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quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

J.D. Salinger

Hoje, o mundo despede-se de um indivíduo recluso, avesso a todos aqueles que buscam saber mais sobre o que o faz ser quem ele é: o que ele escreveu.

Mas Holden Caulfield continua. Atormentado, ainda aguardando uma resposta sobre as coisas mais elementares da vida - mal ele sabe que a resposta é a própria vida. E é vida, no âmbito material, que Jerome David Salinger agora não é, mas, mais do que nunca, é pura literatura, ainda que esta confunda-se com a vida de maneira a deixar-nos confusos e não saber o que é uma e o que é outra.

No seu rancho, do seu rancho, por seu rancho Salinger nos apresentou a perturbância de Holden Caulfield, e como essa não cessaria, a não ser com a abstinência do que citei: vida.

Como diz Otto Maria Carpeaux, "as obras de vanguarda apenas são lidas pela vanguarda". Pois Apanhador no Campo de Centeio (Catcher in the Rye) começou assim, com uma tiragem limitadíssima antes de ser descoberta - tal qual outras da literatura norte-americana e mundial - como uma joia. Agora, o campo de centeio espraia-se para o vasto espaço em corações que ainda tentam suprir uma carência que eles mesmos ainda não sabem qual é.

No meu modesto conceito, o Apanhador é muito menos do que dizem e muito maior do que propriamente é. Um "romance da inocência", parafraseando novamente Carpeaux.

Sigo o curso das páginas, de uma ou outra linha, e mais páginas, pontos e exclamações, até que vem aquela interrogação. O que tantos estes caracteres tem a ver comigo? Na real, nada. É que me caracterizo, de literatura em literatura, de rua em rua, para aprender um pouquinho mais daquilo que preciso.

Salinger se foi, como Hesse também. Mas basta esticar o braço até a estante para alcançar as metáforas de Emil Sinclair e de Holden Caulfield, ou se perder para a morte na casuística sonífera vida de um contador de estórias.

Antes de agradecer a Salinger e Hesse, agradeço às palavras, estas as pontes, fios interconectores de uma verdade de um presente contínuo.

O melhor Salinger não estava nem em Caulfield, mas nas pequenas estórias.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Letras chilenas

Roberto Bolaño em foto para o jornal El País (Espanha)

Há esperança para o futuro da literatura, uma esperança latino-americana, esperança chilena, mais especificamente Roberto Bolaño. Acabei de ler Noturno do Chile. E percebi o quão precioso (não consigo encontrar outro verbete como predicativo) é o escritor chileno, quão doce, lúgubre, político e essencialmente literário é Noturno do Chile.

Eu estava em paz. Agora não estou em paz. Estas palavras são de Sebastián Urrutia Lacroix, o narrador deste livro que não possui divisão em capítulos, é contínuo, como se tratasse de um relato único do padre, cuja paixão, além do sacerdócio, é a literatura e o desenvolvimento da sapiência e paixão através da crítica literária. Num monólogo, Sebastián Lacroix desenvolve as suas memórias, os seus desejos, aprendizados e experiências que vão desde o contato com Farewell, o maior crítico literário do Chile e espiar Pablo Neruda olhando para o céu fazendo poesia à dar aulas de marxismo ao general Pinochet e sua cúpula - na época do golpe militar de 1973 por Pinochet ao primeiro governo socialista eleito democraticamente na América Latina que era o de Salvador Allende.

O livro é político mas este não é necessariamente o seu viés, o livro é essencialmente literário. Quase como uma ode ao Chile e às suas letras, não só pelas memórias de Lacroix, com Neruda e outros escritores e aspirantes ao mundo das letras chilenas, mas como ele é elementar ao mostrar uma paixão de um homem pelo seu país, pela sua história, por seus símbolos e, finalmente, por sua memória que o faz mais forte e vigoroso em cada palavra enunciada sobre a vida e a experiência com seus patrícios.

