segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Anedota do fim do mundo

A seara nova, hiperbólica e cheia de estilo, da letra descoberta me encanta para o desafio.
Eu estava no quintal de casa quando senti o cheiro molhado da chuva que molhou o que eu pensava. Aquela hora eu não passava de algumas ideias encharcadas.
Mas eu me constituo de amor e de mais uma meia dúzia de palavras parecidas, que tentam explicá-lo. Mas amor, me dizem, é algo tão medieval, antiquado, velho, sem cor, desbotado pelo tempo. E eu confirmo para não causar controvérsias. Mas renego, com alguma veemência, o que externamente digo com os olhos, ou deixo escapar como se fossem palavras ditas com o coração que os verbos esplêndidos acolchoam, e deixam suavizar nos ouvidos dos outros. Eu não sou os outros. Sou-me. Ainda que sinta que quero te ser, se ter-te não for nenhum sacrifício, ou algo que os meus braços limitadíssimos possam alcançar.
Eu não sei de nada e sei alguma coisa. Sei que a seara nova, de uma palavra ainda não encontrada, poderá fazer de um indivíduo comum mais comum ainda, porém mais feliz. Eu agradeço aos signos que possam me atestar sobre essa coisa que rejo com um humor sereno, mesmo ante dias não comemoráveis. Mas ainda posso dizer que algo régio que sintetiza elementos dos quais não sei nem o nome, a denominação, mas fabricam o ser que escapa a mim, o mesmo ser que é capaz ainda de fazer uma anedota sobre o fim do mundo.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Antologiazinha

Salve a dignidade da pessoa humana. Mas nem por isso podemos esquecer a dignidade da pessoa hipopotamídea.

João-sem-braço não tem dor de cotovelo.

Quero uma tevê gigante, só não sei se uma tevê de "plaza" ou de "LSD". Que chique! Estão comercializando tevês alucinógenas.

Quanta mágoa essa dignidade da pessoa humana tece! Traição nas quatro rodas.

Como perdoar uma traição? A mágoa forte corrói o coração... E como desmagoa? Me ensina a desmagoar? Como desmagoa um coração? Como se produz uma desmágoa? As pessoas desbundam pra isso. As pessoas sem bunda reclamam do desbunde.

E a terra gira como a pomba gira. E de grão em grão a galinha enche o prato.

Viver é preciso, morrer nem tanto. Santo Daime, dai-me forças!

sábado, 28 de novembro de 2009

Reminiscências sobre uma cidade em síncope

"- É o Exu Tranca-Rua. Raça do 'carai'.
- Alimenta o governo com imposto. Imposto pago, dinheiro gasto e não visto.
- Obra do governo do cão!
- Asfalto não bebe água.
- É muito sangue pra pouca artéria..."

A lâmina d'água escorre pelo vidro pelo lado de fora. Estou dentro, pra dentro não há chuva. Ela só acontece lá fora. Um mundo se dissolve em água, impaciência e atraso. E a água não serve para baixar o fogo da consciência.

"- Raça do 'carai'."

Passaram-se já 20 minutos e eu ainda estou preso no semáforo. O ônibus não se move. Proibiram o trânsito? Não, é o próprio trânsito que impossibilita o trânsito.

São Paulo, quase 8 da noite: no ônibus, vejo uma fila de inequívocas luzes vermelhas acendendo-se em meio à lentidão dos maus e dos bons. O ônibus sobe a ponte, e é dali que vejo o rio que corre sujinho sujinho... Nem corre mais, já morreu. E por que insistem com o rio? Não sei, mas acredito que seja pelo mesmo motivo que insistem com as pessoas. Acreditam que do rio ainda possa fluir um fio de saúde. Como ocorre entre as pessoas, acreditam que dali possa fluir saúde e um riso raso, que se aprofunda dentro, pra dentro, pra sempre.

sábado, 21 de novembro de 2009

Lá vai Laila

Aí. Lá vai Laila. Vai com a sua mansuetude retemperando as equivocadas ideias. As ideias equivocadas. Era tão hora de dormir que ela acordou, porque na tão hora de acordar ela dormirá. Na folgança dela tão beligerante ela alimenta a cupidez por melhores dias, de pouco equívoco do choco do cotoco do derroco do massaroco do mundo oco. Ela aprende com os quebas, e erra de tão promesseira. Ela acredita que a bocedização das pessoas estraga o mundo, o mundo oco.

