segunda-feira, 12 de julho de 2010

A vitória

A Espanha fez um bom mundial e merecidamente levou a Copa. Simples. Não é a máquina de futebol que todos agora dizem que é. Como é a campeã, virou moda dizer que a Espanha é a máxima expressão do futebol. Menos.

A "Fúria" é a melhor seleção de futebol dos últimos três anos, e isso é incontestável. Jogou menos do que podia na Copa, mas o suficiente para conquistá-la. É um selecionado competitivo, ofensivo, de bom toque de bola. E só. Os ibéricos não reinventaram o futebol, mas espelharam-se no que de melhor já foi produzido nele: a Hungria, de 1954; o Brasil, de 1970; a Holanda, de 1974... Mas ainda está bem longe destes esquadrões.

O bom de a Espanha ter vencido é que retoma-se com a sua vitória algo que ficou exemplarmente nítido principalmente a partir de 1954, com a Hungria do inominável Puskás. O futebol ofensivo e bonito pode ser vitorioso, ainda que a Hungria não tenha vencido aquela Copa. Pela tristeza do Brasil e pela alegria do futebol, o Brasil não venceu. Ainda bem.

Mediocridades a parte, a Espanha teve o equilíbrio necessário para tornar-se a legítima campeã, pelo fair play, pelo futebol. Quem gosta de futebol, já se cansou do jogo "de contra-ataque", dos volantes brucutus, das estratégias monocórdicas de se chegar ao gol: em vez de jogar no erro do adversário, desenhar os caminhos do acerto.

A vitória ou a derrota são os resultados do esporte. Ainda que se jogue lindamente e limpamente, a vitória poderá não vir. Vencer é ótimo, mas a proposta de como buscar os louros vale até mais do que a própria vitória. E as propostas corajosas ficam para a eternidade. A seleção de 82 ainda é mais lembrada que a de 94, ainda que a segunda seja a campeã; a maratonista Gabriela Andersen-Scheiss é mais lembrada que a vencedora, Joan Benoit, da maratona das Olimpíadas de Los Angeles, em 1984.

Corajosos, vitoriosos ou não, serão sempre dignos de mérito.


***

Mesmo sem nunca ter vencido uma Copa, as intenções dele o tornaram um dos maiores: Ferénc Puskás.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Um planeta tão pequeno

Certas vezes uma professora acadêmica uruguaia, em algumas de nossas conversas, fazia questão de "linchar" o seu compatriota Mario Benedetti, escritor que admiro muito. Benedetti faleceu em 2009. Mas antes mesmo de partir, romances e contos do uruguaio me fizeram rir e, por ventura, me fizeram verter lágrima, mesmo em dia feliz. Eu fazia questão de deixar claro para a professora que eu gostava do Benedetti, mas ela ressaltava que o escritor, em Montevidéu e em todo o Uruguai, era visto como um daqueles meros figurantes da cena literária uruguaia, vá lá da América Latina. Para mim isso nunca foi importante. Benedetti é grande, tal como Onetti, outro grande escritor na literatura uruguaia.

Ressaltava os dotes de Juan Carlos Onetti, escritor que Copacabana e eu conhecemos muito bem. E eu comigo: por que para ela Onetti sim e Benedetti não?

Dois fabulosos, dois grandes, únicos.

Pois é. Por que eu digo tudo isso? Não é por Onetti, nem por Benedetti. É por outro. É por Saramago. Na verdade, este texto não sairia agora, ou talvez nunca. Pois não quero fazer aqui algo que já ocorre mundo afora, falar de alguém só porque esse alguém morreu. Mas Saramago não é alguém. É que a morte de Saramago me lembra um pouco a morte de Benedetti. É lógico que Saramago, por ser um escritor agraciado com um Nobel e ser um escritor de nossa língua portuguesa tenha sua morte mais repercurtida nos jornais. Não é pelo Nobel, mas porque Saramago era quem era.

Em maio de 2009, com a morte de Benedetti, Saramago disse:

O planeta se tornou pequeno para abrigar a emoção das pessoas.

A poesia de Benedetti é um alento em dias difíceis, como a prosa de Saramago é um contínuo redescobrimento de uma língua e do jeito de pensar essa língua.