Há passagens deliciosíssimas, como o encontro com Neruda na casa de Farewell, como o relato da história do escritor chileno don Salvador Reyes ao encontrar o escritor alemão Ernst Jünger em Paris na casa de um amigo guatemalteco. E há passagens de suma reflexão, quando é "convidado" a lecionar marxismo à Pinochet e quando rememora os saraus na casa da então amiga María Canales, que posteriormente será descoberta, melhor, o marido de Canales, como colaborador do regime de Pinochet. O livro não é o retrato somente da transformação de um país, mas principalmente deste processo com os seus indivíduos.

Se houver uma predisposição de tempo, é possível "traçar" o livro de uma única vez, com as suas pouco mais de 100 páginas.

É uma infelicidade muito grande Bolaño não estar mais entre nós (o escritor morreu em 2003 em decorrência de problemas no fígado), porque o mito que o cerca, e não trata-se de só mito, mas de muita coerência, o aproxima de Cortázar, Borges, Carpentier, Arlt e o que de melhor as letras hispano-americanas construíram e presentearam o mundo. Terminado Noturno do Chile tive a impressão de que lia um cânone que ainda não era, mas o será em hora que não tardará chegar.

Num artigo do jornal espanhol El País, de 2008:

(...)Bolaño ha sido condenado a la fama póstuma y a una reverencia que él mismo hubiese abominado. Antes de su muerte en 2003, era un escritor desdeñado, admirado tan sólo por sus amigos(...)

Ainda que a luz da vida de Bolaño tenha se apagado há 6 anos, ainda acredito que há esperança nas letras, na nova literatura, na jovem literatura... Que o Chile e outros países sejam testemunhas sempre do frescor da boa letra, bela, etérea e eterna.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Os infinitos hexágonos que constituem o mundo


Decifre o texto ou lhe tiro a vida! Decifre a vida ou lhe tiro o texto!
Quais são os hexágonos - estes em números insondáveis, por isto infinitos - que fazem do mundo "mundo"? Um mundo inexclamável, que não deveria ser destacado num arranjo ortográfico entre aspas, pois as aspas são uma espécie de raspas de letra, não são? Uma espécie de cedilhas inutilizados, pois há tão poucos "c" para tantos cedilhas, aí, nesta infinitude de sinais, símbolos, arranjaram um emprego para utilização destas sobras, raspas ortográficas que são as " ".
E já são infinitos os códigos e por isso não há outra razão de ser assim também o mundo.
Se vão, levem-me então. Levem-me para que eu seja levado leve. (Grifo meu)
O mundo é uma biblioteca infinita ou a biblioteca é um mundo infinito? O que pode nos esclarecer as nossas letras, pontos, vírgulas, reticências, exclamações, números, algaritmos e as infinitas combinações entre os mesmos? Tudo ou nada...
"Nada" me faz lembrar o "Tudo" que há para ser preenchido ou o "Nada" pré-existente. Decifro as moscas que andam sobre a laranja, a ruína porque andei onde batem as ondas, as pedras que chutei que cortavam o caminho, ou os caminhos. Tudo está descrito e explanado nos infinitos hexágonos que fazem disto um mundo que possibilite a esfera de um outro mundo extinto que coexistiu paralelamente à metafísica desse nosso outro mundo, que acostumamos identificá-lo nos sonhos espessos que se abrem, vez ou outra, para o que entendemos de "mundo real". E nada disso é sonho. Nada mais além de "arranjos ortográficos".


"...La Biblioteca existe ab alterno. De esa verdad cuyo colorario inmediato es la eternidad futura del mundo, ninguna mente razonable puede dudar. El hombre, el imperfecto bibliotecario, puede ser obra del azar o de los demiurgos malévolos; el universo, con su elegante dotación de anaqueles, de tomos enigmáticos, de infatigables escaleras para el viajero y de letrinas para el bibliotecario sentado, sólo puede ser obra de un dios. Para percibir la distancia que hay entre lo divino y lo humano, basta comparar estos rudos símbolos trémulos que mi falible mano garabatea en la tapa de un libro, con las letras orgánicas del interior: puntuales, delicadas, negrísimas, inimitablemente simétricas." (A Biblioteca de Babel, de Jorge Luis Borges, em Ficções (1941))

sexta-feira, 29 de maio de 2009

O gosto das abóboras

Há pouco, li o livro Vida e Tempo de Michael K (Life & Times of Michael K), de J. M. Coetzee. É o segundo livro que leio do escritor sul-africano. O meu primeiro contato com o universo desgraçado de Coetzee foi com Desonra (Disgrace).

