sábado, 27 de março de 2010

Cores de Almodóvar

Sofisticado e popular, Renato Russo canta sob a luz das cores de Frida Khalo, Almodóvar, e entoa desvarios que um livro de Henry James não narra; sob a prenda do amor melodias e notas que, como as de Pixinguinha, carinhosamente, afagam.

Cores de Almodóvar



Louco



Carinhosamente

quarta-feira, 24 de março de 2010

Quiprocós para relaxar

Divulgação

A "Santa Ceia"


Com alguns dias de atraso, registro as minhas considerações sobre o novo filme de Fatih Akin - Soul Kitchen - que estreou na última sexta-feira.

Digo "alguns dias de atraso" porque a impressão deixada pelo filme me deu vontade de escrever sobre ele logo que saí da sala. Me espantou um pouco, numa sexta-feira, dia de estreia, o Unibanco Arteplex Frei Caneca estar "vaziinho", com pouquinhas pessoas por lá, para assistir um filme que levou o prêmio do júri do Festival de Veneza de 2009, e foi um dos mais comentados e também considerado como um dos mais queridos da 33ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, quando então recebeu ótimas avaliações da crítica especializada e do público.

Primeiro, o filme tem o motivo da gastronomia de fundo, e Fatih Akin faz questão de trabalhar esse assunto de um modo não usual, com uma despretensão que o faz, de fato, não ser um filme sobre comida e, por isso, pela forma despojada com que trabalha o tema, desvia-o dos clichês e dos estereótipos em que filmes desta temática costumam derrapar e, algumas vezes, nos enjoar. Há ótimos filmes que têm a comida como motivo principal ou coadjuvante, dentre eles eu me recordo e destaco O Anjo Exterminador, A Festa de Babette, Estômago, Ratatouille, Sideways, Os Cinco Sentidos, Marvada Carne, e por aí vai...

Soul Kitchen não lembra nenhum deles, ou melhor: lembra todos, mas só no que há de realmente bom nestes filmes. Isso, todos. Um filme, seja ele bom ou ruim, ao se entrever na temática que apetece aos nossos estômagos, estereótipos e modelos costumam povoar o gênero, tais como paixões alucinadas por meio do garfo, casais românticos embriagados, viagens gastronômicas, cozinhas afrodisíacas, road movies pelas estradas dos bandejões etc.; mas a virtude de Soul Kitchen está na ausência desses, digamos, "estratagemas", porque Akin, diretor prestigiado e conhecido pelos seus excelentes dramas, também premiados (Contra a Parede - Urso de Ouro no Festival de Berlim, e Do Outro Lado - Melhor Roteiro no Festival de Cannes), não segue nada disso, melhor, nos faz rir e encará-lo sem seriedade, por isso qualquer apresentação que eu venha fazer não fará jus ao filme, porque ele é povoado por improbabilidades partindo-se de uma ideia simples e sem alardes.

Portanto, o filme é uma daquelas boas criações feitas para relaxar e descontrair com um universo de quiprocós sem fim, ou quase sem fim. Os quiprocós são a razão de ser de Soul Kitchen. E faço questão de não me ater a detalhes do enredo para que o interessado em assistir ao filme nos cinemas possa ter a espontaneidade de receber as situações vividas pelo protagonista Zinos (vivido por Adam Boudouskos, que com Akin também assina o roteiro), dono de um restaurante em Hamburgo, Alemanha, da forma mais natural possível. O restaurante, de início, é quase um botecão onde, de início, o grande prato da casa é Hambúrguer com Fritas. Que diferente, e original, não? Bem, diferente fica a coisa quando o irmão de Zinos, vivido pelo excelente Moritz Bleibtreu, sai da cadeia em regime condicional.

Além do clima relax e de momentos recheados de boas estupidezes, os trunfos do filme são outros dois, que digo ser fundamentais: o elenco e a trilha sonora. Além de Bleibtreu, - um dos melhores atores alemães da atualidade - e Boudouskos - que para mim foi uma grata surpresa - está no elenco Birol Ünel, (excelente!) e Demir Gökgöl (cômico) - ambos estrelaram Contra a Parede - e outros que compõem a salada greco-turco-alemã que é o filme.