"Deixa esses despiciendos, não os importantize com tão mora importância, pois a minha espécie mor de volitiva vontade era de virar água neste seco-seco oco do meu coração, meu mundo de benção, das coisas doentes e sãs".

Era Laila senão se não não era se não não não era Laila. Laila respirava entre os seus paragões, vivia naquela parecença diferente da igualdade distinta das particularidades comuns dos seres coletivos únicos. Laila naquelas tardes descansava sob uma boceta-de-mula com as mãos ocupadas com uma sempre-viva, e era tão assim que não era tão bem assim mas era Laila na atuosidade esperada dos descansantes.

"Queria um bochinche pra distração, sem discutição ou modo de preocupar. Sem locupletamento para a minha alegria, que venha o Sol e me sorria, pois não estou para não sorrir, estou é o contrário".

Laila e os seus etcéteras e tanta parentesiação para não se aguentar. Mas Laila não temia, sorvia vida, música e o desespero tão suave que tudo lhe parecia verde, nem do vermelho lembrava. Era tudo certo, e qualquer sorriso que dela vinha era lidimamente produzido. Muito bem fabricado pela autenticidade carismática dos seres inócuos mais perigosos, fracos e tão fortes. Era Laila assim com tudo, com seus cupinchas, brindando com curaçau o festejo, mesmo nas jaças das verdades.

"Amiúde, pensei que o mundo era pra sonho além. Insistem comigo que é aquém. Mas eu sou o objeto sonhado, cá, além de mim".

E Laila vivia e sonhava. Escusava-se dos levados, mas ela mesma tão só levada que a fazia escrever sonho por sonho em sua caderneta, ao som do sanhaço-cinzento, que esperava colorir os momentos que fabricavam os seus dias:

"Caligrafei o achado sonhado. Estipulei o verbo findo conjugado na letra grossa tanta de tanta tinta e de tanta vida. Meigo é o meu desejo sincero de querer relatar e escrever essa vida que não se fia, pois há anjo que me espia".

Laila serenou e voltou a cabeça para o lado de lá, para desacordar num sonho que lhe mostrará naquela noite os dias vividos de amanhã que ela simpatizou ontem, e que vive sempre. A mão direita delicada dela desprendou-se do peito e deixou cair rente à cama a sempre-viva...

sábado, 24 de outubro de 2009

"Passageiro Negro"



(Após as explanações abaixo, creio não ser preciso conhecer o idioma para entender a mensagem do filme).

Traduzindo-se literalmente a palavra Schwarzfahrer do alemão, o significado seria algo como passageiro negro, no entanto, a semântica da palavra negro aqui nada tem a ver com a cor negra, mas faz referência a algo ou a alguém ilegal em determinada situação, como encontramos no composto sintagmático do português câmbio negro. Câmbio negro é a designação de um câmbio, mercado ilegal. Portanto, o significado da palavra Schwarzfahrer é passageiro ilegal, que analogamos aqui no Brasil àqueles que não têm dinheiro para pagar a passagem e pedem para o cobrador para passar por baixo da catraca. Entendido? Bem, a partir daí fica mais fácil entender a ideia deste curta-metragem alemão, de 1993, que faz uma crítica bem-humorada com relação a todo tipo de preconceito, dando ênfase a questão do preconceito étnico, aquilo que também conhecemos por xenofobia.