Michael K, apesar de curto, carrega uma densidade difícil de explicar. Apenas lendo-o para saber do seu poder, do quilate das palavras diretas de Coetzee sobre o universo e a vida da personagem-título, da devastação que ela nos causa ao nos surpreender com uma vida totalmente equivocada, não por Michael, mas pelo meio em que este nasceu e foi criado. Como um amigo das letras já me disse, Michael K é uma das mais fortes composições literárias contemporâneas, e é difícil terminar o livro e não ter a sensação de que é preciso agora "recuperar-se".

Michael K é um errado ou errante, que tenta, como inicia a narrativa, trazer um pouco mais de tranquilidade a mãe, muito idosa, e tentar levá-la, através de um carrinho de mão adaptado, para uma melhor sorte, onde ela possa descansar e passar a sua velhice, seus últimos dias. Mas é no meio desta empreitada que Michael perde sua mãe, com a saúde já tão debilitada por tantos anos de sofrimento, trabalhando como faxineira e vivendo de favores para uma família da Cidade do Cabo.

Michael K tem lábio leporino - fissura na região do palato que provoca má formação do lábio superior - o que, juntamente com a sua condição social, faz com que seja alvo de inúmeros preconceitos. A vida de Michael, e como Michael não interage com o mundo, é a potencialidade do texto de Coetzee. Michael está pronto para viver, para ser?

Por este romance, Coetzee recebeu o seu primeiro Booker Prize - o prêmio mais importante da literatura de língua inglesa -, em 1983. Receberia dezesseis anos depois, em 1999, o segundo prêmio, por Desonra. Em 2003, Coetzee foi laureado com o Nobel de Literatura.

Há uma passagem no livro em que Michael K, isolado, tentando juntar forças para subsistir num país assolado pela guerra, em uma propriedade abandonada, na cercania das montanhas, processa o cultivo de abóboras. E são estas que darão um sabor único ao romance, mesmo ao nosso paladar. A destreza com que Coetzee narra a forma como Michael prepara as abóboras, o único alimento que conseguira da terra com certa bonança, é de dar água na boca aos mais discrentes do sabor desta cucurbitácea, da forma com que se apresenta pelas palavras simples, objetivas, mas perspicazes, de Coetzee. Sentimos fome.

O Vida e Tempo de Michael K, seja pelas abóboras, ou pela falta de sal ou pela ausência de canela em pó, é um romance inimaginavelmente lúcido, cuja leitura jamais será gratuita: aprendemos.

sábado, 4 de abril de 2009

"Si esto es verdad..."

J.L. Borges: o presente é infinito


Si esto es verdad y si cuando el tiempo nos deja,
nos queda un sedimento de eternidad, un gusto del mundo,
entonces es ligera tu muerte,
como los versos en que siempre estás esperándonos,
entonces no profanarán tu tiniebla
estas amistades que invocan.



/ Se isto é verdade e se, quando o tempo nos deixa,
nos resta um sedimento de eternidade, um gosto do mundo,
então é ligeira a tua morte,
como os versos em que sempre nos estás esperando,
então tuas trevas nunca as profanarão
estas amizades que invocam. /


Jorge Luis Borges


O início de um novo período é também, enfim, ler a biografia do Mestre - lê-lo.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

A Literatura no Cinema

Não é de hoje que vemos adaptações de obras literárias para o cinema, mas nos últimos tempos este número tem sido maior, e parece que os estúdios, cada vez mais, apostam na produção de filmes baseados em livros. Muito interessante, principalmente quando o livro é bom e a adaptação herda a qualidade do livro tornando-se uma obra ímpar, e não uma mera cópia do original.