A música é o que amarra todas essas coisas, dando um tempero a toda a mistura. A seleção das canções é ótima e dispensa comentários, pois agrega música grega (juro que a rima não foi proposital) a muito bons embalos de soul e funk (é prudente lembrar que o funk aqui não é o carioca, certo?, mas o bom e autêntico som propagado por James Brown). Para quem já assistiu algum filme do diretor Fatih Akin, sabe que a trilha sonora é algo com que ele trabalha com muita acuidade, porque, de algum modo, a trilha sonora, pela intensidade e presença em seus filmes, é um dos principais personagens e fatores para ditar a força dos temas e dos personagens; e ainda funciona quase como um narrador da história, com uma carga de emoção que só é possível corresponder por meio da música.

Com tudo isso, pude perceber, sob o ponto de vista do diretor, que Soul Kitchen não é só um passo diferente de um diretor conhecido pelos seus dramas, mas também funciona como um "muito obrigado!" de Fatih Akin à sua cidade natal, Hamburgo. Durante o filme, pode-se verificar que, vez ou outra, o diretor mostra lugares que são os símbolos da cidade alemã que acolheu os pais vindos da Turquia, onde Akin passou a infância e aprendeu os ensinamentos da vida, tendo que enfrentar problemas que hoje são seus maiores legados - as identidades turca e alemã.

Fatih Akin é alemão de nascimento; e turco de coração, e não à toa, que o restaurante do protagonista, que nomea o filme, tem soul (alma) no nome. Por meio dele, do restaurante de Zinos, Akin quer nos mostrar que todos nós somos providos de uma essência, e essa essência reside em nossas paixões ou em nossas vocações, como será bem percebido no desenvolvimento do filme: a cozinha, como todas as outras coisas, precisa ter uma "alma", uma essência para funcionar.

A estrofe abaixo é de uma canção dos Doors, homônima ao filme (ou será o filme homônimo à música?):

Let me sleep all night
In your soul kitchen,
Warm my mind
Near your gentle stove.

Turn me out and I'll wander, baby,

Stumblin' in the neon groves.


Em tradução livre, é:

Deixe-me dormir a noite inteira
Na cozinha de sua alma,
Aquecer minha mente.
Em seu doce fogão.
Ponha-me pra fora e ficarei vagando, baby,
Cambaleando pelos bosques de neon.


Esses versos talvez expliquem alguma coisa do que foi dito, ou nada. As durezas, dificuldades e comicidades do filme podem ser resumidas no ato em que a agulha toca os sulcos do vinil e dá som à comida, à arte gourmet; comida é o combustível do corpo, tal como o coração dá energia a alma.

Soul Kitchen não tem a pretensão de explicar algo que tantos já tentaram - artistas, psicólogos etc. -, mas não conseguiram ainda uma definição aproximada do que é "alma". E é justamente por não pretender que o filme é bom. E vale esperar até o fim dos créditos.