Um problema mundial, especialmente nos países desenvolvidos, o problema da xenofobia (etimologicamente, xenos, original do grego, significa estrangeiro e phóbos significa temor) tem atingido pessoas de diversos lugares que saem de seus países para buscar uma oportunidade de vida melhor em outro país. A Alemanha, onde foi produzido o curta, é um país que possui um grande número de imigrantes, e a maioria é de origem turca. Estima-se que, aproximadamente, mais de 2 milhões de turcos vivam na Alemanha. Utilizando este panorama, um dos maiores diretores do cinema alemão contemporâneo, Fatih Akin, que é de raízes turcas, já dirigiu vários filmes de grande impacto dentro e fora da Alemanha, e os seus filmes sempre tematizam a questão da identidade turca na Alemanha, uma identidade cultural que tenta permanecer forte longe de seu país de origem mas que sofre com o preconceito e os problemas de rebaixamento social.

No curta-metragem Schwarzfahrer, vencedor do Oscar de melhor curta-metragem de 1994, o diretor Pepe Danquart, de forma lúdica e inteligente, aborda a questão, ora apresentada, da xenofobia utilizando um bonde como cenário. Primeiramente, é preciso problematizar algumas diferenças culturais entre Brasil e Alemanha para que ao assistir o curta não fiquemos perdidos, certo? Bem, algumas situações que aqui no Brasil são aceitas e executadas sem grandes problemas como, por exemplo, pessoas passarem por baixo da catraca do ônibus, onde dificilmente são barradas ou expulsas do veículo, até porque quando alguém passa por baixo da catraca o faz com o consentimento do responsável pela cobrança da passagem, o cobrador. Na Alemanha a coisa é um pouco diferente, aliás, bem diferente. A passagem (Fahrkarte) deve ser comprada sempre antecipadamente, ou seja, antes de se utilizar o transporte, e essa passagem pode ser individual (válida para aquela viagem) ou por validade de tempo (paga-se uma taxa única e você pode utilizar o cartão em quantas viagens precisar dentro do período comprado que pode ser de semanas ou de meses). Ah, na antiga República de Weimar não é tolerada a entrada em qualquer veículo de transporte público caso não se tenha o bilhete ou o cartão da passagem, os alemães são diretos e objetivos com relação a isso: se não tem dinheiro para comprar a passagem, vá caminhar, faz bem. Na Alemanha, o cobrador das passagens (Kontrolleure) não fica fixo sentado diante da catraca, mas à paisana, fora do bonde ou do ônibus, e pode entrar no veículo em qualquer ponto de parada para fazer a cobrança das passagens. As passagens individuais são carimbadas e as de período apenas conferidas. Quem não tiver a passagem é convidado pelo cobrador a retirar-se do veículo, seja qual for a alegação do Schwarzfahrer por utilizar o transporte sem portar o bilhete.

Voltemos ao curta. Depois de uma análise rápida, percebemos o bonde como um microcosmo da Alemanha, representada com as suas minorias étnicas, como o rapaz negro que senta-se ao lado da senhora; vemos dois meninos em pé que são de origem turca; os demais passageiros pode-se dizer que são a representação da população alemã que, muitas vezes, se mostra pouco preocupada ou indiferente à questão dos imigrantes e às vezes não faz muito para mudar manisfestações explícitas de xenofobia e, com um grande mutismo, quietos, ficam à parte à ação que se desenrola no bonde. A senhora, de um mau-humor (antes fosse apenas mau-humor), representa a parte xenófoba da população, parte que é avesso à todo o tipo de pessoa ou manifestação que provenham de outro país, qualquer demonstração de cultura e credo que sejam diferentes dos seus.

