sábado, 25 de agosto de 2007

Seriedade

As pessoas são muito sérias. São sérias. As situações mais bobas encaradas com uma retidão necessária. Pessoas pensam na seriedade como o caminho mais fácil para a felicidade. A felicidade deve ser assim - cultivada com um mau-humor, cara de vômito, já que quem se preza em nossa realidade não ri à toa. Ria no banheiro. Faz-se mais dinheiro com a cara fechada, cuspindo as palavras que podiam ser pronunciadas com entendimento. Lógico, os miocárdios ficam mais afetados, os espelhos trincados, mas danem-se os miocárdios, pois, os sérios não carecem de coração, carecem da plena seriedade, retidão, quitação de imposto, conserto do pneu, da porta do guarda-comida, dos faróis de milha do popular do ano.
Neste ano não houve um ímpeto de ao menos um riso de soslaio, de despretensão. Para quê? Por quê? Há que se cuidar do jardim, e flores não sorriem; guarda-se as mágoas sob o véu deste pecado do riso impróprio. Explodam-se os espelhos, nos debruçaremos ante às poças d’água para o acerto da gravata e da cara séria. O retoque no bigode e nos dentes postiços que exageram em seriedade, mas, no fim, seriedade em nenhum momento é exagero. Copula-se, especula-se, à revelia, sem prazer, pois, prazer também pode não ser sério, copula-se, fode-se pelo dever, com a seriedade do pinto riste a adentrar pela primeira racha que lhe acolher famintamente úmida pela sina da biologia feminina. Cuspa-se lá, o pinto com as gotas do prazer sob a seriedade mais bela já vivida e lubrificada ante o jogo pecaminoso do entretenimento.
Dizem que somos tudo que há de perfeito, à semelhança do Criador, não somos? Que sejamos sim, sérios, pois, o único meio de sermos perfeitos é sermos sérios. Ouvimos as músicas, já as decoramos em nossos corações, sejamos mais sérios, as anotemos em nossos cadernos, pois os felizes e sérios, anotam a verdade a sintonia, toda a melodia deveria ser anotada já que não é sério confiar na emoção e muito menos em nossa vã, frágil e terna memória. Esta sala é tão séria, esta escrita é tão séria, a nossa roupa é tão séria, achamos que achamos a felicidade. A seriedade é co-irmã deste bem que faz todos se sentirem bem. A nossa juventude deveria ser mais séria, aprenderia a como reter-se ante as desvirtues, teriam mais saúde.

*


No parque há dezenas de crianças, muitas organizadas num grupo, e num destes, diferente dos demais, as crianças quase não falavam entre si, pois, sentadas ao tapete verde do gramado bem aparado como se medido num sopro de anjo (com um olho fechado e outro no pasto pra ver cada mato de grama saliente para a devida poda), as crianças pareciam centradas num pensamento único, alinhado em cabecinhas diferentes; era então o momento do desato, da agonia do mundo sério. Rompeu-se o silêncio, quando a seriedade do mundo explodiu em coro e dividiu-se em vários pedacinhos, uma das crianças disse a outra ‘quer brincar?’, da outra nem uma palavrinha, só o balançar dos ombros com uma firmeza que nenhuma palavra verte a não ser quando acompanhada na explosão maior do sorriso. Sorriram. A verdade alinhada aos eixos testemunhou que na seriedade há fome e miséria, além da virtude e do riso infantil, a seriedade serena sempre foi caminho nobre da responsabilidade, mas nunca soube entender os desacordos. As crianças sorriram, vêem-se perninhas tinindo de medo e de vergonha, de gosto e de felicidade. Mais uma citação descabida, só com um desatino, pra tornar um mundo sério num mundo da criança desabitada que vê no refúgio da vida o sorrir como o melhor dos alimentos.