Discute-se muito sobre as adaptações, e fala-se muito que o filme nunca é tão bom quanto o livro. Tal afirmação é só parcialmente correta. Devemos admitir que transportar um livro, um clássico da literatura para a linguagem fílmica requer, no mínimo, habilidade de roteiristas e boa análise sensorial de diretores. O roteiro adaptado requer maior cuidado em relação aos diálogos, na montagem dos personagens, nas sequências que serão utilizadas para compor a história - o tempo cronológico cinemático encaixar-se no tempo literário que será apresentado na tela, porque, claro, a adaptação já é uma história conhecida. O filme adaptado poderá, como optar produtores e diretores, ser livremente inspirado ou uma adaptação fiel ao conto, novela ou romance.

Claro, existem romances que talvez sejam infilmáveis, ou melhor, inalcançáveis pela cinemática, por aspectos próprios dos romances, inerentes à linguagem onírica peculiar às letras, que transborda à sintaxe, regência e imagem, como, por exemplo, as novelas de Franz Kafka. Mas seria muito bom ver, um dia, uma adaptação de A Metamorfose, mesmo parecendo ser dificílimo entender como fariam verter a agonia de Gregor Samsa ao acordar um dia e ver-se metamorfoseado num inseto. Entende-se - um inseto. Kafka em nenhum instante cita que tipo de inseto, se é um besouro, uma mosca, uma barata ou um escaravelho, portanto, cabe a nossa imaginação trabalhar com esta expressão, com este enredo surreal e compor a nossa ideia particular de Gregor Samsa. A palavra e a imagem são, evidentemente, meios distintos de veiculação de informação e pensamento, e transportar o pensamento e enredo kafkiano, tal como os vemos em seus livros, para as telas, não é algo simples e que, certamente, exigirá muito suor aos engenhosos da arte cinematográfica. Mas, sem dúvida, seria uma experiência interessante. Orson Welles bem que tentou; levou ao cinema a novela O Processo, do autor tcheco. É um bom filme, mas ainda longe da grandeza e da semântica do romance. Welles era mesmo audacioso pois, além de Kafka, levou ao cinema adaptações de William Shakespeare, como Othello e Macbeth - Reinado de Sangue.

Para desmentir este mito do livro ser sempre superior ao filme, há na história do cinema adaptações que se tornaram independentes da obra original, equivaleram ou mesmo suplantaram em importância e qualidade as obras em que foram baseadas. Vão alguns deles:

Carrie, a Estranha, de Brian de Palma
- livro homônimo de Stephen King

O Senhor dos Anéis, de Peter Jackson
- livro homônimo de J. R. R. Tolkien

Depois daquele Beijo, de Michelangelo Antonioni
- conto Las Babas del Diablo, de Julio Cortázar

Mágico de Oz, de Vincent Minelli
- livro homônimo, de Lyman Frank Baum

Uma Rua Chamada Pecado, de Elia Kazan
- peça Um Bonde Chamado Desejo, de Tennessee Williams

Janela Indiscreta, de Alfred Hitchcock
- livro homônimo de Cornwell Woolrich

Solaris, de Andrei Tarkovsky
- livro homônimo de Stanislaw Lem

Jules e Jim, de François Truffaut
- livro homônimo de Henri-Pierre Roché

O Dia em que a Terra Parou, de Robert Wise
- conto Adeus ao Mestre, de Harry Bates

O Falcão Maltês, de John Huston
- livro homônimo de Dashiell Hammett

Só pra dizer alguns.

