quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Uba

O tempo é curto. Pulando poças, vamos no caminho do capim. Não. Não há capim. Bem, vamos ter de pastar em outro lugar. Lá onde mora o pássaro que assobia. É um lugar simples e singelo, dizem. Bem te vi. Mas percebemos que tiraram os hífens do bem te vi. Tiraram também as grades do fogão. Tiraram o café. Há fome. Não há capim, nos mandaram para o nosso bem para o bem te vi que mal me viu. Quantas poças, quantas conversas, quantos cigarros.

'¿Por qué no te callas?'

Contente-se com esta bucha, já que não há esponja na pia para lavar os copos, os pires de sorvete. 'Que abacaxi!' Dos abacaxis, prefiro o do sorvete. Sorve, sorve, sorve. Tomou? Encheu o seu descanso de macarrão oriental. Viva as misturas! Todas as misturas de comidas improváveis que nos salvam dos perigos da fome, do mau humor. Salve os omeletes! Salve os macarrões improvisados! Salve os miojos com milho e atum. Salvem também os peixes contra a pesca predatória. E as tartarugas...

Corta as unhas. Vista-se. Dispa-se. Vá lá para as águas. Vá lá. O que espera? Quer uma caminhada, te dou uma, te dou duas, te dou três até. 'Quer madrugar para o café? Só se for assim, seus preguiçosos. Aqui não tem boi, nem boiada. Só gente safada.'

'¿Por qué no te callas?'

Tome-lhe sol, tome-lhe cascatas de raios ultravioleta. Cuidado com os UVA e com os UVB. Toma um suco de uva, por que não? Toma outra coca com abelha, vai... Vai fazer bem, bem mal. Testou o humor, hidratou o corpo? A falta de capim não melou ontem nem hoje. Minha mente está tão bem. A sua também.

Vamos chegar em silêncio no bem te vi, não quero que nos vejam. Quantas conversas. Desnecessárias. Pra fazer política. Propaganda.

Como é bom ser leitão à pururuca, falta a maçã na boca. Besuntar-se de FPS 15 - cuidado com o comprimento de onda - temos apenas 150 minutos antes de começar a flambar. Boiei. Virei uma massa besuntada a boiar no mar.

Um beijo aos mosquitos das vermelhidões, sempre presentes. Nunca nos esquecem. Sempre lembram da gente. Das nossas pernas. Mas dessa vez foi que foi que nem foi tão forte. Vermelho pouco até. 'Que cenho, senhor!' O bem te vi nos acolhe mas é um pássaro estranho.

Precisamos pastar para as nossas bandas. Assobiar para o bem te vi. 'Dá tchau'. A gente nem percebeu que era o sete o que tinha a chave da bola oito. Vamos pastar pra lá. Não no capim daqui. Enchuvarou. Molhou. Ensolou. Secou. A gente viveu.

Outra demora, mas o tempo é curto. Um abraço aos peixes, às tartarugas, ao sorvete, e a toda a demora que foi o curto tempo do mundo que a gente conheceu. A gente viveu.

Um abraço aos peixes. E à Uba, das saudades.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

A Literatura no Cinema

Não é de hoje que vemos adaptações de obras literárias para o cinema, mas nos últimos tempos este número tem sido maior, e parece que os estúdios, cada vez mais, apostam na produção de filmes baseados em livros. Muito interessante, principalmente quando o livro é bom e a adaptação herda a qualidade do livro tornando-se uma obra ímpar, e não uma mera cópia do original.

Discute-se muito sobre as adaptações, e fala-se muito que o filme nunca é tão bom quanto o livro. Tal afirmação é só parcialmente correta. Devemos admitir que transportar um livro, um clássico da literatura para a linguagem fílmica requer, no mínimo, habilidade de roteiristas e boa análise sensorial de diretores. O roteiro adaptado requer maior cuidado em relação aos diálogos, na montagem dos personagens, nas sequências que serão utilizadas para compor a história - o tempo cronológico cinemático encaixar-se no tempo literário que será apresentado na tela, porque, claro, a adaptação já é uma história conhecida. O filme adaptado poderá, como optar produtores e diretores, ser livremente inspirado ou uma adaptação fiel ao conto, novela ou romance.