domingo, 14 de março de 2010

Novas

O ano não começou. A sintonia capturada pelas antenas de minha percepção diz que o ano-novo é muito velho, passado, tal qual um senhor já de idade avançada, e que mal apara a barba que alcança o peito. Esse velho senhor tem algo a me ensinar? Esse jovem já velho pode me dizer novas, e falar sobre livros velhos e filmes antigos e histórias caducas, esperados também por uma plateia sedenta por novidades?
Mas como tudo isso pode acontecer se as novidades calham de ser as velhas coisas conhecidas, as mesmas que passaram em algum momento por mim, e não as percebi - estava então distraído - que eram coisas novas que se tornariam velhas, mas com um jeito velho demais para serem coisas novas?
"O que esperar das coisas novas já envelhecidas e das velhas ainda novas?", pergunto, quase como um sussurro, ao senhor-quase-jovem. Esse senhor, que não é bem um senhor, mas tem cara de senhor, embora seja ainda um jovem de idade avançada, dá um sorrisinho sorrateiro, coça o queixo enroscando os dedos nos fios da barba espessa e suspira, "Bem, menino, espere tudo, inclusive o que não é esperado", e silencia por uns instantes, e imagino que sua fala, quase gutural, termina ali, quando é chegada a hora de ele seguir um novo rumo, só para não ter que responder questões enfadonhas como a minha, principalmente para um jovem-senhor que é um senhor-jovem, mas ele prossegue com aquela voz cavernosa, "Mas tudo com uma dose de paixão; assim, aí, nenhuma espera, por mais longa que possa ser, será em vão."
Penso um pouco. Tento entender a mensagem daquele menino com cara de velho. "Esperar o não esperado"? Como assim? Confesso que fiquei intrigado, aborrecido, pois eu esperava do senhor-menino alguma resposta que pudesse me ajudar a desemaranhar as linhas do meu pensamento, que anda muito confuso com o passar do tempo, com o passar da minha juventude que vai envelhecendo enquanto minha velhice rejuvenesce; mas o senhor-jovem me deixou sem entender patavinas, fiquei mais lelé.
"O tempo é senhor", é o que ouço. "O tempo segue", é o que sinto. Nada li, nada vi, apenas apreendi pelo espírito, por tudo que aquele senhorzinho-menino me ensinou. E continua. "Ele é voraz." O tempo é o tempo, e é a imensidão que a vida acolhe, sem indagações. A partir disso, posso entender tudo, ainda que não venha a aprender nada.




Sigur Rós - Hoppípolla

Acesse o link a seguir, para assistir ao vídeo em uma melhor resolução:

http://www.youtube.com/watch?v=4L_DQKCDgeM

terça-feira, 2 de março de 2010

O camisa 10 da Gávea




Estou no solo onde o esporte bretão se desenvolveu como em nenhum outro. As minhas cores são três - vermelho, preto e branco. No entanto, não é de Friedenreich, Leônidas (O Diamante Negro), Dario Pereira de que venho falar. Nenhum daqui das cercanias paulistas. Mas lá da Gávea, em terras fluminenses. De um Galinho de Quintino que se tornou o maior ídolo da apaixonada torcida do Flamengo. Quem gosta de cinema e futebol se embebeda assistindo ao Canal 100, onde um rapaz franzino desfilou um modo de jogo ímpar na futebolização do Brasil, na futebolização de todos os futebóis. Uma cornucópia que enchiam olhos, bolas, gramados e estádios. Ângulos até então ainda não explorados pelas transmissões comuns de televisão juntavam algo como um "balé futebolístico" apresentado nas suas nuances, detalhes aliados a uma narração dramática, romântica. Assim era o futebol que eu não vi e de que sei apenas através dos documentos midiáticos, arquivos e as imagens antes quase inacessíveis que a web nos regala. E o "Galinho" tem agora uma estátua no Maraca, um voleio reproduzindo as lembranças de suas peripécias no gramados.

E Jorge e Zico, o que dá? Jorge, a poética do canal 100 e Zico canalizam o enredo de uma herança de uma melancolia herdada dos lusitanos, nostalgia que nos dirá que o passado sempre será melhor que o futuro. E vemos "o jogo". Vencemos "o jogo"?

Às imagens não há expiação; ao jogo ainda menos, e o que não transcende perece no mero documental. Os milhares de indivíduos aplaudem: não se rendem, ainda que seja a rede de sua agremiação a estufada.

***

É falta na área. Adivinha quem vai bater?

sábado, 27 de fevereiro de 2010

I am the walrus

Eu não sou uma morsa, mas, muitas vezes, sou um pouco confuso, tal como a dupla Lennon-McCartney em suas letras, só que a minha confusão não tem tanto talento assim.