Os reacionários normalmente têm aversão às letras de Benedetti e Saramago, será porque os dois eram de convicções políticas de esquerda? O segundo mais radical que o primeiro. Mas as convicções políticas agora não são importantes. Importa saber que temos um material riquíssimo quando temos o livro de um ou de outro em mãos. É uma ferramenta e tanto para ajudar a fazer com o que o mundo possa abarcar melhor as emoções.

Lendo ambos, apreendi a consciência de sermos contistuídos de uma matéria infinitamente finita, tal constatação de Saramago me acorda de um sono difícil. Mas as palavras leves de Benedetti em meio a tormentas fazem com que a minha cabeça retorne ao repouso.

É mesmo: mais do que nunca, o mundo tornou-se ainda mais pequeno. Incontestável.

Benedetti era gigante e Saramago assim também achava. Quem sou eu para discordar do português? Fico com os dois.

domingo, 6 de junho de 2010

Os finais

O final de um filme é como o recomeço da vida. Nos desligamos da tela e voltamos a prestar atenção nas luzes, nas pessoas, no amigo, no amor que está ao lado. Alguém que dividiu uma alienação para uma outra vida que se passava na tela; uma vida em que as coisas são mais fáceis ou mais difíceis - conforme os roteiros e personagens - que a nossa.

Para que saiamos da sala de cinema com um ar de satisfação, com um sentimento de que aquela hora, uma hora e meia, duas horas, três que sejam, é preciso que o fim do filme seja bom, não necessariamente feliz, mas bom no sentido de "bem realizado", de "emblemático".

Há finais felizes que são uma tragédia, há finais tristes que são soberbos. O final de um filme tem que funcionar tal como uma aula para o que chamamos de vida real. Se aprendemos ou desaprendemos com esta arte é relativo, mas dali pode incorrer sonhos, desatinos, tristezas, alegrias, humores, amores, fome, cansaço e um rol quase infinito de sensações e sentimentos. Seja qual for o que lhe cause, a cena final de um filme deve despertar pensamentos ricos, saudáveis, inteligentes. É lógico que não só o fim do filme, mas todo ele deve ser assim.

É importante não confundir bons finais com finais complexos, porque alguns acreditam que um bom final de filme são aqueles em que o roteirista e o diretor trabalham para que o final seja quase como uma "teoria inversa às leis surrealistas sob a ótica romântica da relatividade". Esqueçam essa teoria que eu acabei de inventar, um final é sublime quando calcado na simplicidade, não quando "simplista"; quando faz-nos refletir sobre a mensagem, não quando pretende relativizar sobre o mundo e sobre todas as coisas que há nele.

É difícil falar e lembrar de finais de filmes marcantes. Foram tantos desde a infância, mas eu posso dizer que há alguns que me marcaram, como o de "Rainha Cristina", com Greta Garbo; o de "Paisá", de Rossellini; de "Os Incompreendidos", de Truffaut; o de "Nove Rainhas", de Fabián Belinsky; de "A Malvada", com Bette Davis; "Noites de Cabíria", do Fellini, enfim, tantos outros, que não vou conseguir lembrar de todos agora.

Mas há um final que é extremamente marcante para mim, como o de tantos outros, mas de uma maneira estranha, peculiar, única. Neste final não há diálogos, há um gesto (que eu não vou falar qual é) de extrema força, ainda que simples. O filme é "A Aventura", de Antonioni. O filme em si já é perturbador, um filme "anticlímax", por esta razão o clímax do filme será esperado pelo espectador até o fim, o "grand finale". Quem já assistiu ao filme, sabe do que estou falando, e quem não assistiu entenderá quando assisti-lo.

O filme de Antonioni é só um exemplo entre tantos que eu poderia utilizar; a força de "A Aventura" é muito mais do que poderia supor quando o vi pela primeira vez, por esta razão utilizo-o como exemplo. Mas finais de filmes podem ser marcantes, podem ser chatos, pois são tantos os filmes que lembramos por ter sido bons, mas com finais chatos, e dos tão ruins com os seus finais tão bons (isso quando há paciência de se esperar o fim de um filme ruim). Em mais de um século, já se fez tanto no cinema; tantos créditos, atores, personagens, vidas, espectadores marcaram ou foram marcados, com os filmes de seus intangíveis finais. É muito coisa para um texto pequeno num blog perdido no Cone Sul.