Claro, existem romances que talvez sejam infilmáveis, ou melhor, inalcançáveis pela cinemática, por aspectos próprios dos romances, inerentes à linguagem onírica peculiar às letras, que transborda à sintaxe, regência e imagem, como, por exemplo, as novelas de Franz Kafka. Mas seria muito bom ver, um dia, uma adaptação de A Metamorfose, mesmo parecendo ser dificílimo entender como fariam verter a agonia de Gregor Samsa ao acordar um dia e ver-se metamorfoseado num inseto. Entende-se - um inseto. Kafka em nenhum instante cita que tipo de inseto, se é um besouro, uma mosca, uma barata ou um escaravelho, portanto, cabe a nossa imaginação trabalhar com esta expressão, com este enredo surreal e compor a nossa ideia particular de Gregor Samsa. A palavra e a imagem são, evidentemente, meios distintos de veiculação de informação e pensamento, e transportar o pensamento e enredo kafkiano, tal como os vemos em seus livros, para as telas, não é algo simples e que, certamente, exigirá muito suor aos engenhosos da arte cinematográfica. Mas, sem dúvida, seria uma experiência interessante. Orson Welles bem que tentou; levou ao cinema a novela O Processo, do autor tcheco. É um bom filme, mas ainda longe da grandeza e da semântica do romance. Welles era mesmo audacioso pois, além de Kafka, levou ao cinema adaptações de William Shakespeare, como Othello e Macbeth - Reinado de Sangue.

Para desmentir este mito do livro ser sempre superior ao filme, há na história do cinema adaptações que se tornaram independentes da obra original, equivaleram ou mesmo suplantaram em importância e qualidade as obras em que foram baseadas. Vão alguns deles:

Carrie, a Estranha, de Brian de Palma
- livro homônimo de Stephen King

O Senhor dos Anéis, de Peter Jackson
- livro homônimo de J. R. R. Tolkien

Depois daquele Beijo, de Michelangelo Antonioni
- conto Las Babas del Diablo, de Julio Cortázar

Mágico de Oz, de Vincent Minelli
- livro homônimo, de Lyman Frank Baum

Uma Rua Chamada Pecado, de Elia Kazan
- peça Um Bonde Chamado Desejo, de Tennessee Williams

Janela Indiscreta, de Alfred Hitchcock
- livro homônimo de Cornwell Woolrich

Solaris, de Andrei Tarkovsky
- livro homônimo de Stanislaw Lem

Jules e Jim, de François Truffaut
- livro homônimo de Henri-Pierre Roché

O Dia em que a Terra Parou, de Robert Wise
- conto Adeus ao Mestre, de Harry Bates

O Falcão Maltês, de John Huston
- livro homônimo de Dashiell Hammett

Só pra dizer alguns.

No cinema em voga boa parte dos lançamentos - e de destaque - são os filmes adaptados de obras literárias. Vale citar alguns:

O Curioso Caso de Benjamin Button, de David Fincher
- conto homônimo de F. S. Fitzgerald

O Leitor, de Stephen Daldry
- livro homônimo de Bernard Schlink

Foi Apenas um Sonho, de Sam Mendes
- livro Revolutionary Roads, de Richard Yates

A Bela Junie, de Christophe Honoré
- inspirado livremente no livro A Princesa de Cléves, de Madame de Lafayette

Interessante que, sobre o conto de Fitzgerald, O Curioso Caso de Benjamin Button, o próprio não é tão original, pois Fitzgerald o escreveu com base na frase de Mark Twain, por quem nutria grande admiração: "A vida seria infinitamente mais feliz se pudéssemos nascer aos 80 anos e gradualmente chegar aos 18".

O estreitamento e força do diálogo entre literatura e cinema, que existe desde a criação deste segundo, ganha força na safra nem tão interessante de roteiros originais. O livro e o filme, como meios de informação de massa e não apenas entretenimento, reforçam cada vez mais que toda novidade é uma existência renovada. Como ouvimos dizer há muito, a frase do químico francês Lavoisier: "Nada se cria, tudo se transforma". Nos perguntamos: em que Lavoisier se baseou pra fazer tal afirmação?

As informações e criações parecem mesmo ser circulares, e é bom para todos que neste sistema de renovação haja aperfeiçoamento, boa adequação e harmonia - requisitos fundamentais para a criação, para a boa arte. Processo natural que começa pela água que nos alimenta e rega nossos jardins.

