmente porque algo instintivo fez com que levasse aquelas imagens, aquelas ousadias de que não entendia, só porque queriam liberdade. O menino lembrou de tudo outra vez e chorou. O menino se lembra de que o pai não choraria. O pai, formoso. Se recompõe. O menino olha para o vazio e sorri. É abril.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

509

Central do Brasil: um pequeno cosmo do Brasil

Ontem, 22 de abril de 2009, o Brasil fez 509 anos. Essa é a verdade que os livros de história nos contam desde quando não nos damos por gente, e lembramos dela, e bem. Uma das primeiras lembranças primárias relativas a nossa educação é o "Quem descobriu o Brasil?", para respondermos na ponta da língua "Pedro Álvares Cabral". O sentimendo de "nação brasileira", talvez, não tenha sequer 150 anos. Ou seja, o que significa 509 anos, se parece-nos que o Brasil não precisaria de tanto para chegar ao que somos hoje, precários, meio-contentes e conformados?

Os primeiros anos de colônia, da Terra de Santa Cruz, foram de intensa exploração e reconhecimento deste território. Não havia nenhum princípio de semear e desenvolver uma nova terra aqui, um novo lar pelos ibéricos; apenas a política egocêntrica de extrair os bens dessas terras desconhecidas, do Novo Mundo, para utilizá-los lá, do outro lado do Oceano. Essa foi a realidade da América Espanhola e da América Portuguesa.

De alguma forma, nada disso mudou muito, a diferença é que hoje temos um hino, uma bandeira e muito mais gente habitando estas terras, das planícies amazônicas, passando-se pelos planaltos até os pampas do sul. Em meio a todo o fervor de quase duzentos milhões de habitantes, o Brasil é constatadamente um conglomerado de beleza e de destruição; de vontade e de submissão; que faz de todos nós os mesmos subservientes de nossos antepassados: mudaram os nossos patrões mas a tão sonhada 'promoção' a um país justo, soberano e respeitado ainda são apenas anotações da planilha de desejos de nosso demente, único e corajoso sentimento de 'brasilidade'.

Somos soberanos, sim. Temos a nossa moeda, o nosso teritório demarcado, as nossas forças armadas, uma língua, um poder executivo, um poder legislativo, um poder judiciário, uma cultura e várias etnias que fazem de todos que nasceram nesta porção enorme de terra da América do Sul serem conhecidos no mundo como Brasileiros, grafa-se nesta ocasião com as maiúsculas que melhor exprimem a semântica deste substantivo adjetivado. Está no RG e no passaporte. Soberania, então, não é apenas um sonho, mas sim uma realidade, uma realidade carente de outras coisas que não sejam somente batizadas por um grito de independência. Como diz a música Mã, do Tom Zé, "Batiza esse neném, batiza esse neném".

Temos os nossos filhos e acompanhamos, de tempos em tempos, novas gerações empurradas com ímpeto de fazer daqui o país do futuro, mas o problema é que em 509 anos parece que vivemos num passado perpétuo, onde o futuro nunca chega ou nunca chegará. O futuro não existe ou talvez sejamos um país que adora espalhar por seu povo - seu maior bem - fantasias que enriquecem os livros de história, os sentimentos de esperança que, por ventura, venham fortalecer aquilo que nos ensinam a nos orgulhar, desde cedo, que é ser brasileiro, com algum orgulho, com algum amor.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Magiar

Pessoas, alegrias incontáveis

Eram muitos. Uníssonos. Uma legião cantava. Evocavam alegria e curtiam agonia. Eram tantos. Nosso Deus. Eram tantos naquele lugar gigante. Como éramos tão pequenos. Pequeninos do tamanho dum grão. E não éramos grãos. Crescíamos em charme por esperar a Lua aparecer, o céu azular-se ainda mais e os refletores enfim serem acendidos para que em instantes dessem início ao espetáculo. Eram tantos. Uníssonos. Uma legião cantava. Evocavam alegria e curtiam agonia. Era tudo bonito. Era calmo, quando tarde. Víamos aquele chão verde. Aqueles lugares coloridos que depois seriam de apenas três cores. Era bonito. Era demais.