Estava lendo roteiros e documentos de cinema, quando olhei para minha estante e, do nada, parei a pensar, e me chamou a atenção - entre os tantos livros de cinema ali - um branco, grande, destoando dos demais, o The Complete Beatles Recording Sessions (The Official Story of the Abbey Road years 1967-1970), de Mark Lewisohn. Peguei a ler e o abro, involuntariamente, nas páginas 122 e 123, onde há as informações do início das gravações do "Magical Mistery Tour", em 1967.

Ao ler esta parte do livro, recordei e aprendi: o ano de 1967 é marcado por ser o ano de lançamento do considerado melhor disco dos Beatles, o "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band", e também pela morte do mentor intelectual e comercial do grupo, Brian Epstein, que ocorreu em 27 de agosto daquele ano; e o grupo começaria as gravações do álbum "Magical Mistery Tour", a trilha sonora do filme, especialmente, a canção "I am the walrus", em 5 de setembro de 1967, data em que o glorioso Gentil Batista Maia completava 53 anos. Faltavam ainda doze anos e 3 dias para que eu viesse ao mundo.

1967 leva-me a um passado remoto, de lembranças confusas, mas bonitas em sua maioria. Me lembro das roupas de Paul, John, George e Ringo, na West Malling, como se lá tivesse estado. Mesmo sem ter nascido eu já carregava lembranças.


The Beatles - I am the walrus

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Wilson Martins

Este blogue não pretende transformar-se num obituário, não mesmo. Mas, assim como lembrou da despedida desse plano por parte de Salinger há algumas semanas, não há como não falar de outra pessoa que contribuiu para que a literatura não fosse uma coisa chata, como tantas que há no mundo.

Me refefiro a Wilson Martins, pois é difícil que nenhum estudante de literatura ou apaixonado por esta arte aqui no Brasil - e em diversos lugares do mundo - não tenha ouvido falar dele. E seria se o lessem, se não é pedir demais. Mas eu acho que é pedir demais. Não costumo e não gosto de ater-me a superlativismos, mas Wilson Martins é, sem sombra de dúvidas, o maior crítico literário que este país já produziu. E olha que, embora nosso país ainda não tenha cultura de produzir formadores de opinião em grande escala, aqui nasceram Antonio Candido, Ivan Junqueira, Afrânio Coutinho, Antonio Carlos Secchin, João Adolfo Hansen, Raimundo Carrero, Silvio Romero, Alfredo Bosi, Gilda de Mello e Souza, Roberto Schwarz e muitos outros.

Wilson Martins deixa uma obra vasta, para os futuros escritores e pensadores de nosso país, o que esperamos que sejam muitos. Em sua última fase como professor, lecionava literatura brasileira na Universidade de Nova Iorque. Autor da grandiosa História da Inteligência Brasileira, obra com a qual ainda não tive contato. Mas foi por outra obra de Martins que aos poucos descobri a relevância de seu trabalho e o seu papel: Crítica Literária no Brasil. Considero o seu trabalho heroico, porque ser professor, não guardar o conhecimento adquirido para si e ser portador do conhecimento que tinha num país como o Brasil, considero que indivíduos como ele possam ser chamadas de heróis. E como o bom brasileiro que escolhe esse caminho, tinha pouco espaço por aqui, pouca visibilidade, ainda que o seu trabalho fosse tão grande e de muitos resultados, coisa que não se vê de alguns que se intitulam intelectuais e recebem todos os espaços possíveis nos meios midiáticos nacionais.

Martins rolou a bola para que outros a chutassem; e nós, jovens ou não, testemunhamos dias em que a cultura brasileira, em especial a literária, precisa ser melhor trabalhada junto aos jovens e adultos para que, através dela, estabeleça senso de crítica e de afirmação. A arte literária é, antes que só a dualidade ficção/realidade que se transporta ao papel, é o uso que se faz dela; portanto, é instrumento de libertação. Estou aprendendo ainda, e tenho tanto por ler, por ver, por testemunhar nesta arte que Wilson Martins, como poucos no Brasil, deu forma e transformou.

A literatura é caracterizada no trabalho de Martins com uma das ferramentas que nos auxilia no entendimento de nossa época. O nosso próprio entendimento.