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Flores na janela

Querem que eu, absolutamente, encontre as chaves de casa tão perdidas quanto eu mesmo, mas, jogadas num canto do banco daquele ônibus que dobrou a esquina. Ainda assim, desço do ônibus. Minha procura é outra, estou à busca desta minha relevância pela minha idéia de ser o menino da biblioteca, o menino que lustrou livros, o menino que vendia revistas para comer e dar-se o mínimo à subsistência contínua de estar no meio de todos os da cidade.
Desde que me peguei a essa situação, estou tão incompreendido por mim, e não julgo os meus que não mais me entendem, tendo a levá-los pela consideração merecidíssima, por sinal. Pelas tantas horas cansadas de questionar quem seria eu e não obter resposta. A resposta está aí, na certeza de não tê-la, de não advinhá-la, de não supô-la, de nada, de apenas estar certo de que nunca estarei certo e nisso já encerra em si o assunto que não seria abdicado, mesmo que não tivesse constância. Sou a própria substância que julga, setencia, culpa-se e cumpre a pena de ser o que já não se sabe. Sou essa idéia. Já é suficiente. Mas não sou suficiente. Tendo a querer no todo contrário, no todo obtuso, no todo inconseqüente, no todo de minha alma que despedaça-se, despetala-se ancorado e aportados sobre a janela, as flores que me cheiravam estão todas divididas em unidades, brancas, vermelhas, desespero? Não, sou as flores despedaçadas, sou esse interminável questionamento e o deplorável senteciamento de ser como flores na janela tiradas do jardim úmido.
O pé de feijão, os cabelos de Rapunzel, meu pé e minha mão, minhas sementes desta minha gloriosa ilusão, que devaneio, que alegria! É tão real que nem parece o mesmo dia, mas as horas não são tão formidáveis quanto o coração pensa, tudo é uma questão de suportar o intruso e entrever-se no rio caudoloso desta tortuosa história de nossa concepção. Chaves perdidas, pulo as janelas, danifico o jardim, desmorono a terra das flores da janela. Mas, já estou perdido: conto as moedas sobre a guia, tão estreita quanto os meus pensamentos, conto o dinheiro do futuro.

domingo, 12 de agosto de 2007

Camarada

"Você podia estar aqui..."
A vida não é assim, construída com "podia", "deveria", "queria". Os sonhos ainda são muito discutidos pelos filósofos, pelos poetas, pelos engenheiros, pelos arquitetos, pelos cozinheiros e pelas lavadeiras de todo o mundo, mas ainda não chegou-se a um consenso sobre a matéria das coisas sonhadas e das coisas materializadas, se estas eram mesmo sonho ou se eram feitas pelo propósito de existirem, que nossas mentes apenas anteveram.
As coisas estão ainda mais relativas se comparadas às dos meus 3 anos de idade. 1982, era esse o ano. O início da consciência de que se está num mundo, num negócio enorme, que nos olhos de uma criança, parece ser feito de pessoas iguais, as pessoas apenas diferem-se em seus tamanhos. Meus tios, irmãos de meu pai, eram mais baixos que os meus tios irmãos da minha mãe. Entre tios grandes e baixinhos, permanece mesmo o encanto único de ser o menino carregado ao colo por todos, todos fortes, pelas minhas tias, lindas, que já mostravam pra mim, desde então, que a vida podia bem ser um momento de cuidado eterno de todos conosco, onde sempre deveríamos ser protegidos e carregados ao colo. Não é, pai? A tua ausência física hoje não reflete-se simplesmente na falta daquele que mais me carregou ao colo, naquele que mais tinha força entre todos, ainda que fosse baixinho, com 16 eu já o ultrapassava e o zombava que não conseguia mais enxergá-lo, de tão alto que ia ficando, e olha que eu não sou alto, mas, na verdade, o senhor que era grande demais, e eu ainda tento alcançá-lo, como se ainda batesse as palminhas no teu peito, esticando minhas mãozinhas para te agarrar e me pendurar em teu pescoço, tranqüilo: estava contigo.
Hoje não é o seu dia. O seu dia é sempre que lembro de você - todos os dias. Na criança ou no jovem mais pessimista que poderia ser nos meus 17 anos, quando adoeceu, não seria imaginável os 10 anos desde que você virou estrela, ou um exercício de pensamento eterno dentro de todas as minhas possibilidades, que resumiam-se no Camões que fiz questão de escrever na pedra que te guardou:
Alma minha gentil, que te partiste
tão cedo desta vida descontente,
repousa lá no Céu eternamente,
e viva eu cá na terra sempre triste.
Mas, todo o motivo de tentar ser o que desejo, ainda reside numa ternura que não verei mais em ninguém, uma força que não saberei mais espelhar, numa mão que não poderá mais me segurar, ainda que apenas para um afago na tristeza ou para um abraço de recompensa.
A vida pela busca de status, de diferenciais baseados, em boa parte pela recompensa material, cansa-nos, desgoverna nossos sentimentos mais nobres, que é o de simplesmente estabelecer-se e fincar a felicidade no território tão insólito que deixam hoje a todos, crianças, jovens, adultos, senhores. Estou entre eles, pai. Você está assistindo filmes muito coloridos ou, no mínimo deitado na tua rede que ficava estendida na área de casa, em todo caso, está descansando de todo o cansaço desse negócio enorme que é o mundo que me deu de presente, me presenteou com essa caminhada sem fita de chegada.
E ainda caminho, viu, pai? Sem você aqui pra ver, pra puxar a orelha, ou pra dizer se o caminho é certo. É certo que, por você, caminho...