Seguem alguns trailers das obras adaptadas que valem ser vistas, por ora, nos cinemas, e lidas, por horas, em casa:




A Bela Junie


Foi Apenas Um Sonho


O Leitor

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

A dança

Um dos meus musicais prediletos é o A Roda da Fortuna (The Band Wagon, 1953), com Cyd Charisse (já viu Meias de Seda?), Oscar Levant (já viu Sinfonia de Paris?) e com Fred Astaire (já o viu dançar?).

Bem, antes de me encantar com Bob Fosse, Janet Leigh eu apreciava, desde criança, um outro dançarino. Um que revolucionou a linguagem e o show business da dança, do pop - ele, claro, é Michael Jackson. Lembro-me de pegar o bolachão emprestado do meu tio, do então recém-lançado Bad, e tentar imitar os passos, os gestos, a dança, os trejeitos do meu primeiro ídolo de verdade.

Quando falo sobre idolatria, aqui entende-se como veneração descarada, mesmo. Eu não só admirava Michael Jackson, mas pensava como seria se eu fosse Michael Jackson. Era bom, hoje eu sei mais ainda o quanto era...

Podem me perguntar: 'Ok! Fred Astaire, Michael Jackson, tá... O que o pato tem a ver com o ganso?' E eu respondo, 'É simples: tudo.'

Ao começar a ouvir, cantar, dançar MJ não sabia que para que estas siglas existissem, ou para que tivessem tamanha importância, foi preciso que existisse uma outra, algumas décadas antes, a saber, FA, de Fred Astaire.

Nos idos anos 80, quase chegando ao final da década, MJ, logo após o lançamento de Bad, estrela o seu primeiro filme como protagonista, Moonwalker. É uma trama inocente, um roteiro desenhado com ações que interajem com o que MJ sabe fazer melhor: dançar.

Uma das ações - e melhores partes do filme - é a cena do bar, em que Michael Jackson, algumas dançarinas e um grupo de indivíduos bem vestidos com os seus ternos, em sua maioria pretos, e chapéus, misturam elementos dos filmes noir, gangster e de máfia, para construir uma atmosfera alcaponiana dos anos 20 e, assim, fazer, e bem, o que todos esperam, hipnotizar-nos com a sua dança. A música desta sequência é Smooth Criminal.

Até assistir A Roda da Fortuna, filme formidável - da ainda era de ouro dos musicais - que começa já com FA cantando By Miself na plataforma de uma estação de trem; seguida depois pela - que adoro repetir quando assisto o filme - cena do engraxate. Mas até aí, apenas canta. Perto do final do filme, o personagem de FA juntamente com a trupe teatral que viaja por toda a América para a apresentação do espetáculo, encenam uma sequência, tal como a de MJ, há muito ensaiada e esperada pelo grupo para ser então apresentada. FA interpreta o papel - com seu traje branco e camisa azul - que seria depois de MJ.

A passagem de Smooth Criminal é uma homenagem de MJ ao maior dançarino da história cinema, FA. E isso só fui descobrir muito depois.

Com as suas peculiares formas de expressão da dança, Fred e Michael, deslizavam os sapatos de verniz e mocassim nos assoalhos mais ásperos, fazendo parecer que patinavam no ar, no gelo. Sem qualquer aderência.

Mas qual não foi a surpresa, nestas andanças pela rede, ao encontrar este vídeo:





domingo, 25 de janeiro de 2009

"Do I disappoint you"

Não vale. Nem o maior dos cansaços. Não deveria nem a um cinocefalídeo. Não deveria. Meu amor, meu ardor. Cansei-me outra vez. Dá-me um olhar e uma sensação. Estou fraco. Quase envelhecido.

Ai, como queria uma orla para olhar, para caminhar. Não há. Existe uma infinita extensão de asfalto para cegar, subir a pressão nas têmporas e elevar a distância. Aquela, a nossa.

Depression - Pasillo. Som, a leitura. Rasga o violino toda esta provação. Com muito carinho, tento recuperar-te neste ror de gente. Manda-me tuas lembranças. Paro à mesa para montar o quebra-cabeça. Tantas peças espalhadas, outras perdidas, vão deixar buracos. Faltará.