No cinema em voga boa parte dos lançamentos - e de destaque - são os filmes adaptados de obras literárias. Vale citar alguns:

O Curioso Caso de Benjamin Button, de David Fincher
- conto homônimo de F. S. Fitzgerald

O Leitor, de Stephen Daldry
- livro homônimo de Bernard Schlink

Foi Apenas um Sonho, de Sam Mendes
- livro Revolutionary Roads, de Richard Yates

A Bela Junie, de Christophe Honoré
- inspirado livremente no livro A Princesa de Cléves, de Madame de Lafayette

Interessante que, sobre o conto de Fitzgerald, O Curioso Caso de Benjamin Button, o próprio não é tão original, pois Fitzgerald o escreveu com base na frase de Mark Twain, por quem nutria grande admiração: "A vida seria infinitamente mais feliz se pudéssemos nascer aos 80 anos e gradualmente chegar aos 18".

O estreitamento e força do diálogo entre literatura e cinema, que existe desde a criação deste segundo, ganha força na safra nem tão interessante de roteiros originais. O livro e o filme, como meios de informação de massa e não apenas entretenimento, reforçam cada vez mais que toda novidade é uma existência renovada. Como ouvimos dizer há muito, a frase do químico francês Lavoisier: "Nada se cria, tudo se transforma". Nos perguntamos: em que Lavoisier se baseou pra fazer tal afirmação?

As informações e criações parecem mesmo ser circulares, e é bom para todos que neste sistema de renovação haja aperfeiçoamento, boa adequação e harmonia - requisitos fundamentais para a criação, para a boa arte. Processo natural que começa pela água que nos alimenta e rega nossos jardins.

Seguem alguns trailers das obras adaptadas que valem ser vistas, por ora, nos cinemas, e lidas, por horas, em casa:




A Bela Junie


Foi Apenas Um Sonho


O Leitor

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

O Passeio Repentino

um dos desenhos feitos por Kafka

O nome deste blog dá-se pela leitura do pequeno conto de Franz Kafka, Der Plötzliche Spaziergang. Traduzindo-o: O Passeio Repentino.

O conto é mesmo muito pequeno. Cabe em uma página. Mas a quantidade de caracteres nada tem a ver com a força de um texto, exemplo muito bem estabelecido com este.

O Passeio Repentino
encontra-se no primeiro volume publicado, Contemplação (Betrachtung), ainda em vida por seu autor - que já foi traduzido também por Consideração. Este volume contém historietas, contos breves.

Kafka nem sempre é kafkiano. O que quero dizer com isso? Bom, criou-se uma cultura nas rodas e debates literários de dizer que Kafka é naturalmente pessimista, com a realidade, com o universo, e por esta razão os distorce, com o objetivo de não empreender uma fuga deles, mas de provocar-nos em nossos íntimos, no mundo distorcido que há em cada um. A identificação ou repulsa é natural ao ler Kafka. A primeira, por observar a si próprio nos flagelos com palavras nada adornadas de seus personagens; a segunda, por realmente não aceitar que isso aconteça, e preferir o refúgio em algo que não seja tão "denunciador".

Quando digo que Kafka nem sempre é kafkiano, quero demonstrar que Kafka nem sempre é monstruoso tal como se desenha a suas novelas, no que condiz ao tratamento psicológico. Muitos duvidam, mas Kafka é muito esperançoso também, ainda que já tenha escrito: "Há esperanças, só não para nós." A figuração do absurdo faz-se necessária para a denúncia. Há menos horror do que o que se imagina, propriamente. O horror maior são mesmos estes dias, é o que transparece em o O Processo, texto cada vez mais atual quando questionamos a situação de justiça, e a nossa responsabilidade sobre ela, a nossa contribuição para que haja, ao menos, um sentimento de justiça em quaisquer setores sociais.

Enfim, não objetivo discorrer de forma aprofundada sobre isso, mas quero apenas mostrar que Kafka é um indivíduo de esperanças, principalmente ao compor o conto O Passeio Repentino, um texto que parece desproposital e sem conflitos; mostra-nos uma idéia simples para reverter uma situação, que fará, sem dúvida, aquele personagem, como o nosso dia, como os nossos empreendimentos, com certeza, bem melhores do que se configuravam, quando já decidíamos quebrar uma verdade, quase aceita.