sábado, 11 de agosto de 2007

My Heart Is a Lonely Hunter


Ouço um jazz latino, uma música de piano e ouço (ou imagino) uma espanholita a latrinar nos meus ouvidos. Um copo de Martini sobre a minha escrivaninha combinaria com a ocasião, se pelos menos fosse adepto ao ritual da regação do espírito, nestes momentos em que a solidão solitária desemboca sem hora pra dormir, nós conosco, às 5h08 da manhã. Tranqüilo, ninguém te espera esta manhã, ninguém vai perceber que não está lá. Sem ninguém para observar o nosso estado nesta manhã de ausência externa e de presença consigo mesmo, não há ninguém para medir o nosso absurdo, e não há ninguém para opinar, compartilhar, xingar, carregar-nos da mesa ou tirar-nos do chão. Ninguém pra socorro, ninguém pra esporro.
Deixa pra lá, isso parece parêntese de literatura gótica, ou de poesia de T.S. Elliot, mas não é. Está mais pra Poe, uma poética de devaneio ou Carson McCullers, que aparece-me, na minha imaginação, como uma ninfeta desenhada por uma magnitude obscura e serena. Como essa ninfeta me deu e ainda dá prazer, e compartilho com ela um êxtase literário que resvala na sensibilidade sexual.
A primeira vez que li algo sobre ela, McCullers, se não estiver enganado, foi numa crítica ou ensaio do escritor americano Graham Greene, onde ele a citava e a comparava com outros grandes da literatura americana, como Faulkner e D.H. Lawrence... Aí, você já sabe, né? Se já leu alguma coisa desses dois aí, ou do próprio Greene, então, a curiosidade naturalmente aperta. Eu, comigo mesmo, dizia, "caramba, tenho que ler para ver como é que é, deve ser bacana."
A identificação e atração pela prosa sulista de McCullers foi instantânea. O primeiro livro que li dela foi o A Balada do Café Triste, em português (edição de Portugal), e hoje tenho quase todos os livros dela, em sua lingua original, o inglês. No Brasil ela é ainda pouco conhecida, infelizmente, pois, até onde sei, nas duas últimas décadas (meu raio temporal de atuação de pesquisa e memória) houve apenas duas traduções de obras dela no Brasil, edições que, inclusive, já estão esgotadas há muito, os livros são A Sócia do Casamento (The Member of the Wedding) pela Nobel e o próprio A Balada do Café Triste (The Ballad of Sad Cafe) pela Globo.
Há traduções de praticamente todas as obras dela em português de Portugal (lê-se importadas deste país), mas estas já são mais difíceis de se conseguir nas livrarias brasileiras, mas, para quem lê inglês, mesmo que razoavelmente, esta é uma ótima oportunidade de praticar essa língua e desenvolver o hábito e prazer de ler obras no original, pois, a prosa de McCullers é saborosíssima, requintada e, ao mesmo tempo que rica, acessível, mas, é preciso fazer ressalvas, pois, uma leitura deste tipo pode ser um tiro pela culatra. Mas, todo o risco é válido para conhecer e provar deste "êxtase".
Suas novelas, contos e romances já se tornaram peças de teatro e roteiro de filmes, o destaque dentre estes é o filme Pecado de Todos Nós (The Reflections In a Golden Eye - 1967), de John Huston, com Marlon Brando e Elizabeth Taylor, o elenco em si já dispensaria minha sugestão, sem contar com as presenças de Brian Keith e Julian Harris, vale a pena assisti-lo, pois o roteiro é baseado no livro homônimo de McCullers. Bom, o filme é de John Huston, então...
O livro The Reflections In a Golden Eye (1941) foi lançado logo depois da sensação The Heart Is a Lonely Hunter (1940), quando McCullers, só com 23 anos, destronou o coração de muita gente para torná-lo então num solitário caçador.
Carson McCullers retoma, de alguma forma, o inebriante universo de Dostoyevsky, quando alude a tragédia em cada suspiro de seus personagens. Miss Amélia, Spiros Antonapoulos & John Singer (dois surdos-mudos) e Franky são as sínteses da fábula de McCullers. Funcionam como válvula de escape de uma vida conturbada e difícil da prodigiosa Carson.
McCullers estudou nas escolas de escritores nas universidades de Columbia e Nova York, em 1937 casou-se com Reeves McCullers, de quem herdou o sobrenome. Três anos depois, quando o casal já residia na Carolina do Norte, separam-se. Nesta época, menos reclusa, aproximou-se de intelectuais e constituiu com estes boas amizades, tal como a com o dramaturgo e escritor Tennessee Williams. Bissexual, não teve felicidade nos relacionamentos com as mulheres até conhecer a escritora suíça Annemarie Clarac-Schwarzenbach (um "anjo devastado", diria Thomas Mann) - que já havia encantado certa vez Anaïs Nin. McCullers dedicou Reflections... à Annemarie, de uma vida também trágica, que morreu jovem, aos 34, depois de uma queda de bicicleta que lhe causou um traumatismo e uma hemorragia.
Aos 50, em 1967, Carson McCullers repousou para esta vida quando já havia sido eternizada como uma das maiores da literatura do século XX. A tragédia maior da vida desta escritora foi, como a de muitos, garimpar felicidade e paz em terrenos não muito propícios , rodeada de pessoas não preparadas para saciar suas necessidades.
Espero, sinceramente, que McCullers seja ainda muito revista, pois, a sua prosa carrega uma bipolaridade extenuante, e de um desequilíbrio final que extravaza nas paisagens e nos personagens que criou. Ler e descobrir os meandros de suas histórias é jogar malabares e tentar segurá-los a cada fim de página, com a sensação de que este é o príncipio de se ler Carson McCullers, comprometer-se com o equilíbrio à leitura de histórias tão duais, tão deformadas.
Ela, hoje, reside comigo num lugar especial na minha estantezinha...