Faz falta.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Ele, o amor

"(...) amor, me dizem, é algo tão medieval, antiquado, velho, sem cor, desbotado pelo tempo".

Volto alguns posts para encontrar a frase que deixei registrada em 21 de dezembro do ano passado, há exatos dois meses. Me parece que todas as coisas são, de alguma maneira, regidas pela égide do amor; o homem em seu íntimo tende a refletir os seus passos, a sua história com um lirismo que tem como alicerce o que denominamos por "sentimento puro". Até mesmo histórias e eventos que nada pareçam relacionar-se com o que julgamos ser o mais nobre dos sentimentos.

Em meio às selvagerias sociais e outros desequilíbrios provocado pelo homem - e não é de hoje - procuramos, por meio da fina sintonia que o pensamento ocidental dá ao significado de amor, algo que nos dê a redenção, e tal redenção se apresenta, muitas vezes, como aquele pote de ouro que dizem que há numa das pontas do arco-íris: na causuística de um destino infinito ou inexistente.

Com ou sem amor, estamos longe do que qualificamos de pureza. A pureza é um estrato inatingível, inexistente principalmente na qualificação mais simples - e não simplória - dos verbos "gostar", "amar", "apaixonar", todos sintagmas verbais que pedem um grau de impureza para que possam funcionar.

Caro leitor - adoto uma metalinguagem pueril, mas honesta -, o começo do texto serviria para a introdução de uma história de amor que é uma das mais belas do cinema, realizada por um dos melhores e mais controversos diretores franceses: Claude Lelouch.

Lelouch não é o queridinho da crítica cinematográfica internacional (eu não sou crítico, sou amante do cinema, portanto dane-se a crítica), e muitos compram a ideia feroz do que um grupo ou um segmento de pessoas diz, acatando como a maior das verdades, como a vertente de que as temáticas dos filmes de Claude Lelouch são estritamente superficiais, fincando-se com primazia nos alicerces que viabilizem, basicamente, o sucesso comercial de seus filmes.

Eu gostaria de poder falar de todos os filmes de Lelouch que até o momento pude assistir (que foram poucos) mas prefiro ater-me, indicar-lhe que assista, por razões lógicas, a um de seus filmes: Um homem, uma mulher.


Um homem, uma mulher - Claude Lelouch

A razão disso é que nesta semana assisti ao filme O segredo dos seus olhos, filme que concorre ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Trata-se de uma produção argentina, cujo diretor é um dos maiores expoentes do que se produz de película na região do prata: Juan José Campanella. A cena da estação de trem desse lembra muito a daquele filme.

Campanella e Lelouche, mesmo com um jeito enviesado de compor uma história, ambos, em seus filmes, se estabelecem na premissa do amor, sendo que o filme de Campanella ainda recebe uma aura detetivesca, policial, que em muitas vezes nos faz perder o fôlego, como no espetacular plano-sequência de uma perseguição num estádio de futebol. O papel de Ricardo Darín (como Benjamín Espósito), um dos grandes atores argentinos (e é quem dá o tom do filme) lembra o Sam Spade de Dashiell Hammet, de o Falcão Maltês, mas mais burocrático, apaixonado e saudosista. A diferença maior é que Espósito é um mero contabilista, que em todo o filme tenta recontar a sua história, por meio de memórias e de de um romance que há muito tenta concluir. Como se tudo isso pudesse resgatar o tempo que passou e o amor contido por sua chefe, a belíssima Irene (Soledad Villamil), pudesse então ser resolvidos (ou dissolvidos).

Com fino humor, o filme se desenvolve através de flashbacks para contar a história de amor de Espósito por Irene; e o filme não se perde, o que faz com que o espectador fique atento ao desenrolar do que é contado, e nada é óbvio, evidente, e devido à sua objetividade não tarda a atingir o espectador em cheio. Enfim, é um filme que não causa bocejos.