Seguem os textos; o original em alemão e o traduzido para o português, de forma sempre exemplar, por Modesto Carone.


Der Plötzliche Spaziergang

Wenn man sich am Abend endgültig entschlossen zu haben scheint, zu Hause zu bleiben, den Hausrock angezogen hat, nach dem Nachtmahl beim beleuchteten Tische sitzt und jene Arbeit oder jenes Spiel vorgenommen hat, nach dessen Beendigung man gewohnheitsgemäß schlafen geht, wenn draußen ein unfreundliches Wetter ist, welches das Zuhausebleiben selbstverständlich macht, wenn man auch jetzt schon so lange bei Tisch stillgehalten hat, daß das Weggehen allgemeines Erstaunen hervorrufen müßte, wenn nun auch schon das Treppenhaus dunkel und das Haustor gesperrt ist, und wenn man nun trotz alledem in einem plötzlichen Unbehagen aufsteht, den Rock wechselt, sofort straßenmäßig angezogen erscheint, weggehen zu müssen erklärt, es nach kurzem Abschied auch tut, je nach der Schnelligkeit, mit der man die Wohnungstür zuschlägt, mehr oder weniger Ärger zu hinterlassen glaubt, wenn man sich auf der Gasse wiederfindet, mit Gliedern, die diese schon unerwartete Freiheit, die man ihnen verschafft hat, mit besonderer Beweglichkeit beantworten, wenn man durch diesen einen Entschluß alle Entschlußfähigkeit in sich gesammelt fühlt, wenn man mit größerer als der gewöhnlichen Bedeutung erkennt, daß man ja mehr Kraft als Bedürfnis hat, die schnellste Veränderung leicht zu bewirken und zu ertragen, und wenn man so die langen Gassen langläuft, - dann ist man für diesen Abend gänzlich aus seiner Familie ausgetreten, die ins Wesenlose abschwenkt, während man selbst, ganz fest, schwarz vor Umrissenheit, hinten die Schenkel schlagend, sich zu seiner wahren Gestalt erhebt.

Verstärkt wird alles noch, wenn man zu dieser späten Abendzeit einen Freund aufsucht, um nachzusehen, wie es ihm geht.

Franz Kafka


Tradução

O Passeio Repentino

Quando à noite parece ter-se tomado a decisão definitiva de permanecer em casa, vestiu-se o roupão, depois do jantar ficou-se sentado à mesa iluminada, às voltas com aquele trabalho ou jogo ao término do qual habitualmente se vai dormir, quando lá fora há um tempo inamistoso que torna natural permanecer em casa, quando já se passou tanto tempo quieto à mesa que ir embora teria de provocar espanto geral, quando até as escadas já estão escuras e a porta do prédio fechada, e quando apesar disso tudo, num mal-estar repentino, fica-se em pé, troca-se o roupão, surge-se imediatamente vestido para ir à rua, se esclarece que é preciso sair, faz-se isso depois de breve despedida, acreditando-se ter deixado maior ou menor irritação conforme a rapidez com que se bate a porta do apartamento, quando se está de novo na rua com membros que respondem com uma mobilidade especial a essa liberdade inesperada que lhes foi concedida, quando se sente, através dessa decisão, concentrada em si mesmo toda a capacidade de decidir, quando se reconhece com um senso maior que o comum que se tem mais energia do que necessidade de produzir e suportar a mais rápida das mudanças, e quando assim se vai às pressas pelas longas ruas - então por essa noite está-se totalmente desligado da família, que desvia seu rumo para o inessencial enquanto, firme de alto a baixo, os contornos com as linhas carregadas, dando tapas na parte traseira das coxas, ascende-se à sua verdadeira estatura.

Tudo fica mais reforçado quando, a essa hora tardia da noite, se procura um amigo para ver como ele vai.