Esperávamos o momento de acontecer. O momento esperado. A ocorrência do momento em que o céu era mais azulado do que as horas da tarde. Ora, ora. Era hora. Era belo. 'Como será?', o pensamento pensava dúvidas, o coração sucitava certezas. 'Mas será?'

Os objetos eram uma bola e vários desejos, muitos desejos, uma infinidade incontável de desejos. De quarenta e sete mil presentes e de outros milhares ausentes, presentes com a vibração, a fúria, os cantos evocados de longe, via satélite. Trabalho das antenas distantes que aproximam. Calor, gritos e suor. Eram muitos. Uníssonos. Uma legião cantava. Evocavam alegria e curtiam agonia. Eram tantos. Conjugaríamos o que não sabíamos que era então o verbo de fazer mágica, de encantar, de fazer magia, de 'magiar'... Íamos. Fomos. Fizemos.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

26.08.96

No meio da calçada tinha uma árvore. Não, não era frondosa. Nem era bem assim uma árvore. Era uma árvore, mas não era sombra de alguma que pudesse dar sombra. Na verdade, era uma tentativa do que poderia, e viria ser, segundo meu pai, um bom lugar para o "arreio", nos dias de sua aposentadoria. Prometia até balanço. Mas a árvore não vingou, e meu pai teve de retirá-la, atrapalhava já o movimento dos carros - ainda que nunca tenhamos tido um - da garagem. Na época, meu tio a alugava para pôr o seu carro, um Monza 94.

A muda tentou vencer, mas ficava bem entre os dois portões de entrada, o do carro e o das pessoas. A muda calou-se de vez em 26.08.96, há exatos 12 anos. Lembro bem. Este dia foi fotografado pelo meu coração de estudante colegial. No dia em questão eu não iria a aula, por licença médica - havia machucado meu dedo mindinho da mão direita gravemente (nem tanto sim, apenas recurso estilístico) num jogo de vôlei. Sou destro, portanto, não poderia escrever. Aquela semana era de puro ócio (ou nem tanto assim, o espírito pubescente não deixava - outro recurso de estilo). Naquele vinte e seis de agosto meu pai decidiu retirar o entrave, a muda que havíamos ganhado num daqueles projetos da prefeitura para arborizar a cidade, ladear as ruas com um pouco mais de sombras saudáveis, que não a dos edifícios.

Muitos vizinhos ainda possuem as suas, agora árvores de verdade alcançando os fios da rede elétrica; com rabiolas e pipas enroscados em suas copas ou mesmo nos galhos mais baixos, galhos que também servem de suporte para as latinhas de cerveja de domingo - para as rodas de homens, para o som alto dos carros, para as crianças barulhentas. As árvores ajudam a suportar o sol mais forte das horas das conversas dos finais de semana, são o ponto de referência para o encontro das crianças depois da escola.

As outras árvores já estão tão grandes que os seus donos nem mais as notam; comigo sucede o inverso: é a ausência da minha - que nem chegou a ganhar o título de árvore - que é notada e reavivada em texto, mesmo 12 anos após a sua extinção. Quanto o universo se expandiu, enquanto eu recordava ausência e outros esqueciam presença? Não sei. Isso nem deve ser um debate importante.