A ação começa quando o bonde chega no ponto de parada e um grande número de pessoas entra no veículo. Mas dentre eles, dois personagens importantes para a trama: o jovem negro e o rapaz cuja motocicleta o deixou na mão, este último é o Schwarzfahrer, pois ele deixa a motocicleta de lado e, devido a pressa, não compra o bilhete e corre para pegar o bonde. Quando as pessoas já estão acomodadas no interior do veículo, o rapaz negro, ao ver um lugar vago ao lado da senhora que era ocupado pela sua bolsa, chega junto à ela e pergunta: "O lugar está livre?" A senhora não responde, apenas direciona ao rapaz um olhar ácido, que só falta perfurá-lo. Como a senhora não responde e não se habilita a tirar a bolsa do lugar vazio, o jovem senta-se mesmo assim, provocando uma certa ira da senhora. A partir daí, esta senhora começará a soltar todo tipo de impropérios e ofensas preconceituosas direcionadas ao jovem e à todos que atendam os "requisitos" e sejam alvo de suas palavras de injúria e de intolerância. A única manifestação verbal contra as palavras da senhora vem dos meninos de raízes turcas. Mas logo o grito de um deles contra a senhora é "abafado" pelo silêncio que ecoa no bonde. Mas no decorrer da trama nos perguntamos: alguém fará alguma coisa para calar a boca da velha?, o Schwarzfahrer será expulso do bonde? Assistindo-se ao filme teremos esta e outras respostas.

O fim do filme, que de algum modo não deixa de ser surpreendente, nos ensina aquilo que costumamos ouvir desde crianças: não faça com os outros o que não gostaria que fizessem com você.

E este é apenas um reparte e amostra da ignorância que temos de lidar em nossos dias. Reflita
e boa sessão!


P.S.: Há no You Tube uma versão legendada em inglês deste filme, mas optei em colocar a versão original sem legendas pois a qualidade de imagem desta é bem superior e, como dito no início deste post, após a leitura do texto creio que será bastante compreensível a temática e a abordagem deste curta. A edição legendada pode ser vista acessando o link: Schwarzfaher com legendas em inglês.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

François Truffaut


la nuit américaine - jean-pierre léaud, jaqueline bisset et françois truffaut

assistir um 'truffaut' pode ser tão delicioso ou mais que, dependendo do dia, uma trepada ou uma barra de chocolate. todas essas coisas controlam as nossas ansiedades, mas apenas truffaut as materializa diante dos olhos para fazer-nos entendê-las. a bruteza do sexo é boa e das melhores coisas humanas que podem ser trocadas deixando-se o raciocíno à parte, misturando-o ao singelo modo de perceber a vida sem percebê-la; o chocolate nos reaviva e faz-nos buscar um 'eu' que a nossa 'criança' quer e que o nosso 'adulto' repele. truffaut junta o raciocíno, o despercebimento e o prazer e convida à nossa 'criança' e ao nosso 'adulto' a entreterem-se numa mesa de lanche ou diante de uma tela, onde os sonhos se cristalizam mutando lágrimas escorridas em fotogramas que intuirão o melhor meio de se caminhar entre os corredores de nossa casa para os quartos em que guardamos e deixamos repousar nossas vidas sobre travesseiros. a nossa essência, a nossa demência truffaut pode nos mostrar. precisou de muito ou de pouco, conforme a percepção de cada indivíduo. a sensação que nos causa um 'truffaut' é diversa, multicolorida ainda que a película seja preto & branco. nascer, assistir um tourbillon é magna; ver crescer antoine doinel é sublime, tal qual ver a nossa 'criança' crescer, subir às alturas e dizer que já está pronta para o mundo. e como truffaut nos preparou e foi tão paciente em procurar fazer com que esse mundo não fosse tão ruim assim como o vemos nos jornais, na tv e no cinema, este último sua paixão precoce.