(tradução de Modesto Carone, no livro A Contemplação / O Foguista, de Franz Kafka - ed. Cia. das Letras)

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Outros instantes

Os "Instantes" e os "Outros Instantes" - o passado e o presente texto desta página - são uma forma de brincar, de conversar com os textos do mestre Jorge Luís Borges (ou mesmo com os seus não-textos).

"El Instante" é um poema que davam como Borges sendo seu autor, mas não é. É um texto que depois foram saber ser de autoria de Nadine Stair. Um poema-objeto, fala do que não costumamos dar atenção, pois estamos sempre ocupados com o futuro.

Este "Outros Instantes" faz analogia à "Otras Inquisiciones (1952)" (Outras Inquisições), dos livros mais notáveis de Borges - o argentino que aprendeu o inglês muito antes do castelhano.

A escolha de "Instantes" foi realmente inconsciente, pois a brincadeira se configura somente agora, com este "Outros Instantes".

Para complementar, para ser breve e outras boas outras coisas, encerro com um não-Borges, com um texto que era pra ser dele (ou não), mas não é. E nem sei se é mesmo de Nadine Stair.

É muito mais bonito e confiável ter uma obra assinada por Drummond, Borges, Pessoa ou Machado de Assis. O mundo internético sabe disso.

Instantes

Se eu pudesse viver novamente a minha vida,
na próxima trataria de cometer mais erros.
Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais.
Seria mais tolo ainda do que tenho sido;
na verdade, bem poucas pessoas levariam a sério.
Seria menos higiênico. Correria mais riscos,
viajaria mais, contemplaria mais entardeceres,
subiria mais montanhas, nadaria mais rios.
Iria a mais lugares onde nunca fui,
tomaria mais sorvete e menos lentilha,
teria mais problemas reais e menos imaginários.
Eu fui uma dessas pessoas que viveu
sensata e produtivamente cada minuto da sua vida.
Claro que tive momentos de alegria.
Mas, se pudesse voltar a viver,
trataria de ter somente bons momentos.
Porque, se não sabem, disso é feito a vida:
só de momentos - não percas o agora.
Eu era um desses que nunca ia a parte alguma
sem um termômetro, uma bolsa de água quente,
um guarda-chuva e um pára-quedas;
se voltasse a viver, viajaria mais leve.
Se eu pudesse voltar a viver,
começaria a andar descalço no começo da primavera
e continuaria assim até o fim do outono.
Daria mais voltas na minha rua,
contemplaria mais amanheceres
e brincaria com mais crianças,
se tivesse outra vez uma vida pela frente.
Mas, já viram, tenho 85 anos
e sei que estou morrendo.

domingo, 11 de maio de 2008

Que caminho seguir?


Não sei qual caminho, a releitura de Mann, a brevidade de Fiódor ou o sintetismo de Piglia, devo seguir. O alemão, o russo ou o argentino. Como Sócrates, Solo so che niente so...

quinta-feira, 24 de abril de 2008

O Grande Gatsby - O declínio do sonho americano

Mia Farrow, na adaptação para o cinema de O Grande Gatsby por Francis Ford Coppola