Algo parecido acontece com os romances; no entanto não concluimos a leitura de um romance em 90 minutos. Por esta razão, por questões de tempo e paciência, é muito mais fácil terminamos um filme ruim, do que um livro ruim.

Bem, independentemente do final desse ou daquele filme, o legal é que, de alguma maneira, os destinos de personagens, a conclusão dramática, o diálogo final de um filme, de uma peça, de um livro, sejam sempre enriquecedores, no que se refere à vida que levamos fora da representação: a vida de obrigações, de problemas, das contas a vencer etc. Se o final de um filme não é feliz, não é o mais importante; importa sim que o final de um filme seja um pequenino recomeço, ainda que em um milésimo de nossa constituição, para a vida que retornamos quando são acesas as luzes do cinema.

A vida segue e outras nos esperam nas próximas sessões.

sábado, 5 de junho de 2010

1970

Eu viria em uma encomenda 9 anos depois, embalado pela Lei 6.683, a da Anistia, promulgada 11 dias antes de eu nascer. A ditadura perdia forças, mas ainda ecoava em todos os setores da sociedade brasileira. E quando se fala em ditadura, não há como ignorar o ato mais repressor desse período - o AI-5, que cerceou todo e qualquer resquício que ainda houvesse de liberdade e de direito de opinião. O Ato Institucional n° 5 foi decretado 11 anos antes da encomenda de meus pais que viria a ser eu; e um ano antes daquilo que costumamos hoje qualificar (e ganha força em época de Copa do Mundo) como o mais representativo "futebol arte": o escrete canarinho que viria a encantar o planeta com "manobras" realizadas com os pés.

Pois é, e quando se fala daquela seleção brasileira de futebol, é impossível indissociá-la dos tempos sombrios por que o país passava, vivia. Mas para os ultrajantes governantes deste continente "Brasil", a esquadra futebolística brasileira era a sua melhor propaganda, o seu maior símbolo - o de um Brasil vitorioso, progressista, combativo, guerreiro, forte e bonito.

Sabe-se que o povo brasileiro, a começar pelos nossos ancestrais colonizados pelos europeus, é tudo isso e mais um pouco, mas a propaganda - meio de comunicação aprimorado pelos nazistas, era agora uma arma ou uma aliada para usá-la junto à massa pelos governos populistas, para justificar tamanha reprimenda e limitação, e assim no Chile de Pinochet; no Paraguai de Stroessner; na Argentina de Videla; na Cuba de Batista; no Uruguai de Bordaberry; e no Brasil de Médici, apenas para ficar nas Américas.

Política e tirania à parte, quando nos deparamos com as pessoas, grupos, que faziam da arte e do esporte algo muito maior que não se restringe aos seus respectivos campos artísticos e esportivos, observamos que o panis et circenses infringe a sua própria razão e existência, desde a Antiga Roma.

Muitos indivíduos tiveram sua individualidade e vida corrompidos, num tempo em que era comum ouvir Beatles no rádio, ou no long play, porque eles não eram a história que fizeram, eles eram a história que faziam. Elvis, Warhol, Hitchcock, Morrisson, Kerouac, Pelé, Bardot; Woodstock, Nouvelle Vague e tantos outros marcos que compunham aquela era, que poderia ser a minha, mas os meus pais eram ainda muito jovens e não se conheciam.

Personalidades e fatos que hoje estão nas milhões de memórias que os presenciaram, e no video tape. Mas o video tape só reproduz as imagens, enquanto as pessoas ensinam o quão foi bom viver aquilo.

Tudo grande, majestoso, como se todos, apesar das limitações impostas pelos generais, entendiam cada segundo como a grandeza suficiente para uma coisa maior - "a celebração" -, como se um breve momento, rápido e fustigado que fosse, já brindaria à vida, que não se sabia até onde poderia durar. Ou até onde poderia haver encanto, e por isso encantaram.

Até os dias de hoje, nada disso pereceu.