desculpe-nos, françois, mas há tanto por que chorar e choramos ao lembrarmo-nos de películas que falam da amizade, da separação, do medo, do futuro que sempre nos permearam. e continuarão assim num movimento contínuo, qual uma regra da natureza. mas ainda será preciso um 'truffaut' para uma outra lágrima bem resolvida? advindo françois que nos tornou seus sequazes, ainda há estórias e histórias que precisam ser contadas, mostradas e assistidas, mas já não, talvez, magnânimas como as suas lentes puderam nos fazer crer e intuir. haja vida, françois. haja movimento e um som e uma canção que sintetize o turbilhão da vida em que você nos colocou.

museu imaginário de marcel proust

ce que je reproche aux jornaux, c'est de nous faire faire attention tous les jours à des choses insignifiantes, tandis que nous lisons trois ou quatre fois dans notre vie les livres où il y a des choses essentielles.

du côté de chez swann -
à la recherche du temps perdu. marcel proust - gallimard, page 36.

*

o que censuro aos jornais é fazer-nos prestar atenção todos os dias a coisas insignificantes, ao passo que lemos três ou quatro vezes na vida os livros em que há coisas essenciais.


o caminho de swann - em busca do tempo perdido. marcel proust - globo, página 48 - tradução mário quintana

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Letras chilenas

Roberto Bolaño em foto para o jornal El País (Espanha)

Há esperança para o futuro da literatura, uma esperança latino-americana, esperança chilena, mais especificamente Roberto Bolaño. Acabei de ler Noturno do Chile. E percebi o quão precioso (não consigo encontrar outro verbete como predicativo) é o escritor chileno, quão doce, lúgubre, político e essencialmente literário é Noturno do Chile.

Eu estava em paz. Agora não estou em paz. Estas palavras são de Sebastián Urrutia Lacroix, o narrador deste livro que não possui divisão em capítulos, é contínuo, como se tratasse de um relato único do padre, cuja paixão, além do sacerdócio, é a literatura e o desenvolvimento da sapiência e paixão através da crítica literária. Num monólogo, Sebastián Lacroix desenvolve as suas memórias, os seus desejos, aprendizados e experiências que vão desde o contato com Farewell, o maior crítico literário do Chile e espiar Pablo Neruda olhando para o céu fazendo poesia à dar aulas de marxismo ao general Pinochet e sua cúpula - na época do golpe militar de 1973 por Pinochet ao primeiro governo socialista eleito democraticamente na América Latina que era o de Salvador Allende.

O livro é político mas este não é necessariamente o seu viés, o livro é essencialmente literário. Quase como uma ode ao Chile e às suas letras, não só pelas memórias de Lacroix, com Neruda e outros escritores e aspirantes ao mundo das letras chilenas, mas como ele é elementar ao mostrar uma paixão de um homem pelo seu país, pela sua história, por seus símbolos e, finalmente, por sua memória que o faz mais forte e vigoroso em cada palavra enunciada sobre a vida e a experiência com seus patrícios.

Há passagens deliciosíssimas, como o encontro com Neruda na casa de Farewell, como o relato da história do escritor chileno don Salvador Reyes ao encontrar o escritor alemão Ernst Jünger em Paris na casa de um amigo guatemalteco. E há passagens de suma reflexão, quando é "convidado" a lecionar marxismo à Pinochet e quando rememora os saraus na casa da então amiga María Canales, que posteriormente será descoberta, melhor, o marido de Canales, como colaborador do regime de Pinochet. O livro não é o retrato somente da transformação de um país, mas principalmente deste processo com os seus indivíduos.

Se houver uma predisposição de tempo, é possível "traçar" o livro de uma única vez, com as suas pouco mais de 100 páginas.

É uma infelicidade muito grande Bolaño não estar mais entre nós (o escritor morreu em 2003 em decorrência de problemas no fígado), porque o mito que o cerca, e não trata-se de só mito, mas de muita coerência, o aproxima de Cortázar, Borges, Carpentier, Arlt e o que de melhor as letras hispano-americanas construíram e presentearam o mundo. Terminado Noturno do Chile tive a impressão de que lia um cânone que ainda não era, mas o será em hora que não tardará chegar.