Sem fazer as vezes de Francis Scott Fitzgerald, mas se O Grande Gatsby pudesse ter um subtítulo, talvez este citado no título deste post se encaixaria perfeitamente no que a sua obra pretende apresentar.
The Great Gatsby (título original) é um retrato devastador dos EUA pós 1ª guerra mundial. Um país imerso numa depressão econômica nunca antes vista, numa imensão de dúvidas onde as certezas sobre as pretensões daquele país sobre o seu destino e o do mundo começariam a tomar forma então a partir dali, até os nossos dias.
Toda a situação é bem desenhada por Fitzgerald, mas parece que, por algum momento, houve uma espécie de Wonderland no meio da América, tal como aquela em que a Alice foi transportada através do espelho. O "País das Maravilhas" poderia ser muito bem a casa do magnífico Gatsby. Nas linhas que apresentam as festas suntuosas na casa de Gatsby vemos uma outra América, observamos naquelas noites o ideal da terra promissora, encantada, portentosa, vemos a terra da esperança. A mansão de Gatsby era o reduto da salvação, ali não havia depressão, nem econômica, nem emocional. Mas enquanto os olhos correm por aquelas linhas instituídas por F. S. Fitzgerald, começamos a notar também que se há algo verdadeiro nas festas, nos convidados e no próprio protagonista, esta verdade reside nas aparências, a "aparência" é a maior verdade e talvez a única.
Gatsby tinha um objetivo muito bem definido ao conceder as festas em sua mansão, festas que num primeiro momento é vista de longe por Nicky Carraway, o narrador, que posteriormente viria a se tornar amigo de Gatsby e ser convidado pelo anfitrião para compartilhar das alegrias e festividades em seu jardim. O objetivo do anfitrião era recuperar um amor perdido, não necessariamente perdido, mas ausente, distante de Daisy - síntese homogênica da mulher americana sem identidade, do início do século XX. O que a priori parece ser mais uma daquelas fábulas de amor, com celebrações e reivindicações súbitas pelo verdadeiro amor, começa a ganhar contornos de uma tragédia, que a fará situar-se cronologicamente no tempo e na própria realidade do mundo de então.
Daisy, amor de longa data de Gatsby, havia se casado com o também milionário Tom Buchanan. Gatsby e Daisy não se viam há cinco anos. Na ocasião do casamento de Daisy com Tom, Gatsby era pobre, o que o deixava em desvantagem em relação a Tom em chances de contrair matrimônio com Daisy. Foi quando Gatsby traçou o plano de construir um império - enriquecer e reconquistar a amada; a barganha monetária e visibilidade social de Gatsby, em seu pensamento, seriam diferenciais para alcançar a sua meta. Enfim, passados os anos, Gatsby enriqueceu - por motivos que o leitor tomará conhecimento no decorrer da história contada por Nick Carraway, que tem participação discreta na trama - mas os intentos do protagonista não tomaram forma, ou o resultado não apresentou-se como Gatsby planejava.
Gatsby comprou uma mansão nas vizinhanças de Daisy para justamente chamar a atenção desta, mas nem Daisy, nem Tom compareciam às festas promovidas por Gatsby, a situação o tornava uma pessoa solitária, em meio a toda a high society do leste americano, quando então o anfitrião se aproxima de Nick, narrador da história. Nesta trama serão exibidos os estratagemas dos hábitos inúteis de uma comunidade fútil, principalmente quando Gatsby percebe que seus objetivos, canalizados pelas noites de bebidas e comidas, patrocinadas no vasto jardim de sua mansão, não serão alcançados, ao menos da forma como sempre sonhou. Talvez não haja nenhum romance tão fotográfico para exibir ou antecipar o American Way Life, exibindo-o de dentro para fora, numa época em que Hollywood começava a ser a referência cultural que viria a ser então exportada e exibida para o mundo através dos movimentos mágicos dos pés de Fredie Astaire, posteriormente, pela alma amarfanhada de Montgomery Clift, ou pelos olhos de Bette Davis.
A esperança levada até o fim por Gatsby era como o castelo da Disney - lindo e superficial - era quase infundida. Como um castelo que não é habitado, só serve de imagem e fantasia, mas fazemos de conta que ele tem sua razão e brilha aos nossos olhos de quem vai até ele para admirá-lo.
A literatura, como já presenciado tantas vezes, é manejada como a pedra filosofal para tencionar e medir as possibilidades da alma e dos instintos humanos, sem que estas representações possam ser identificadas como simples exageros ou somente frutos das imaginações dos artistas que com ela trabalham. Tanto Gatsby, como Clarissa Dalloway (Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf), Eduard e Charlotte (As Afinidades Eletivas, de Goethe), são retratos, vezes pútreos, vezes imprevísiveis num espaço bucólico ou mesmo sórdidos, mas sempre humanos de um sumário questionamento de nossos papéis sociais, de nossas relatividades no mundo.