Não é preciso gostar de futebol para gostar de ver "o jogo".

sábado, 15 de maio de 2010

Tarde de Maio

Me pergunto sobre tudo, sobre o mundo, sobre as coisas e pessoas que me cercam. Há algo de não finito e de tão bom em tudo, que não me faz ter a ideia de que sou perecível. Tenho um prazo de validade. Vou até um instante. Depois, haverá outros instantes que não serão válidos para mim; que já não serão demais para mim. Eu serei uma memória, ou duas memórias, ou infinitas memórias - todas alimentadas com o instante que estive aqui neste plano sublime, ordinário e maravilhoso.

Se tudo é então finitude, que eu me acabe de uma vez, transformando-me em coisas de bem, como em palavra ou em espelho de uma canção.

E como nada é tão estupendo que possa viver para sempre, é tão inalcançável como beijar a própria nuca, entendo que eu sou mais um que lê, e relativiza leituras, de contos, novelas e poesias. Em um minuto para sempre, nesta tarde de maio.

Marcelo

***


Tarde de maio


Como esses primitivos que carregam por toda parte o maxilar inferior de seus mortos
assim te levo comigo, tarde de maio,
quando, ao rubor dos incêndios que consumiam a terra,
outra chama, não perceptível, e tão mais devastadora,
surdamente lavrava sob meus traços cômicos,
e uma a uma, disjecta membra, deixava ainda palpitantes
e condenadas, no solo ardente, porções de minh´alma
nunca antes nem nunca mais aferidas em sua nobreza
sem fruto.

Mas os primitivos imploram à relíquia saúde e chuva,
colheita, fim do inimigo, não sei que portentos.
Eu nada peço a ti, tarde de maio,
senão que continues, no tempo e fora dele, irreversível,
sinal de derrota que se vai consumindo a ponto de
converter-se em sinal de beleza no rosto de alguém
que, precisamente, volve o rosto, e passa...
Outono é a estação em que ocorrem tais crises,
e em maio, tantas vezes, morremos.

Para renascer, eu sei, numa fictícia primavera,
já então espectrais sob o aveludado da casca,
trazendo na sombra a aderência de resinas fúnebres
com que nos ungiram, e nas vestes a poeira do carro
fúnebre, tarde de maio, em que desaparecemos,
sem que ninguém, o amor inclusive, pusesse reparo.
E os que o vissem não saberiam dizer: se era um préstito
lutuoso, arrastado, poeirento, ou um desfile carnavalesco.
Nunca houve testemunha.

Não há nunca testemunhas. Há desatentos. Curiosos, muitos.
Quem reconhece o drama, quando se precipita, sem máscara?
Se morro de amor, todos o ignoram
e negam. O próprio amor se desconhece e maltrata.
O próprio amor se esconde, ao jeito dos bichos caçados;
não está certo de ser amor, há tanto lavou a memória
das impurezas de barro e folha em que repousava. E resta,
perdida no ar, por que melhor se conserve,
uma particular tristeza, a imprimir seu selo nas nuvens.

Carlos Drummond de Andrade

("Tarde de Maio" encontra-se na segunda parte (Notícias Amorosas) de Claro Enigma, de 1951)

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Arranjos de Ismael

Uma noite que se estendeu além das horas que cabiam ao sono, que o corpo de Ismael devia à sua mente. Sábado de Aleluia, ou Sábado Santo, precisa se aprontar para a Ressurreição, não à Insurgência dos que não têm fé. Ele tem fé. Tem a tarefa de desarmar um pelotão e outros homens que não acreditam nele e no que pode e no que já elaborou, já fez.
Alguma incoerência, meus senhores? Eu não sei. E não partilho nada demais de Ismael porque temo, desconfio, não sei o que pode me acontecer se cada vez mais externar as coisas, os casos, os acontecimentos, e a ausência de tantas outras que compõem este indivíduo.
Mas é Sábado Santo, ensaio minha Vigília Pascal, que não é senão a de mim mesmo.
Ismael em prece: O Senhor está no meio de nós!
E o seu Senhor é o avante não mais forte do que o seu coração, guiamento da voz seca encrostada na garganta, que pede uma amizade, uma bondade e o entendimento do amor.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Songs for Lulu

Rufus Wainwright (fonte: site oficial)

Rufus Wainwright, além de grande cantor, é compositor sensível, sem pieguices ou melações que são encontradas por aí como as que vemos sendo vendidas em hortifrutigranjeiros ou em grandes supermercados, na gôndola que deveria ser a de mel e açucarados em geral. Talvez, por isso, Rufus seja um dos artistas mais procurados para elencar trilhas sonoras de filmes e seriados, pelos estadunidenses e pelos europeus, mesmo sem que o cantor faça parte do grande stablishment da música, ou seja, do mercado e da feira das vaidades que norteiam este meio e tantos outros de nossa vida "contemporaneazinha".