Num artigo do jornal espanhol El País, de 2008:

(...)Bolaño ha sido condenado a la fama póstuma y a una reverencia que él mismo hubiese abominado. Antes de su muerte en 2003, era un escritor desdeñado, admirado tan sólo por sus amigos(...)

Ainda que a luz da vida de Bolaño tenha se apagado há 6 anos, ainda acredito que há esperança nas letras, na nova literatura, na jovem literatura... Que o Chile e outros países sejam testemunhas sempre do frescor da boa letra, bela, etérea e eterna.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Os teutos de novo

Outubro: conhecido no meio literário como um mês de premiações do segmento ao redor do mundo. Sem divagações, a mais esperada é a divulgação do nome do vencedor do Nobel de Literatura. Muitos ficam ansiosos e se perguntam "Quem levará dessa vez?". Tal como uma espécie de "oscar" da literatura. Mas eu não gosto deste tipo de comparação - são coisas completamente distintas. Mas quem já trabalhou com livros sabe que mesmo os mais desligados por este universo da ficção, literário, às vezes se volta a prestar atenção no nome que será divulgado pela academia sueca, pra então correr pra livraria ou pra internet pra comprar o que seria "o livro mais relevante" daquele escritor ou daquela escritora.

Nesta manhã, a Real Academia Sueca de Ciências agraciou a escritora romeno-alemã Herta Müller com o Nobel de Literatura de 2009. Ainda que o escritor deste blogue, particularmente, não tenha lido ainda nenhuma obra desta escritora, mas, como curioso e estudioso da literatura de expressão alemã, não poderia passar despercebido pelo universo que rodeia a ficção da escritora. Para Herta Müller a literatura é uma forma de redenção e de trabalhar a situação de repressão vivida quando ainda residia na Romênia, até meados dos anos 80, época da ditadura de Nicolay Ceaucescu, quando então mudou-se para a Alemanha. Um dos pilares de Herta é a vida de oprimidos, vítimas de guerra, e de pessoas perdidas em meio ao terror de um mundo que é indiferente aos seus problemas e às suas aspirações. Outros escritores, vencedores do Nobel ou não, já menearam a literatura com este viés sociológico ou libertário, casos como os de William Faulkner, Joseph Heller, Carson McCullers, Toni Morrison, Günter Grass, Alfred Döblin, Máximo Gorki, etc.

Com este prêmio, a Alemanha soma já 11 escritores laureados com o mais representativo dos prêmios concedidos no mundo da literatura - indepententemente de discussões de sua significância politica ou das relativizações de seu mérito. Torna-se o país com o maior número de "conquistas", ultrapassando os norte-americanos, que detêm 10 premiações. Pode servir como uma amostragem de quão os países investem e valorizam a formação intelectual - não obrigatoriamente, mas culturalmente - de pensamento e de discussão, sintetizada numa única palavra: EDUCAÇÃO.

É preciso ressaltar que o Nobel de Literatura também não é um prêmio dos mais justos, pois grandes escritores nunca o conquistaram, ainda que tivessem requisitos de sobra, como Marcel Proust, Juan Rulfo, James Joyce, Virginia Woolf e João Guimarães Rosa, só para citar alguns. E talvez o prêmio Nobel de Literatura não signifique quase nada, e não será um prêmio literário que alçará um país ao status quo do equilíbrio econômico e social. Não é mesmo. No entanto valorizamos como uma essência fundamental o título de País do Futebol. Título que também não nos confere melhoria nenhuma, no quesito cidadão brasileiro, e não nos traz reputação no quesito respeito e justiça com o seu povo, no âmbito mundial. Mas que é bonito é, e tem a sua significância e importância dentro da nossa cultura popular. Mas seria preferível nunca ter vencido Copa do Mundo nenhuma e ter uma justiça educacional que fizesse com que pensadores brasileiros tivessem os seus nomes gravados na história do pensamento de relevância do mundo. Temos 5 Copas do Mundo e nenhum Nobel. A Argélia, país que já viveu as desmazelas de uma guerra civil, não conquistou nehuma Copa, tem 1 escritor com o Nobel: Albert Camus; o Chile, nosso vizinho, nunca conquistou a Copa do Mundo, mas tem 2 escritores que venceram o Nobel de Literatura: Gabriela Mistral e Pablo Neruda.