domingo, 22 de julho de 2007

Oh, My Darling


Estou com minhas costas doendo, doendo muito, talvez pela péssima postura nesta cadeira de plástico. E plástico é uma das matérias que simbolizam muito bem nossas ações e partidos neste início de século: seres constituídos de plástico. Mas há ainda quem seja feito de um material diferente, primitivo, pessoas de um jeito diferente que fazem um som não diferente, mas lúcido, e lucidez em meio a esta vã embriaguez de fumaça é tudo de que precisamos. Há pessoas que parecem manipular instrumentos já tão conhecidos de um jeito particular, e vozes conhecidas afinadas com nossos ouvidos e que reverberam por essa caixa de ressonância que têm sido nossos pensamentos, belos ou malditos. Basia Bulat não é diferente, mas não é igual, é Basia Bulat com sua voz de eterna súplica, de degeneração da música que ela mesmo fabrica. Até tentei achar algum paralelo, mas é difícil, ela não é somente linda e forte, mas sua voz é de um ritmo despreocupante que nos traz à atmosferas brancas e serenas, sua voz parece evocar chuva naquela tardezinha de sábado onde o sol já escaldante não faz muito sentido a não ser pelo próprio desgaste que a perda de água e a cabeça quente nos proporciona; com a chuva e a voz de Basia somos regenerados.
Basia Bulat é mais uma dessas lindas vozes vindas do Canadá, com seu folk levado ao sentido primeiro dessa palavra, é folclórico pela simplicidade conectada ao som rico em instrumentos e despretensão, o que a faz ainda mais bonita do que é, com seu enviesado olhar de anjo. Oh, My Darling é o seu primeiro e já viciante trabalho, e é ainda mais quando espera-se pela chuva de sábado à tarde ouvindo The Pilgriming Vine e Snakes and Ladders. Com um cheiro de chuva passando pela minha janela e a voz de Basia passando pelos meus ouvidos nesta tarde, minhas costas dóem menos.