Vou ouvir uma marcha sueca. Olhar para o relógio e ver o tempo que falta, que passa, que se adianta. Caminhar
onde as gramas aparadas permita-me deslizar sobre o restolho.

Mas ainda não saí, continuo na mesa com o quebra-cabeça. Tantas peças faltarão, sei.

E falto.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Obrigado por pensar em mim

Eu a vi de longe. Cruzava a rua, com um caderno de capa preta e dois envelopes coloridos. Num deles consegui enxergar a sua caligrafia vermelha e redonda. Estava bonita, estava bem. A sua saia verde de linho lhe caía formidavelmente bem, tal qual meu queixo quando a vi. Estava apenas a alguns passos, sentado no banco da praça da matriz. Os seus cachos que pendiam descansando nos sombros refletiam a luz do sol mormaço daquele dia, que vez ou outra dava as caras. Mas o dia era mesmo de uma só estrela. Sabe o nome dela.

Percebi a sua aproximação quando ouvi o estalar das folhas secas, com os seus passos, que preenchiam a calçada. Eram tantas espalhadas pelo chão, quase não notava-se o concreto liso que havia ali. Não é outono, mas as árvores parecem ter antecipado suas sazonais calvícies.

As oportunidades em que pude a observar assim, com tamanha minúcia, desabroxou em mim uma vontade de escrever, de externar em palavra essa glauca alegria. Rascunhei poesias, como essa:

Nos olhos redondos que retesam maior ímpeto,
contenho-me, na minha inconclusão.
Menos por mim, mais pelo meu coração.

Eu perdi a mim mesmo, desde que a conheci. A sua verdade, que concebo, é muito para mim. A sua essência é mais do que os meus sentidos podem compreender. Mas, a cada olhar, a cada caminhada, a cada sorriso lépido, a cada lembrança do seu modo de andar, de se vestir e de deixar as coisas ao seu redor existirem em ambivalência, consagro como indiscutível. Consegue entender o que digo? Desculpe-me se eu às vezes sou impreciso nestas minhas descrições, afinal minha composição é imprecisa. É possível que um dia entenda.

Vê-la cruzando a rua me provocou uma sensação de calmaria e de bondade instantânea. Bateu-me uma vontade incontinenti de sair por aí fazendo caridades, abraçando desconhecidos, beijando amigos ou quem cruzasse o meu caminho. Mas de toda esta efervescência denotava que brotava mais uma frivolidade característica dos meus hormônios em desarmonia com a realidade em que trabalhava o meu coração: você não me notava.

Na natureza e nos tempos, em muitos casos, tudo se altera com tamanha rapidez, que a força do homem não há de mensurar.

Hoje, acho, é um dos dias mais felizes de minha vida. Descobri que existo. Não sei em que proporção ou intensidade, mas existo. Tudo adquire outra forma, minha cabeça uma nova filosofia de entender os sentimentos que tecem os seres humanos. Especialmente a mim.


Saí há pouco no quintal, a trote cruzei o jardim e cheguei no portão. Vi que lá, preso em uma das grades, havia um envelope colorido. Nele cintilava a mesma caligrafia vermelha e redonda que notara em um dos envelopes que carregava em suas mãos juntamente com o caderno de capa preta, há dois dias. Estranhamente, o envelope estava selado e com o carimbo dos correios. 'Não era possível, moramos apenas a três quadras', e, por isso, não havia razão de receber carta sua, pareceu-me inverossímil o que minha mente confabulava antes de verificar o remetente constante do envelope.

Mas as minhas suspeitas confirmavam-se: o envelope fora mesmo postado por você. Trêmulo, deixava a carta instável em minhas mãos. O susto. A surpresa. A existência. 'Eu existo, mais do que poderia supor', mais: pra você.

'Calma, vamos com calma', eu dizia a mim mesmo. Desdobrei, desajeitado, o papel que continha poucas palavras, mas as suficientes para estreitar o significado e significante de meu passado para estabelecê-lo agora, na pequena carta que guardarei no meu criado-mudo para todo o fim.

Na carta continha apenas o convite para o seu aniversário, mas não é apenas: é tudo. A honraria de vê-la, entre outros convivas, no dia em que faz anos, num momento em que fica mais bonita, pra mim é maior. O meu contentamento agora suplanta o outrora sentimento de pequenez frente a indiferença que parecia nutrir por mim, seja dentro da sala-de-aula, seja no pátio do colégio. A verdade não é assim e eu também muito menos. Que tudo tenha sido apenas timidez.