E pra os que acham que é impossível concomitantemente pensar e fazer, ler e jogar, ser sério e ser feliz, a Alemanha, novamente mostra que, utilizando a analogia da literatura e do futebol, é possível, com um pouco de organização: a Alemanha é tricampeã mundial de futebol.


País que não lê, não escreve. Intão vamu superfaturá e fazê olimpíada...

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

A Olímpiada que precisaríamos vencer

É encantador ver o nosso Presidente empenhado em trazer os Jogos Olímpicos para o Brasil, assim como fez para trazer a Copa do Mundo, ainda que esta segunda não lhe tenha demandado muito esforço.

Mas seria deveras encantador, e muito mais, se houvesse empenho tamanho - político e financeiro - para que houvesse uma transmutação de condição da situação de idosos, trabalhadores, atletas e também para os futuros trabalhadores, atletas e idosos: nossas crianças. Ou seja, dos Brasileiros.

Sem o objetivo de querer levantar bandeira e discurso de repúdia aos Jogos Olímpicos ou à Copa do Mundo, já que o alcance deste veículo (blogue - isso, escreve-se com e no final, porque eu quero) é pequeno, quase nulo, mas seria bom, boníssimo e encantador um Rio sem balas encontradas e sem balas perdidas; uma São Paulo sem o desarrazoado problema da poluição e sem o insistente Tietê afogado no plástico e no esgoto (desde que o blogueiro tinha 11 anos ouve que o rio será um dia limpo), e todo o resto do país com um programa de educação e sustentabilidade sério.

Há outra Olímpiada que precisaríamos vencer, ou pelo menos chegarmos no caminho de, para que pudéssemos encher o peito para falar que somos um país de primeira grandeza, como o nosso querido e popular Presidente fez questão de ressaltar, logo que o Rio foi anunciado como a sede olímpica de 2016.

Bem, a outra Olímpiada é aquela que sentimos dia-a-dia. Que parece esquecida por tanta gente, principalmente por aqueles que cuidam do dinheiro dos nossos impostos.

Gostaríamos apenas que o Brasil não fosse uma mentira, como é a China. Pequim recentemente organizou os Jogos Olímpicos, e isso não faz da China um país melhor. Podem ter desenvolvido para os Jogos uma infra-estrutura social, econômica e esportiva que aquela cidade não conhecia, mas, como um todo, a China continua a ser uma grande e dantesca mentira. Sabe-se bem as condições limítrofes de vida da grande parte da população chinesa que vive sob condições precárias, sub-humanas, e que Pequim ou Xangai, cidades desenvolvidas da grande república da Ásia, não servem de espelho para demonstrar a verdadeira China, ou aquela que acreditamos ser o espelho de seu povo. O que está bem às claras, é que o comprometimento do governo chinês na realização dos Jogos olímpicos de Pequim era nada mais do que uma "propaganda" transliterada de um país que economicamente galopa para galgar o posto mais alto da economia mundial. E propaganda não é novidade no que diz respeito ao cerne olímpico, basta revisar a história e verificar que os Jogos de 1936, de Berlim, tentou ser utilizado por Hitler como propagação das ideias nazistas, ainda que não tenha logrado o sucesso esperado, e este fracasso é sintetizado pela imagem do atleta negro Jesse Owens que desbancou a chamada "raça superior" ou "ariana" de Hitler, nas Olímpiadas de Berlim.