Pois, neste vinte e seis (eu gosto de escrever números por extenso, mas vario quando quero; bem, aqui não há regra, e o texto é mesmo meu) meu pai a arrancou de lá, do quadrado central da calçada; não fossem sonhos pequenos, outras coisinhas mais, aquele seria um dia qualquer perdido na existência dos demais. Sinto a textura do cimento fresco preparado pelo meu pai para tapar o buraco da calçada. O produto arenoso escorregando pela pá, quase um ritual, simples, bobo, trivial, como tapar um buraco de um solado desgastado - os sapateiros que o digam. Um momento ordinário para o mundo, mesmo para mim então; mas era uma árvore a menos no mundo, num mundo que nem a conhecia; mas eu a conhecia e então posso dizer que o momento não era tão ordinário assim, pois era um momento meu. Nossos momentos são nossos de forma que um instante de nossa vida que seja, por mais desimportante, não será ordinário, pelo menos aos de cabeça sã e com o juízo em dia.

A árvore estava sem respirar com as raízes expostas, deitada num canto da calçada, e meu pai terminava o trabalho - eu queria tentar ser útil, queria ajudá-lo, ao menos para alisar o cimento no piso, no lugar que foi residência de uma arvorezinha que agora jazia em seus instantes derradeiros no outro canto da calçada.


Ontem, 26.08.08, completou doze anos desde que eu estive ali no meio da calçada e, com a mão direita imobilizada pelas gazes e pela tala no dedinho, consegui, com um graveto (um galhinho da árvore) , inscrever meu nome e a data: "26.08.96 - MARCELO"; e não sabia que, mesmo passado razoável tempo, esta data seria motivo de forte lembrança. Muitos daqueles que estavam comigo naquele dia, como a árvore, já não existem mais. Um ano e um mês depois do episódio meu pai se despedia, tal como um rito, como se já tivesse cumprido sua tarefa especial. Meu tio, o do carro, alguns anos depois, também se despedia. Brilham onde eu não sei. Meu pai não era árvore, a árvore não era gente, meu tio também não atrapalhava o caminho. Mas todos, por razões diferentes, não estão mais aqui.

Muito mudou e pouca coisa mudou - é difícil entender. Hoje tenho barba, mas ainda não me casei. Sou um homem, mas tenho sonhos de menino. Ainda vejo o mesmo rosto no espelho, e sinto as mesmas saudades, cada vez mais intensas, já que este é o mesmo coração daquela época e será até a minha despedida destes dias de poucas árvores, muito sol, e de infinitas recordações. Há um certo maniqueísmo, a velha oposição do bom e do mau, nestas digressões. Mas o que posso fazer, se são as idéias que conservo em mim? As coisas vão existindo e passando, como naquela época, e é triste não poder registrar tudo no cimento fresco: tem que ser na cabeça e, quando puder, sorrir e compartilhar com quem merece. Repetidas vezes a vida se mostra um círculo redondinho e, paradoxalmente, cheio de arestas irregulares, e nestas que guardamos tudo, para que não nos esqueçamos, para que nos lembremos das calçadas porque caminhamos, das pessoas porque vivemos.

No meio do caminho tinha uma árvore, no meio da árvore tinha um caminho.
No meio do coração tem gente, no meio da gente tem coração.
Pra viver, tenho agora que parafrasear poesia, se não é...