Sinto-me melhor. Será o dia do seu aniversário, e o dia de meu renascimento. O dia da troca, e da nova esperança; de compreender que, mesmo que me reprovem, gritarei para o mundo que sou grande. Você me convenceu.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Ano Novo

Desejo um 2009 feliz.

Certo?

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Brasilidade

Não sou índio. Não sou negro. Nem pardo. Nem jambo. Nem mulato. Sou duma cor que não é aquela cor. Ou de cor que não se pronuncia porque não se sabe o nome. Não se sabe, mesmo. Sou brasileiro, mesmo sem penachos, sem aldeias, sem gritos selvagens.

Não tenho ancas largas. Não jogo futebol. Não moro no Rio. Nem sou da Amazônia. Não tenho abacaxi ou qualquer outra fruta na cabeça. Nem flanelo no corcovado. Não adoro o Cristo Redentor. Acho interessante todas as belezas do meu país, mas quero conhecer outros também. Os vizinhos, os longínquos e distantes. Mesmo assim, com tudo isso, sou brasileiro.

Minha brasilidade não é estampada em selo, cantada em música. Leio os alemães, os franceses, os uruguaios, os japoneses. Assisto os franceses, os italianos, os americanos, os mexicanos. Visito os paraguaios, os argentinos, os bávaros. Sou paulistano, essencialmente brasileiro.

Vi o Nordeste; nadei nos rios do Pantanal; observei tanta coisa bonita nos litorais brasis... Não conheço o meu sotaque, mas sou, do subúrbio da maior cidade do meu país. Não tenho símbolos, não canto bossa e, mesmo assim, sou do Brasil.

Não ouço samba, mas sei da importância dele. A minha existência é paulista, mas dimensiono o meu continente Brasil também fora dos atlas.

Posso até ouvir Tom, mas Bowie e Dylan também. Posso saber da relevância dos Caetanos daqui, mas gosto dos Sinatras de lá. A minha existência e a minha cidadania vai além de quatro cores, são de todas as cores. Sou do Brasil, do azul-anil, amarelo-ouro, verde e branco, mas sou das imensidões das outras cores que colorem o mundo.

Sou da Terra, do Universo infinito, caibo além das fronteiras, resido no mundo.

Meu RG é brasileiro, e os meus caminhos são essencialmente de zonas não demarcadas, de toda a esfera, meu habitat deve ser maior, tal qual objetivos e sonhos - ilimitados.

Minha brasilidade está além do Brasil, porque está aqui, cuida do jardim, vai ao cinema, cuida de si, compra pão, trabalha vários dias para ter só alguns de descanso.

Sou essencialmente da América do Sul, sem orgulho, sem preconceito, com dignidade fundamental. Brasileiro além dos mitos, dos folclores. Do caos, da rotineira metamorfose.

Sou brasileiro suburbano, tranqüilo, metódico, honesto, desajustado, mas essencialmente preocupado com os rumos do país, do mundo.

Chega de insensatez, para viver do jeito que se dá, e lutar para o melhor, do nosso jeito, do melhor jeito. Ser o brasileiro dos dias, não dos cartões postais, nem das canções que só citam a beleza (que não pode ser ignorada) e desconsideram a nossa crueza (que não pode ser ignorada).

Sou brasileiro. Se desafinado? Não sei. Na batida dos dias, para ser herói.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Noite feliz sem "Noite Feliz"

24 de dezembro. Véspera de natal. Músicas com sininhos. Melodias pastosas, algumas poucas bonitas, para saudar essa data que nos enxarca com simbolismos aos montes desde criança.

Não. Pelo menos agora, digo não ao Jingle Bells. Para celebrar o natal, dispenso os coros natalinos, as crianças bonitinhas, as flautas doces afinadas para Noite Feliz.

Uma canção de natal que não fale do natal para saudarmos com mais força ainda as alegrias que não estão nas datas, estão na gente.

Bob Dylan, George Harrison, Tom Petty, Jeff Lynne e Roy Orbison (uma das vozes mais magistrais) para cantar pra quem quiser bem ouvi-los.