Portanto, tudo o que Brasil não precisa é de propaganda, porque quem vive neste país não se vê representado naquele vídeo maquiado que o Comitê Olímpico Brasileiro utilizou para "emocionar" os delegados do COI, e todos aqueles que assistiam à apresentação. Ali se vê uma Rio de Janeiro límpida, colorida e encantadora. Este Rio já existiu, hoje não mais. O fato é que teremos um evento de alta magnitude dentro de pouco mais de 6 anos. E nós, brasileiros, gostaríamos de que as Olimpíadas, como a história nos mostra, não fossem, mais uma vez, realizadas como um disfarce e maquiagem; uma rele propaganda de um país, para fazer média com o mundo para conquistar objetivos meramente estratégicos e geopolíticos que nem sempre coincidem com a melhoria e o bem-estar de sua população, como, por exemplo, uma cadeira permanente no conselho de segurança da ONU, para gabar-se de uma pseudo-importância no cenário mundial, e no entanto não cumpre com os mais elementares deveres de casa, que é a atenção, segurança e o cuidado aos que formam esta nação: toda a população. Chega de rímel e de pó-de-arroz para mascarar falta de propostas , de solução, ou falta de vontade em encarar os nossos problemas históricos, coloniais, estes, sim, muito elementares.

Enfim, este texto era para ser apenas um pequeno parágrafo que serviria de introdução à reprodução do texto de Clóvis Rossi, publicado hoje - 5/10 - na sua coluna Janela Para o Mundo, no Folha Online, que aborda aquela Olimpíada que precisaríamos vencer. Na verdade, precisamos - pelo menos deveria ser entendido assim, como uma obrigação, como meta para trabalharmos melhor essa dignidade que tanto buscamos que é a ideia de sermos Brasileiros, apesar do Brasil.


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A Olimpíada que perdemos. Sempre

Clóvis Rossi



Não deixa de ser pedagógico o fato de as Nações Unidas terem divulgado o seu IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) apenas 48 horas depois de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ter decretado que o Brasil passara a ser um país de "primeira classe", porque o Rio fora escolhido para sede da Olimpíada de 2016.


Não, presidente, o Brasil é de 75ª classe, a sua classificação no IDH, vexatória como sempre.

Aliás, toda vez que sai um ranking internacional que mede algum aspecto do desenvolvimento humano, o Brasil passa vergonha.

Ficou, desta vez, quase empatado com a Bósnia-Herzegovina. Ajuda-memória: a Bósnia-Herzegovina é aquele pedaço da antiga Iugoslávia que passou faz pouco menos de 20 anos por um genocídio --e nada é mais devastador para o desenvolvimento humano que uma guerra como aquela.

O Brasil, ao contrário, não tem uma guerra desse tipo desde a do Paraguai, no remoto século 19. Não obstante, empaca no desenvolvimento humano desde sempre.

O que torna ainda mais desagradável o resultado é o fato de que, nos 15 anos mais recentes, o país teve dois governos de eficiência acima do padrão usual e de proclamadas intenções sociais --algumas realizadas, outras nem tanto ou nada.

O Brasil de fato passou a ter, nos últimos anos, um peso internacional inédito na sua história, mas o IDH só dá total razão ao que escrevi domingo, para a Folha: "Nada de perder a perspectiva: os que fizeram a viagem [rumo à primeira classe] são poucos, pouquíssimos políticos, um bom número de diplomatas e funcionários públicos graduados, um número crescente mas ainda pequeno de empresários. É uma vanguarda que, se olhar para trás, verá que a grande massa ainda come poeira".

A ONU assinou embaixo. E de quebra desmontou a falácia dos BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) como as grandes potências de um futuro próximo. A Rússia ficou pouco acima do Brasil, no 71º lugar; a China, bem abaixo, no 92º. A Índia, então, é de terceira classe no capítulo desenvolvimento humano (134º posto).

Fonte: Folha Online