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Nos Acepipes de Copacabana

Barata Ribeiro, boas horas dos acepipes dentre outras horas entre outras coisas. O mar selando o território com sua canção nas ondas que batem ocas, lambem a areia, com a água a arrancar um banho roubado. Caminhar sem parar, peitar o mar e pedir benção à Nossa Senhora, a de Copacabana. Longínqua caminhada, imperceptível, por Drummond, pelo Forte que fora dos 18 revoltosos, mas que agora são dos revoltosos, não dos da Atlântica, mas dos da Paulista que tomam a Atlântica. Caminhada inesperada, despreparada, mas tão suave quanto não ver o Sol no Arpoador. O Sol de lá deve ser grafado com maiúscula, ainda que as Nuvens, também maiúsculas, o supere por alguns dias.
Enternecer-se no ar quente dos parques, das ondas que balançam o coração, até quando perceber-se já em Ipanema, sem garoto, sem garota, mas com alegria que não cabe em nenhum dos meninos que jogam bola por ali. Tomar poesia na Vinícius de Moraes que deságua na Vieira Souto que desemboca em Ipanema que desfalece em nossos corações. São tantas imagens, do Rio e do Mar, que não se acredita e duvida-se do soprar do vento e do barulhinho de longe da moçada gritando; mais alegrias na caminhada enquanto se vê o Leblon lá ao fundo.
O café "à la São Paulo" ficou lá na Nossa Senhora, já o almoço era procurado desde que enveredávamos Vinícius adentro, e os passos se iam Rio afora, como na procura do abrigo para acalentar os calcanhares cansados e os estômagos vazios; no início de tarde era a vez de iniciar-se o reinício das energias, religiosamente cumpridas e angariadas no sono da viagem, na viagem do sonho. Tomar um ônibus seria sensato, tomar um ônibus foi sensato quando surgiu, repentinamente, na Visconde Pirajá, ir até a Urca.
Aproximar-se da história, dos livros, dos sentimentos, da alta sociedade que ficara para trás, num tempo que não existe: rever o que nunca fora visto; o ônibus serpentear nas ruas pequenas, diminutas e estreitas da Urca. Da janela do ônibus já se vê o morro que dá nome à vila, e já se vê, numa imagem relativamente doce, o Pão de Açúcar. "Quantos morros, quantos solavancos aguentará nosso coração?" Os paulistas das sebes comiam pastéis de camarão e bolinho de bacalhau ali, entre o Leme, Copacabana e Botafogo; observa-se ao longe as galerias e janelas da Central do Brasil, a ponte que conecta o Rio pelo mar à Niterói; da mureta, que barra o mar, testemunha-se o resplandecer do Sol suave, que burla a regra das nuvens cinzas, para não nos privar de vê-lo, ainda que por minutinhos, o seu reflexo dourado sob a baía da Urca, esquentando com o seu ar preguiçoso os desejos de quem divide a cerveja e as conversas, por só não ver o tempo existir, mas vê-lo subir, mostrando-se como uma imagem única de força e de trégua dos dias tão extenuantes das obrigações.
Caminhar ainda, ver o tempo e não vê-lo ou ao menos tentar mensurar o poder de sua força; testemunhar o meio-a-meio do antigo Cassino sob o pé do morro; uma parte sua traz tristeza com as paredes quase caindo, a outra traz dúvida sobre o futuro, sobre a saúde da história da vila, percebida com a sola dos pés, com os rasteiros chinelos que desfilam, sob a sola, os restos dos grãos dos asfaltos paulistanos. No novo e no velho daquela sobriedade de chão que viu cabos erguidos para se passear lá por cima, para poder ver a cidade como não se pode ver de lugar nenhum. É preferível, por ora, a caminhada de apertos pela Cláudio Coutinho; quando se entra lá o céu é todo luz, já quando se sai o azul é penumbra da noite, como um balancete, o desvio da luz que vem da lua. Sobram os postes de luz amarela que iluminam a praça do anjo sem asas, os prédios históricos, e as cabeças cansadas e felizes.
Outra mini-caminhada, agora pela Avenida Pasteur: a avenida que abre o caminho para os outros cantos. Não cogita-se outro caminhar, senão pegar o ônibus, comer e descansar. Estar no Rio, num episódio assim, é estar e não estar, é sobre ser e sobre viver as coisas que a tenebrosa calma da rotina nos turva.
Subir lá e descer cá, do ônibus, e sentir a Barata Ribeiro novamente e, preferir, como bons paulistas do Brasil, uma nova pizza sem catchup do Rio. Feito isso, o sono ganha abrigo forte na cabeça e no corpo que se alimenta outra vez de mais um dia possível, que será ao modo de rascunhar o futuro com o pensamento; seja com o Sol a tracejar outra epopéia de pernas, seja com as Nuvens a desenvolver a sua contenda de águas arredias sobre as cabeças dos revoltosos de São Paulo, que teimam por dar marca à presença da garoa fina e linda do Rio de Janeiro.
A despedida é charmosa, é sob lágrimas, quando há satisfação no ar que se expele pelas narinas; desde a alegria de ver os queridos, embebidos de toda alegria da tarde de conversa e de morango com chocolate. É de tudo. Do anjinho nascido há pouco, e tão sorriso: é quase só o seu jeito. Na despedida, no caminho da volta, vê-se tudo numa outra perspectiva, das dos saudosos que arrefeceram o espírito pela calma da calamidade dos dias angustiosos. Os dias foram e ainda são, desde dentro do táxi, muito bonitos; a ver de longinho o Cristo lá em cima lá de baixo, agora visto iluminado com a luz dos homens para percebê-lo na luz do divino.
O táxi corta as ruas e a estrada dos nossos juízos, atestando uma saudade bruta e sadia.
Fica de tudo, e de umas coisas mais, um abraço às esquinas onde repousa parte de nossos amores, testemunhadas pelas fotografias e pelas palavras urdidas de nostalgia. Tudo fica, ainda que só por dias, por horas; nem por manjares, só por acepipes.