Se atento, pode-se encontrar referências diversas nas letras de Rufus, especialmente de literatura e de cinema. Tais referências, nunca são gratuitas ou sem algum significado e, muitas vezes, servem para explicar um episódio de sua vida, em outras servem para filtrar a sua dor ou dividir a sua alegria, enfim, trabalhar a dualidade de ser artista e de ser um indivíduo que diariamente tenta aprender a lidar com as suas questões essenciais, a eterna conjunção entre dor e arte: a segunda tentando explicar a primeira ou a primeira tentando justificar a segunda. Não que para se fazer arte necessariamente é preciso que haja dor, mas a associação destas, até nos temas alegres e pastoris, em muitos casos, é irrefutável.

Bem, tudo isso só pra dizer que o cantor acaba de lançar um novo álbum: All Days Are Nights: Songs for Lulu. Um álbum mais intimista que os demais, composto de uma beleza um pouco triste, mas não ruim, porque, ainda que a felicidade seja preconizada por nós, indivíduos "modernos", em algum momento de nossa formação a tristeza nos faz bem. O que não é bom é quando este sentimento tende a perdurar mais que uma estação e então abre um vazio que "cutuca" as questões existenciais que abrem espaço para outras questões, as do valor de "se viver", de "viver-se". O álbum de Rufus é bonito, não é triste, pra ficar no "mais do mesmo".

A leveza dos álbuns anteriores aqui dá lugar a uma seriedade e introspecção não vista no trabalho de Rufus Wainwright até então. O cantor perdeu a sua mãe em janeiro, a cantora Kate McGarrigle. E essa perda implica renovação ou estabelecimento de conceitos antigos deixados de lado por desconhecidas e inúmeras razões, mas Rufus estabelece um marco na sua carreira e na sua vida, porque as coisas seguem, apesar das tristezas e dores fazer-nos entender que seria preciso parar o mundo por alguns instantes. Pelo menos o tempo necessário para que as nossas ideias entrem outra vez nos eixos.

Conhecendo a discografia de Rufus Wainwright, talvez nenhum disco de sua coerente carreira tem uma "aura" tão autoral como o que é lançado agora. Rufus parece abrir-se para dilacerar assuntos que de tão pessoais, parece um trabalho de assentar os conflitos internos, tal qual um bardo o faz quando senta pra rasgar no papel sua poesia, ou pra ratificar a falta ou excesso de esperança no mundo que Deus lhe confiou; e o bardo não entende tamanha a confiança de Deus em sua possibilidade de velar um mundo com as palavras que maquinalmente são trabalhadas por ele, são desintegradas, transformadas, lapidadas e aparecem vez e vez, repetidas, encardidas, cansadas, renovadas para compor o repertório do poeta, que Deus nomeou como embaixador. E Rufus não é embaixador de coisa alguma, ou porta-voz de ninguém, a não ser de si mesmo, pelo menos é o que fica evidente ao ouvir qualquer uma das faixas de seu novo disco.

Este novo trabalho é não só uma terapia para o cantor, mas também parece estabelecer o fechamento de um ciclo ou de ciclos de sua via pessoal que reverberam no seu trabalho e na caracterização dele, indivíduo Rufus Wainwright.

Rufus voltou a morar em Montreal, no Canadá, depois de um tempo morando em Nova Iorque. Este período, além de ter lhe trazido amadurecimento artístico, deixou marcas profundas, de tamanha força que o fizeram voltar a pacata, se comparada a megalópole estadunidense, Montreal, cidade onde passou toda a infância, embora seja nova-iorquino de nascimento.

A faixa que abre o CD é "Who are you New York?", levantando indagações deste período na cidade que já não reconhece; a terceira faixa, "Martha", é uma homenagem a sua irmã Martha Wainwright, que acabou de ter um bebê; homenagem como seu pai, o cantor folk estadunidense Loudon Wainwright III, já fizera certa vez, ao compor a canção "Pretty Little Martha".