domingo, 10 de junho de 2007

Sebo, Pizza & Cola - II

O tédio pode ser amigo ou inimigo, como já disse, dependendo da forma com que o encara e contorna as situações por este determinadas... Nestes dias, após às seis, fim de expediente, saio e vejo o clarão alaranjado emanado dos postes que já contornam a Paulista e como esta luz laranja desenha uma sinuosa e delicada curva da avenida quando vista dali, da altura da Haddock. A partir dali, me proponho a um cardápio de opções de desvulgarização do meu ócio, onde incluo três destinos: música, cinema e boteco, e congêneres para apreciação vespertina.
Mas, de fato, não buscava nenhum destes; no cinema já cheguei a uma razoável média de cinco sessões semanais em período de inexistência de aulas. Estava mesmo pouco a fim de acrescentar às estatísticas ou engordar tais números; coisa mais sem graça engordar números, talvez queira engordar a mim mesmo, é mais conveniente e saboroso. Talvez eu seja o único a encontrar conveniência na alta e demasiada ingestão de alimentos para tornar-se obeso, tal como uma pata. É sabido que admiro patas obesas. Bem, cogitei então a música, lembrei de de um show que começaria em poucas horas na Vila Mariana, daqueles de banquinho e violão, e o meu cérebro não denotou qualquer esforço para locomoção até o Sesc Vila Mariana e assistir a apresentação de um sueco-portenho que por lá estava com o seu violão e banquinho. Sobrou o boteco, mas o boteco, ao menos para mim, é algo bacaníssimo quando acompanhado por botequeiros autênticos, profissionais. Imaginou um não-botequeiro ou botequeiro amador dirigindo-se sozinho sem a companhia de alguém experiente para o orientá-lo sobre as maneiras de comportamento e, principalmente, sobre os assuntos e debates que devem ou não serem desfiados neste ambiente. Sozinho seria impossível desenvolver assunto ou conversa lá; se eu incluísse a possibilidade de um monólogo em voz alta logo ali, sim, com a razão de não ter razão e ser reconhecido como um sem-razão, assim, criando uma má impressão nos originais botequeiros residentes no recinto. O boteco é um espaço propício para muitas coisas, das triviais às mais originais, seria um lugar interessante, mas a verdade é que eu não sou botequeiro; a bebida mais perigosa de meu sucinto cardápio líquido é o café, já me alertaram das conseqüências da ingestão demasiada de cafeína, mas até mesmo o café não costumo tomá-lo puro: mistura-se a este um leitinho e quando um creminho, então é feita uma pessoa feliz.
Na noite anterior já desfilei os meus olhos por prateleiras de livros lidos, numa procura não tão feliz de um estoque de palavras; de que adianta encontrar um destes se não se pode levá-lo? Mas, passadas já algumas horas, isso já não era distúrbio. Já não pensava na minha guarnição de russos, já lembrava de que sentia a necessidade de saciar-me de outra coisa, ainda não muito bem-definida. Agora cogitei usar-me da tradicional erva portenha, o mate, e misturá-lo a alguma fruta tropical, amazônica, de preferência, e fazê-lo de algo que tem me feito até mais feliz do que a cafeína misturada a lactose com uma dose de creminho. Acontece que tenho bebido muito mate ultimamente, sabe... Nas suas mais variadas misturas que vai do leite e limão às frutas vermelhas mergulhadas em leite condensado. Enjooooa.