quinta-feira, 27 de março de 2008

Falso Império

O início: cinco da manhã. Um bocejo, uma piscadela, uma sensibilidade do ar quente que emana de dentro das cobertas. A noite ainda continua gélida, intimidante, energizante com o desafio que ela propõe. Não me proponho a nada, me desenho, me limo, me sonho. Quero ser o que os meus desejos não são. Enternecer-me por completo nos meus braços franzinos, arrepiados, tecidos e enervados, do calor e do frio.

Já são quase dez, o corpo treme, a cabeça mantém o tísico equilíbrio das coisas, da razão da matéria em volta. O trabalho é necessário para que mantenha ao menos o sentido de libertação desperto, vivo.

Mas o mundo todo, todas as ruas e calçadas estão cobertas de papel e caixas de papelão, como se tudo precisasse ser limpo e guardado, há doença por toda a parte, há uma bagunça generalizada da qual nossos olhos se acostumaram. Me acostumei.

Dezoito horas e nada mudou de um quarteirão para o outro, de um parágrafo a outro... É tudo tão igual e permanente, não incita-se a permanência, mas o fim das coisas, o cessar da música e dos ruídos surdos que ouvimos no construir interminável de nossas vaidades.

Rogai o império, o falso império. Temei a luta, a ardil batalha. Não fomos melhores, só fizemos barulho.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Just Enough Education to Perform

Chuva. Quarto com um ar de demasia humana. Pó. Make me feel like one. Beber o quê? Beber a água da chuva. Em tese, na verdade, deixar-se render o tempo debaixo das travadas gotas de chuva que fazem um barulho teso no telhado...

Na escrivaninha adoto uma postura um pouco maniqueísta, esqueço o mundo de lá de fora. Ouço risadas na cozinha, ouço os carros na rua, ouço o latido dos cães que não tem teto divindo o barulho, o espaço com os carros, com os quais a minha mente se azucrina -gostaria de ter esquecido, afundada em suas preocupações.

É um modo de educar-me em relação ao que não me é alcançável. Não estou inerte, nem preguiçoso. Estou muito bem agasalhado com a manta nos ombros quase debruçado sobre a mesa, as mãos pouco retesadas, trêmulas mais pelo peso dos ombros postulado pela manta tepe, quente, gostosa. Todos os dias poderiam ser queimados assim, de alguma forma. Na insensibilidade e na vunerabilidade de nossas sensações, alguma forma, de forma ordinária, todas as nossas confusões teriam um pouco mais de sentido de serem, então, confusas.

Mas não categorizo a sabedoria dos samurais, as divindades lamas, a tapeçaria persa, o caldo verde na tigela branca.

Há um temor e inveja da chuva. Da natureza como de toda a grandeza e imensidão inalcançável, como disse.

Entender as minhas confusões é o primeiro passo para a educação suficiente para a performance sobre a minha vida.