É o CD em que Rufus mais trabalha o piano. Não há outro instrumento a não ser o piano e a voz do cantor, nas 12 faixas do disco recentemente lançado no Canadá, no dia 25 de março; na Europa no dia 5 de abril - ainda tem pouco (ou quase nenhum) material de divulgação. Esse disco não combina com clipe, mesmo. Os estadunidenses o terão nas prateleiras de suas Mega e Mini Stores apenas no dia 20 de abril, logo depois do dia do Índio, aqui no Brasil. Ainda não há previsão do lançamento do álbum de Rufus pelas terras dos Índios do Brasil.

Pela coesão e coerência de seu trabalho, um disco de Rufus Wainwright é sempre bom de ser ouvido, independentemente do estado de espírito do cantor, porque arcadista, parnasiano, moderno ou romântico, Rufus e a música constituem um signo e junção cada vez mais raro nas artes.

Na falta de clipe do novo CD, segue uma canção do disco anterior, Release the Stars, onde ele já aponta insatisfação com a "América":


domingo, 4 de abril de 2010

St. Vincent

A estranheza passa. A minha na segunda audição. Sons etéreos, confusos que no embaralhamento das notas, dos instrumentos ficam bonitos. Minha definição para a música de St. Vincent, "projeto" da cantora estadunidense Annie Clark.

St. Vincent - Marrow




St. Vincent - Actor Out of Work





St. Vincent - Laughing With a Mouth of Blood

sábado, 27 de março de 2010

Cores de Almodóvar

Sofisticado e popular, Renato Russo canta sob a luz das cores de Frida Khalo, Almodóvar, e entoa desvarios que um livro de Henry James não narra; sob a prenda do amor melodias e notas que, como as de Pixinguinha, carinhosamente, afagam.

Cores de Almodóvar



Louco



Carinhosamente

quarta-feira, 24 de março de 2010

Quiprocós para relaxar

Divulgação

A "Santa Ceia"


Com alguns dias de atraso, registro as minhas considerações sobre o novo filme de Fatih Akin - Soul Kitchen - que estreou na última sexta-feira.

Digo "alguns dias de atraso" porque a impressão deixada pelo filme me deu vontade de escrever sobre ele logo que saí da sala. Me espantou um pouco, numa sexta-feira, dia de estreia, o Unibanco Arteplex Frei Caneca estar "vaziinho", com pouquinhas pessoas por lá, para assistir um filme que levou o prêmio do júri do Festival de Veneza de 2009, e foi um dos mais comentados e também considerado como um dos mais queridos da 33ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, quando então recebeu ótimas avaliações da crítica especializada e do público.

Primeiro, o filme tem o motivo da gastronomia de fundo, e Fatih Akin faz questão de trabalhar esse assunto de um modo não usual, com uma despretensão que o faz, de fato, não ser um filme sobre comida e, por isso, pela forma despojada com que trabalha o tema, desvia-o dos clichês e dos estereótipos em que filmes desta temática costumam derrapar e, algumas vezes, nos enjoar. Há ótimos filmes que têm a comida como motivo principal ou coadjuvante, dentre eles eu me recordo e destaco O Anjo Exterminador, A Festa de Babette, Estômago, Ratatouille, Sideways, Os Cinco Sentidos, Marvada Carne, e por aí vai...

Soul Kitchen não lembra nenhum deles, ou melhor: lembra todos, mas só no que há de realmente bom nestes filmes. Isso, todos. Um filme, seja ele bom ou ruim, ao se entrever na temática que apetece aos nossos estômagos, estereótipos e modelos costumam povoar o gênero, tais como paixões alucinadas por meio do garfo, casais românticos embriagados, viagens gastronômicas, cozinhas afrodisíacas, road movies pelas estradas dos bandejões etc.; mas a virtude de Soul Kitchen está na ausência desses, digamos, "estratagemas", porque Akin, diretor prestigiado e conhecido pelos seus excelentes dramas, também premiados (Contra a Parede - Urso de Ouro no Festival de Berlim, e Do Outro Lado - Melhor Roteiro no Festival de Cannes), não segue nada disso, melhor, nos faz rir e encará-lo sem seriedade, por isso qualquer apresentação que eu venha fazer não fará jus ao filme, porque ele é povoado por improbabilidades partindo-se de uma ideia simples e sem alardes.