Sobrava-me muito pouco ou pouco de muito, conforme criatividade e imaginação, estava eu encurralado por este tédio que deixava-me assim, então relapso quanto a resolução ou estabelecer uma forma de entretenimento simples ali, numa noite que prometia e não cumpria? Peguei o meu Saramago da bolsa, passei a lê-lo, deixaria a leitura para uma outra hora, outro dia, outro lugar, mas as possibilidades de desventuras de minha pessoa a algo que representasse uma forma sincera de fazer as horas passarem e chegarem ao destino inevitável que é o passar do tempo e das horas que são inevitáveis, findavam em pedacinhos. Encostei na muretinha em frente à galeria dois mil, ao lado do Conjunto Nacional. Estou numa muretinha à cinqüenta metros do edifício onde trabalho, pensei, passaram-se horas e o resultado destes pensamentos não me locomoveram se quer cem metros do ponto de partida que parecia ser mesmo o ponto de chegada, ou seja, nada.
Os meus olhos já estavam distraídos sobre a página cento e doze do Saramago amigo que carregava em minha bolsa há uns dias, quando necessidades fisiológicas tal como a necessidade de alimentar-me, já não de prazeres, mas de comida mesmo, começaram a incomodar, o que antes era apenas uma possibilidade apenas, fazer levar o tempo, agora era necessidade. Devia largar a muretinha e me afundar num mate quente? Afinal, estava frio pacas, e não tinha muita imaginação nem mesmo para saber o que poderia preencher o meu estômago, o mate não fosse talvez uma boa opção, ou uma opção dentre outras inexistentes. Logo, veio à mente a imagem do líquido preto, criminoso e que me causava um dos maiores prazeres, sentí-lo distribuir todo o seu gás por goela abaixo e dar-me aquele prazer particular, como relacionado à masturbar-se: uma busca de um prazer, ainda que solitário e egoísta, frenético, compulsivo.
No caminho pós-mureta, decidi parar de pensar sobre qualquer coisa, e passar a agir com menos razão, mais por instintos e necessidades; claro, arroladas estas questões de razão ou da falta dela, nós, seres humanos, cogitamos sexo em qualquer possibilidade e localidade; Mas é bem certo que a minha desracionabilidade é mais aparente do qualquer coisa, portanto não correria como um avirginado pela Augusta com o intuito de saciar minha outra necessidade fisiológica bem sabida, bem desenvolvida, mas bem contida. Na Paulista mesmo, encontrei-me com a bestial bebida fulgurante de gás e cola acompanhada de massa acobertada de queijo, orégano, tomate, ah, que prazer destoador e tão simples e corriqueiro desta metrópole. Nada tão bestial que gozar a fome e vontades com pizza e coca-cola, para uma noite que prometia um passeio pelos lagos e jardins do Taj Mahal, descansar-se sob as abóbodas desenhadas por um Miguel Ângelo, pelas alegrias de peregrinar pelos campos celtas da Irlanda, pelos empreendimentos iluminadores de uma Broadway ou de soltar um grito na London Eye, perceber que todo ele ressoou pelo Tâmisa, noite que prometia aventura sob as selvas e matas deste meu país desconhecido, teu verde, teu jeito, teu ar, teu tudo que alimenta a mim e todos os brasileirinhos que dormem, perdem e vencem sobre o teu solo. A noite prometia tudo, mas por uma infelicidade ou falta de sorte ou imaginação, acabou-se com pizza e coca-cola. Sem filme, sem música, sem boteco, sem aventuras, apenas pizza e coca-cola. Fome e sede saciados, vejo que faço parte do time dos que deixam tudo acabar em pizza, alimento a mim e um ditado popular, encho-me de coca-cola, de gás, de trivialidade e de esperança...
Fico feliz, caminho até as galerias do metrô e desço.