A música de natal é Handle With Care, do Traveling Wilburys, daqueles cinco "fracos" meninos.

Feliz Natal!


quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

A Calça Xadrez de Richard Gere



Ao assistir, nesta semana, Acossado (1959), de Jean-Luc Godard, algumas cenas que não são deste filme vêm à tona em meu pensamento. Lembranças de longe, ou de muito tempo, mas próximas porque conservam ainda certo frescor quando surgem, assim, quase que sem querer.

As cenas, às quais me refiro, ficaram um bom tempo confusas, naquelas lembranças da infância, das noites com os olhos pregados à TV. Confundi protagonistas, nome de filmes, músicas, interpretações. Numa época em que, para mim, nem era importante saber quem era o diretor deste ou daquele filme.

As imagens confusas, embaçadas por um certo tempo, tornam-se nítidas quando volto a ouvir aquela música da cena do chuveiro. Pela primeira vez, ver um homem e uma mulher nus, num filme, fazia parte do descobrimento, do mundo e de mim mesmo. Homem e mulher unidos, fazendo amor, era uma possibilidade apreendida dos filmes, primeiramente. Eu saberia muito depois o quão bom e importante é dar e receber isso o que chamam de carinho, de amor.

Suspicious Minds, por Elvis Presley, é a canção da cena do chuveiro. Para bom entendor meia-palavra basta? Os entendedores então já devem saber do filme a começar pelo título deste texto. A Força de um Amor (1983) é o filme. Remake americano de Acossado, filme seminal da Nouvelle Vague francesa.

O argumento do filme francês, de François Truffaut, é o mesmo para o filme americano (a história de um ladrão de carros que decide burlar todas as regras para viver com a mulher que ama), mas a versão americana é bem diferente do original francês. O filme conta a história de um ladrão de carros, que na fuga, em um de seus roubos, acaba por matar um policial. Com a complicação de sua situação busca ajuda junto à sua namorada. O ladrão embute a idéia de fugirem para o México. No elenco, Richard Gere e Valérie Kaprisky fazem as vezes de Jean-Paul Beomondo e Jean Seberg. As cidades de Marselha e Paris, do filme de Godard, aqui são substituídas por Las Vegas e Los Angeles.

Como visto, o enredo parece mesmo muito simples. Jesse Lujack (Gere), como um emblemático galanteador, lança mão das suas poderosas armas de conquista para convencer Monica Poiccard (Kaprisky) de que o melhor caminho é a estrada, vencerem sobre as rodas de um cadillac até alcançarem o sol do México.

Lembro-me que as cenas deste filme compuseram um quebra-cabeça que peça a peça foi montado, pelos anos da infância, puberdade até ser estabelecido posteriormente no mundo dos adultos.

As cenas de nudez, de sexo; o sentimento de devoção de um homem à uma mulher; os sonhos desenhados com um tino sentimento de inviabilidade de realização, mas, mesmo assim, acreditados; o plano de vida arriscado por um ideal que tange a inocência, com uma impureza leal característica dos filhos que descobrem que o mundo dos pais é o seu também.


O último grito, o último giro, a última dança... O abraço de despedida que promete volta; a confissão mentirosa de 'eu não amo você'; a mentira deflagrada: 'sua mentirosa'; a piscina azul com o som da água de Monica imersa; a imagem no tremeluz do maiô vermelho; Jesse, tal como um Tarzan, descendo até a piscina; Jesse adorando a vida e lendo, compulsoriamente, O Surfista Prateado; Jesse, um anti-herói, um marginalzinho que vê a vida como objeto de total desfrute. Isso, na minha infância, me causava certo fascínio, mesmo que não entendesse muito bem.

O banho de chuveiro ao som de Elvis; os arranques no cadillac. A redenção de Jesse por Monica, talvez a seu único combustível de fé em sumplantar as armadilhas que se enredavam para por fim a sua crença, abalar a sua carga de confiança no amor. A incidental de Philip Glass resume um pouco tudo isso.

De novo, agora, a última corrida, o último giro, a última dança. Jesse parecia acreditar, mais do que nunca, no grand finale; que nunca o separariam de Monica. Tudo isso, no último escape, do último giro... Numa das fugas, buscar abrigo num cinema.