Este era pra ser apenas um "relembramento", e acho que estendeu-se até demais. Mas Lelouche e Campanella precisam ser vistos, porque o amor ali é tão comum, tão cotidiano, que nem parece obra de ficção, parecem histórias que, de alguma maneira, vivemos e testemunhamos com os olhos longe da tela, e sem as mesmices e clichês tão normais dos filmes que querem falar de amor, de paixão. Nos filmes, há muito mais do que um sentimento, mas um misto de alegrias e frustrações, nos quais nos identificamos em meio a risos e perplexidades de histórias que falam de corações apaixonados. E paixão pode até parecer demodé, mas nunca sai de moda.



O segredo dos seus olhos - Juan José Campanella

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

J.D. Salinger

Hoje, o mundo despede-se de um indivíduo recluso, avesso a todos aqueles que buscam saber mais sobre o que o faz ser quem ele é: o que ele escreveu.

Mas Holden Caulfield continua. Atormentado, ainda aguardando uma resposta sobre as coisas mais elementares da vida - mal ele sabe que a resposta é a própria vida. E é vida, no âmbito material, que Jerome David Salinger agora não é, mas, mais do que nunca, é pura literatura, ainda que esta confunda-se com a vida de maneira a deixar-nos confusos e não saber o que é uma e o que é outra.

No seu rancho, do seu rancho, por seu rancho Salinger nos apresentou a perturbância de Holden Caulfield, e como essa não cessaria, a não ser com a abstinência do que citei: vida.

Como diz Otto Maria Carpeaux, "as obras de vanguarda apenas são lidas pela vanguarda". Pois Apanhador no Campo de Centeio (Catcher in the Rye) começou assim, com uma tiragem limitadíssima antes de ser descoberta - tal qual outras da literatura norte-americana e mundial - como uma joia. Agora, o campo de centeio espraia-se para o vasto espaço em corações que ainda tentam suprir uma carência que eles mesmos ainda não sabem qual é.

No meu modesto conceito, o Apanhador é muito menos do que dizem e muito maior do que propriamente é. Um "romance da inocência", parafraseando novamente Carpeaux.

Sigo o curso das páginas, de uma ou outra linha, e mais páginas, pontos e exclamações, até que vem aquela interrogação. O que tantos estes caracteres tem a ver comigo? Na real, nada. É que me caracterizo, de literatura em literatura, de rua em rua, para aprender um pouquinho mais daquilo que preciso.

Salinger se foi, como Hesse também. Mas basta esticar o braço até a estante para alcançar as metáforas de Emil Sinclair e de Holden Caulfield, ou se perder para a morte na casuística sonífera vida de um contador de estórias.

Antes de agradecer a Salinger e Hesse, agradeço às palavras, estas as pontes, fios interconectores de uma verdade de um presente contínuo.

O melhor Salinger não estava nem em Caulfield, mas nas pequenas estórias.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Mudanças

Apesar deste blogue ser algo muito pessoal, não participar de qualquer meio de divulgação, me impressiona que em menos de 1 ano tenha recebido mais de 4.000 cliques.

Mas a pessoabilidade deste meio passará por mudanças, e é também por isso que as postagens têm rareado por aqui.

Em breve volto para as novas, e com frequência já não rara.

Marcelo

3650 dias

Há 3650 dias eu ouvia essa música pela primeira vez.

Eu era um garoto bem menino. Crescendo, desaprendendo, desafinando, sorrindo, indo... Para onde não sei. Ainda não sei. É tudo o que procuro saber, com música ou quieto, provando um silêncio debaixo do travesseiro.

Com 20 você não pensa jamais chegar aos 30, ainda que diga: "Quando eu for gente grande, serei...". Mas essa "gente" aqui não cresce nunca. Não cresce mesmo. Espera um bocado de tempo para perceber que ainda é moleque. Homem? Que nada! Imaturo, fraco, tímido... As mesmas coisas de quando criança, a diferença é de que hoje os tempos estão modernos, os modernos não têm tempo, e o tempo já não consegue se ver se colocado na palma da mão - vivo um período diferente, mas parecido com o tempo que já passou.