sexta-feira, 8 de junho de 2007

Sebo, Pizza & Cola

Um tédio indesejável e adorável tem me apresentado todas as noites pontualmente às dezoito horas. Sempre vem à minha cabeça, O que fazer? Caminhar? Primeiramente, para a caminhada é preciso um caminho - não tenho caminhos - escolho a pesquisa de outras possibilidades mais gratas, menos árduas do que a busca de caminho que possibilite uma caminhada para espantar um tédio que se apresenta invariavelmente às seis da tarde; coincidência inevitável ou não com o horário do fim do expediente?
As aulas na faculdade não têm existido há muito, este tipo de inexistência resulta em noites vagas. Extinção de aulas fomenta magníficos e assassinos na busca de um ofício e de uma serventia. Vago por aí. O tédio é indesejável à medida do tamanho em que se vê encurralado por ele e deixa-o dominá-lo; adorável na mesma proporção em que o teu singelo espírito desencanta e descobre a estradinha de ladrilhos amarelos para dissipar todo o seu ócio e a força vital que te sujeita aos prazeres, dos mais banais aos sofisticados que sua cabecinha e seu corpozinho necessitam que sejam devidamente saciados.
Terça-feira, cinco de junho de dois mil e sete - um dia de iluminações; melhor, uma noite de iluminações, onde procurava por uma iluminação que preenchesse a minha estante de Leste Europeu, a minha guarnição de escritores russos, o meu estoque de sentenças Dostoyevsky. Situação não árdua, até simples, mas que levei horas perdido entertido num sebo da Consolação, consolando-me do que havia de bonito ali que ainda não tinha em minha estante. Consolando-me que ainda os teria. Ah, meu estoque de sentenças Dostoyevsky desfalcado... Falta-me os Irmãos Karamazov, pensei, aqui deve ter e posso sair e já fazer valer de alguma forma esta noite bonita, sim, e preenchida de um frio irresistível que deixavam pessoas mais irresistíveis - parcas, botas, suéteres, colã. Dizem que no inverno as pessoas ficam mais elegantes. Há uma certa verdade, mas no inverno é onde as pessoas melhor se fantasiam também para protegerem-se do frio. Oras, não vá me dizer que debaixo daquele blusinha da nova estação comprada na última semana inspirada na última semana de Milão não é preenchida muitas vezes por uma camiseta desbotada, amassada ou mesmo rasgada; bem, surge aqui, no inverno, a arte de transmutar-se, deixar o que jamais deve ser mostrado bem às escondidas e mostrar-se, como máscara, ou uma casca de ovo que reveste um conteúdo desintegrado - é uma época de fato belíssima e de muitas aparências, de mentirinhas ordinárias das quais todos nós gostamos, por certo.
A aventura pelo Dostoyevsky não terminou, voltemos a ela. Eu queria os Karamazov, os teria o homenzinho de barba branca que me atendeu? Pois não, jovem?, Sim, quais são os russos por aqui, onde estão os russos, em quais destas, senhor? Por aqui. Você procura Dostoyevsky, não é?, a letra D logo aqui, desculpe, um pouco mais acima. Ah, sim, obrigado, encerrei muito breve. Após o diminuto diálogo, pus-me a procurar pelo russo que apoquentava os nervos por não tê-lo lido ainda, ai, russo de merda que adoro, este era Dostoyevsky. Enfim, encontrei o estoque de sentenças Dostoyevsky que procurava, lá estavam os Irmãos, reluzindo com um micro-dourado que compunha sua lombada, uma edição um pouco antiguinha, sei lá, creio que dos setenta e poucos, mas isso não importava; a verdade era que o russo estava ali reluzindo pra mim na minha mão. Mas, o Idiota - homônimo de outra obra do russo - aqui não se deu que conta que não tinha notas ali, para pagar o livro. Merde! Não que estivesse na pindaíba, mas quase, mas é que o idiota acostumou-se com uso sensorial das compras utilizando o cartão de débito, nessas tem esquecido corriqueiramente de realizar saques periódicos de seu ordenado junto ao banco. Certo, O senhor aceita cartão de débito?, O senhorzinho de barba branca me respondeu com uma vozinha, não ouvi. Perguntei novamente, o senhorzinho, mais grave, respondeu que aceitava cartão de débito, mas de uma bandeira distinta da do meu cartão. Ah.
Estava quase convencido de que não seria o dia de levar o russo mesmo daquela vez. Triste. Este russo na livraria onde trabalho está esgotado. Merde! Paciência, garoto - tentei começar uma reflexão. Mas é um livro que não era difícil de se achar, uma obra essencial da estante de qualquer Leste Europeu ou mesmo de qualquer coisa que chamam de Literatura Universal, não seria mesmo nenhum bicho encontrar outra, mas havia achado graciosa aquela já muito manuseada edição que bulinei; que violei ao deslizar as minhas unhas já impregnadas de sebo de pó por aquelas páginas já tão violadas por quantas vão lá saber gerações... Mas, certo, esperarei outro dia para levá-la. Se é que estará lá, né? Experiências anteriores, como poderia já Herman Melville armar... Deixei certa vez o Bartleby lá, certinho, bonitinho... Voltei, Bartleby já não existia mais. Desespero. Ponto.
Certo, da próxima atento-me à pizza e a cola, adjuntos da minha busca por prazer nas noites ociosas, frias e quentes, de vontades meio absurdas de estufar-se em massa e deste líquido gasoso, prazeroso, criminoso... Vulgar como este meu estoque de sentenças Dostoyevsky incompleto.
(fim da parte 1)