Estas imagens se juntam quando me lembro um pouco do que me ocorria. Do filme e da melancolia e emoção que me acometiam ao assisti-lo num fim de noite, já muito tarde. Enquanto meus pais dormiam, eu, de alguma maneira, na sala, sonhava acordado. O mote era ver o mundo que eu ainda não via. Sem saber, que muita coisa viria depois; e muito depois poderia me lembrar da calça xadrez de Richard Gere, de sua aposta com a vida, daquele amor que não cria ser mundano; arriscar tudo.

O balanço, o beijo e o fim sem volta, de quem acreditou no impossível. As crianças acreditam no impossível. Acreditam porque não mensuram o tamanho das coisas estabelecidas, nem divisam bem o que faz parte do mundo imaginário e do mundo real.

Para mim, era mais do que possível ser um Jesse Lujack a correr pelas ruas, rasgar o peito, e dividir o chuveiro com alguém digno de meu amor, cantando Suspicious Minds.

Ainda não tive a minha calça xadrez, mas é uma questão de tempo. Aprendi que - ainda que se deslize nas tentativas - é preciso mesmo arriscar...

Penso, matuto e não desacredito.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Vinho Rosé

As vinhas prensadas. O suco maturado. Meio em cor. Pouca. Fermentá-lo o suficiente para o rosa furtivo. Da morna cor. Alguns acham que é vinho inferior, menor. Não. Não foi, não é.

O vinho rosé verdadeiro não é mistura de vinhas; é o vinho rosé, na fermentação de muito preparo e cuidado e pouco contato com a casca da uva. Nem muito sangue, nem muita água.

Vinho rosé. Quais vinhas adocicarão meu paladar gulag? Meu corpo tinto, minha alma branca. Meu presente é rosé. Fuligem do vulcão me fez tossir. Preparei novas prensas, medi acidez, marquei o aroma. Não é o tinto e nem o branco que ouso produzir. É o rosé.

O engaço se sustiu da seiva que já não circula por ele. O bagaço é o que produziu líquido, suco para os açúcares do álcool purpurificado, roseado ou branco. Manso, não rege-se novas nas novas uvas da rosca infinita que as carregam para o caminho da prensa, que substitui pés.

Os sentidos se distraem na colheita das uvas da colina. Nem menos engraçadas as uvas desta safra nos trazem aquela graça, única e competente. Exaltado Baco, exclamadas profanações. A hora do deus místico, da cabeça solta, dos sentimentos não-controlados. Acham que é uma lei escrita naquelas colinas. Vinhos diferentes. Outra safra. Outra vida. Vidas diferentes. Não poupam a poupa que nos dá torpor, alegria. Nos dá vinho. Quero rosé.

Não ser o tinto e nem ser o branco causa já uma estranheza. Ser rosé é não ter time ou uma preferência sucinta. Rosé porque é a mediação, talvez. Rosé porque não é vermelhidão da carne, nem a alvidez do espírito. Porque não é de espírito e de carnes. Nem de amor. Nem de dor. Amor e dor nem devem ter cor, mas pintam com vermelho o primeiro, o segundo veste branco. Vejam as brancuras dos hospitais. Os olhos da paixão, crispados, brilhantes e vermelhos.

Mas não. É o meu ser a forma e cor matizado em rosé. Não o meio. Não o fim. Não o início. Mas o único. A forma, cor únicas. Vinho rosé alaranjado ou bem púrpura conhecido. Mas, de nada se sabe das cores e dos aromas dos vinhos. Dos das nossas.

Por não ser de partido ou coligação etílica escolho o rosé, algo que mais se aproxima - não da anarquia - da neutralidade. Mas o rosé não é neutro.

Cabernet Sauvignon ou Merlot para adornar a mesa na decomposição sincera das suas vinhas, do calor fermentado na cor transparente roseada.

Por que furtar-se? Provar um rosé, assistir Judy, sentir que ainda é muito bom ouvir Nara.

Um dia, além de sobre rosé, conversaremos sobre outras coisas, talvez andando pelas ruas de São Francisco ou mesmo, mais fácil, pelas alamedas de São Paulo - a caminho de umas boas conversas, de uns bons vinhos e de umas bem-vindas boas noites.

Começar a falar de vinho e terminar com referência de amizade é tão clichê, eu sei, mas é o meu que ninguém tasca.