Portanto, o filme é uma daquelas boas criações feitas para relaxar e descontrair com um universo de quiprocós sem fim, ou quase sem fim. Os quiprocós são a razão de ser de Soul Kitchen. E faço questão de não me ater a detalhes do enredo para que o interessado em assistir ao filme nos cinemas possa ter a espontaneidade de receber as situações vividas pelo protagonista Zinos (vivido por Adam Boudouskos, que com Akin também assina o roteiro), dono de um restaurante em Hamburgo, Alemanha, da forma mais natural possível. O restaurante, de início, é quase um botecão onde, de início, o grande prato da casa é Hambúrguer com Fritas. Que diferente, e original, não? Bem, diferente fica a coisa quando o irmão de Zinos, vivido pelo excelente Moritz Bleibtreu, sai da cadeia em regime condicional.

Além do clima relax e de momentos recheados de boas estupidezes, os trunfos do filme são outros dois, que digo ser fundamentais: o elenco e a trilha sonora. Além de Bleibtreu, - um dos melhores atores alemães da atualidade - e Boudouskos - que para mim foi uma grata surpresa - está no elenco Birol Ünel, (excelente!) e Demir Gökgöl (cômico) - ambos estrelaram Contra a Parede - e outros que compõem a salada greco-turco-alemã que é o filme.

A música é o que amarra todas essas coisas, dando um tempero a toda a mistura. A seleção das canções é ótima e dispensa comentários, pois agrega música grega (juro que a rima não foi proposital) a muito bons embalos de soul e funk (é prudente lembrar que o funk aqui não é o carioca, certo?, mas o bom e autêntico som propagado por James Brown). Para quem já assistiu algum filme do diretor Fatih Akin, sabe que a trilha sonora é algo com que ele trabalha com muita acuidade, porque, de algum modo, a trilha sonora, pela intensidade e presença em seus filmes, é um dos principais personagens e fatores para ditar a força dos temas e dos personagens; e ainda funciona quase como um narrador da história, com uma carga de emoção que só é possível corresponder por meio da música.

Com tudo isso, pude perceber, sob o ponto de vista do diretor, que Soul Kitchen não é só um passo diferente de um diretor conhecido pelos seus dramas, mas também funciona como um "muito obrigado!" de Fatih Akin à sua cidade natal, Hamburgo. Durante o filme, pode-se verificar que, vez ou outra, o diretor mostra lugares que são os símbolos da cidade alemã que acolheu os pais vindos da Turquia, onde Akin passou a infância e aprendeu os ensinamentos da vida, tendo que enfrentar problemas que hoje são seus maiores legados - as identidades turca e alemã.

Fatih Akin é alemão de nascimento; e turco de coração, e não à toa, que o restaurante do protagonista, que nomea o filme, tem soul (alma) no nome. Por meio dele, do restaurante de Zinos, Akin quer nos mostrar que todos nós somos providos de uma essência, e essa essência reside em nossas paixões ou em nossas vocações, como será bem percebido no desenvolvimento do filme: a cozinha, como todas as outras coisas, precisa ter uma "alma", uma essência para funcionar.

A estrofe abaixo é de uma canção dos Doors, homônima ao filme (ou será o filme homônimo à música?):

Let me sleep all night
In your soul kitchen,
Warm my mind
Near your gentle stove.

Turn me out and I'll wander, baby,

Stumblin' in the neon groves.


Em tradução livre, é:

Deixe-me dormir a noite inteira
Na cozinha de sua alma,
Aquecer minha mente.
Em seu doce fogão.
Ponha-me pra fora e ficarei vagando, baby,
Cambaleando pelos bosques de neon.


Esses versos talvez expliquem alguma coisa do que foi dito, ou nada. As durezas, dificuldades e comicidades do filme podem ser resumidas no ato em que a agulha toca os sulcos do vinil e dá som à comida, à arte gourmet; comida é o combustível do corpo, tal como o coração dá energia a alma.

Soul Kitchen não tem a pretensão de explicar algo que tantos já tentaram - artistas, psicólogos etc. -, mas não conseguiram ainda uma definição aproximada do que é "alma". E é justamente por não pretender que o filme é bom. E vale esperar até o fim dos créditos.