terça-feira, 29 de maio de 2007

Credo Positivista

Às vezes, parece que o mundo é regido do subsolo com um mal-humor ardente, decidido, perverso na sua condição estúpida ao mesmo tempo que angaria uma imagem santa.
Destila-se amargura e ódio, com uma simplicidade que só reparando, o escárnio escroto e mal conduzido, mas decidido.
No subsolo ainda preferem a zombaria, a insustentabilidade de todos os setores da vida, fazem preces constantes ao tédio, corrompem-se; tratam tal assunto como se isto fosse a glória - lamentável condição essa de ser humano.
Eu prefiro a andar sobre este chão que ainda que me limite de algum modo; Que dá-me sustentabilidade, ainda que só aparente.
O que os do subsolo não prezam, não creem, não almejam, não planejam, não citam, sequer duvidam, ostento como bandeira, com um certo desejo de vingançazinha. Tudo que não lhe és bom a mim me parece fabuloso. Não sou nenhum pouco cruel, sou apenas este, como todos dono também de uma equilibrada hipocrisia, mas nada que afete o meu amor pelos meus amigos e determine um desrespeito e desintegre a minha luta por um mundo melhor... Sou este, dono desta existência (clara) que desfigura os utopistas.
Sou mesmo este que ainda crê no colhimento de flores, projeto de crença nas banalidades como obras magníficas que a vida proporciona contemplar e fabricar felicidade. Sou um botequeiro, mas desprezo a cerveja pelo café, sou um jardineiro que larga a terra para manejar e regar as flores, um tecelão alienado de seu brim.
Confusões nunca me apeteceram, não à toa, prefiro considerar que bons amigos são melhores que muitos amigos, a boa casa é melhor que a grande casa... No meu mínimo considero ainda que posso ser melhor e afastar as idéias indistintas de indiferença, por alguns ou por todos, mas que não caiamos na panfletagem sobre a salvação do mundo.
Creio na verdade como instrumento salvador, talvez seja eu sonhador deveras, mas, nunca considerei-me estúpido, então, acho que vou por um bom caminho, ainda que não seja o mais exato. A essência dessas coisas, banalidades de nosso cotidiano, está na crença, crer em algo, alguma coisa, seja um deus, em nossa existência, em nossas idéias e convicções, a crença é a engrenagem que possibilita o mecanismo das mais simples às mais desafiantes perspectivas resultarem em espanto, alegria e amor.
Piano, cabaret - estou diluindo em um prazer diluído em solidão - petrificando um desejo - desafiando um coração.
Apenas abençoe-me; benção para crer e que quero, para ser e que vejo, para entender e que desejo.

Juventude Sônica

às vezes, os ruídos de microfonia são bons, as acústicas trepidantes das caixas que vibram no tempo que parece o começo do fim de todas as coisas, o fim do som. o som do fim.

os convencionais xingarão e ignonarão, não hesitarão em quebrar o espelhado do laser que transforma tudo isso em som ou na possibilidade dele.


somos todos provincianos, puritanos, convencionais. perdidos nas baladas entre paredes mal concebidas para a destruição da sonoridade que camufla talvez um riso, talvez um choro ou nada - dentro de nossas próprias convenções.


há alguma possibilidade de acreditar no que não é regra, no que não rege sinfonias, no que não está certo e que, ainda assim, é suave, é bom. esta é a lei dos desregrados, mas felizes.


the diamond sea preenche até o que não existe.

segunda-feira, 28 de maio de 2007

Eu o tenho sob minha pele...


Um caso estranho, essa voz que parte minhas percepções de tempo... E como sou tão feliz de qualquer jeito quando ouço sua voz; nunca imaginei que me tornaria assim, seu refém. Ainda bem que é assim, num período de pouco sentimento, ser sentimentalóide só em poder ouvir este poder que reverbera com força; isso, já, de certa forma, é um meio de distinção de todo o resto.

Sou tão grato por ouvi-lo, por senti-lo como cócegas sinuosas que percorrem todo o meu canal auditivo e vão até lá no lugarzinho de não-sei-onde do cérebro metamorfosear-se em alegria e numa explosão de outras coisas que vertem em hormônios embaixadores da sensibilidade e da felicidade impelidas, e percorridas por todos os rastros do corpo, por onde houver nervo, pele, gosto e alma...

Ah, como é bom. É tudo o que mais queria ser: estar à toa a ouvir tua voz à toa...

Belos olhos azuis, estás indelével sob minha pele.

Renego em lutar sob todas as forças que és agora quem me impele no rascunho deste texto. Estar contigo neste inverno, nesta noite de segunda, nesta noite de Beirute, Constantinopla e de todos os Impérios derrocados e poderosos que sabem do poder, do mundo a seus pés, de tudo, sobre tudo, sobre todos... Estás riscado na linha do tempo de forma a não ter mais carinho e adoração, és o próprio carinho aos privilegiados que tens a vibração deste estrondo ululando dentro do corpo, benção à alma que o habita...

Belo, sois tão maldito. Mas o perdoarei sempre enquanto fores assim: tua voz o manto de vida que faz minhas noites tímidas mais delirantes e cínicas.