Entre os meus mp3, reencontrei o de uma cantora australiana chamada Sia Furler, ou apenas Sia. Uma das canções que possuo tem também um clipe de uns 2 anos atrás, que é de um visual muito bonito.
Se podes ver, vê.
sábado, 7 de agosto de 2010
sexta-feira, 6 de agosto de 2010
Argentinamento das coisas
Como parte do meu processo de argentinamento, assisti há algumas semanas o filme Rompecabezas (Quebra-cabeças). Uma belíssima surpresa. Ao mesmo tempo que é uma belíssima decepção. Decepção não pelo filme, mas por saber que filmes desse porte muitas vezes não entram, nem resvalam, nem tiram tinta da trave do circuito comercial. É mesmo uma pena. O filme tem recebido prêmios por aí afora. A direção é de Natalia Smirnoff.
Já no ano passado eu tinha lido a respeito desse filme, e assistido ao trailer. E a oportunidade de assisti-lo surgiu há algumas semanas no Festival de Cinema Latino-Americano. Bons filmes como esse, infelizmente, acabam restritos a "guetos", a um nicho.
Mas também, filme bom, que não seja de explosão, comédia, romance ou não seja de Hollywood, aqui é difícil vingar.
Já no ano passado eu tinha lido a respeito desse filme, e assistido ao trailer. E a oportunidade de assisti-lo surgiu há algumas semanas no Festival de Cinema Latino-Americano. Bons filmes como esse, infelizmente, acabam restritos a "guetos", a um nicho.
Mas também, filme bom, que não seja de explosão, comédia, romance ou não seja de Hollywood, aqui é difícil vingar.
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The Changeling
Um pouco de música na sexta de música.
O pequeno filme está legendado em espanhol.
Mudanças!
O pequeno filme está legendado em espanhol.
Mudanças!
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
Será?
O fim de uma era de infâmia
por Luis Nassif
Diogo Mainardi está saindo do país. Na sua crônica, brinca com o medo de ser preso. É medo real. Condenado a três meses de prisão pelas calúnias contra Paulo Henrique Amorim, perdeu a condição de réu primário. Há uma lista de ações contra ele. As cíveis, a Abril paga - como parte do trato. As criminais são intransferíveis. E há muitas pelo caminho.
Há meses e meses meus advogados tentam citá-lo, em vão. Foge para todo lado. A intimação foi entregue na portaria do seu prédio, mas os advogados da Abril querem impugnar, alegando que não foi entregue em mãos. Tudo isso na era da Internet, quando todo mundo sabe que ele está sendo procurado para ser intimado.
A outra ação, contra Reinaldo Azevedo, esbarra em manobras protelatórias dos advogados da Abril. A ação prosperou porque colocada no Fórum da Freguesia do Ó - região da sede da Abril. Os advogados da Abril insistem em transferi-la para a Vara de Pinheiros.
Minha ação de Direito de Resposta contra a Veja vaga há quase dois anos, devido à ação da juíza de Pinheiros. Primeiro, considerou a inicial inepta. Atrasou por mais de ano a ação. Em Segunda Instância, por unanimidade o Tribunal considerou a ação válida e devolveu para a juíza julgar. Ela se recusou, alegando que a revogação da Lei de Imprensa a impedia - o direito de resposta está inscrito na Constituição Federal.
No caso da ação Mainardi-Paulo Henrique Amorim, ela absolveu Mainardi, alegando que as ofensas não passavam de mero estilo de linguagem que não deveriam ser levadas a sério. O disparate da sentença foi revelado pelo próprio TJ-SP ao considerar que o autor merecia uma condenação de três meses de prisão.
O problema não é Mainardi. É apenas uma figura menor que, em uma ação orquestrada, ganhou visibilidade nacional para poder efetuar os ataques encomendados por Roberto Civita e José Serra.
Quando passar o fragor da batalha, ainda será contado o que foram esses anos de infâmia no jornalismo brasileiro.
Fonte: blog do Luis Nassif. Postagem de 25/07/2010.
por Luis Nassif
Diogo Mainardi está saindo do país. Na sua crônica, brinca com o medo de ser preso. É medo real. Condenado a três meses de prisão pelas calúnias contra Paulo Henrique Amorim, perdeu a condição de réu primário. Há uma lista de ações contra ele. As cíveis, a Abril paga - como parte do trato. As criminais são intransferíveis. E há muitas pelo caminho.
Há meses e meses meus advogados tentam citá-lo, em vão. Foge para todo lado. A intimação foi entregue na portaria do seu prédio, mas os advogados da Abril querem impugnar, alegando que não foi entregue em mãos. Tudo isso na era da Internet, quando todo mundo sabe que ele está sendo procurado para ser intimado.
A outra ação, contra Reinaldo Azevedo, esbarra em manobras protelatórias dos advogados da Abril. A ação prosperou porque colocada no Fórum da Freguesia do Ó - região da sede da Abril. Os advogados da Abril insistem em transferi-la para a Vara de Pinheiros.
Minha ação de Direito de Resposta contra a Veja vaga há quase dois anos, devido à ação da juíza de Pinheiros. Primeiro, considerou a inicial inepta. Atrasou por mais de ano a ação. Em Segunda Instância, por unanimidade o Tribunal considerou a ação válida e devolveu para a juíza julgar. Ela se recusou, alegando que a revogação da Lei de Imprensa a impedia - o direito de resposta está inscrito na Constituição Federal.
No caso da ação Mainardi-Paulo Henrique Amorim, ela absolveu Mainardi, alegando que as ofensas não passavam de mero estilo de linguagem que não deveriam ser levadas a sério. O disparate da sentença foi revelado pelo próprio TJ-SP ao considerar que o autor merecia uma condenação de três meses de prisão.
O problema não é Mainardi. É apenas uma figura menor que, em uma ação orquestrada, ganhou visibilidade nacional para poder efetuar os ataques encomendados por Roberto Civita e José Serra.
Quando passar o fragor da batalha, ainda será contado o que foram esses anos de infâmia no jornalismo brasileiro.
Fonte: blog do Luis Nassif. Postagem de 25/07/2010.
segunda-feira, 2 de agosto de 2010
Não sou o que então eu era, mas ainda me é dado recordar
Até um tempo atrás, se algum cliente reportasse a mim dessa maneira:
- Por favor, você tem "O Aleph"?
Bom, eu, com um sorriso sorrateiro, ficaria feliz com a busca do cliente, afinal este era um daqueles que de vez em quando me deparava para partilhar algo interessante do mundo da literatura... Ah, eram outros tempos.
Hoje não sou mais vendedor de livros, mas sei que os vendedores de livros de hoje também sabem que se alguém pedir a eles "O Aleph" não será esse um predicado literário voltado àqueles que buscam boa leitura, pelo menos não somente. O Aleph, título do clássico livro de contos de Jorge Luis Borges, é o nome do novo livro de Paulo Coelho. Pois é.
Enquanto Borges foi gênio, de fato, Coelho se autointitula 'mago'. Pois é outra vez.
O livro de Borges é crucial para o que se denomina paixão pelo aprender, pelo saber, por ler, pela metafísica da vida. O título do livro de Coelho: eu não sei, soa uma ignomínia; não à Borges, mas à literatura como um todo.
O mago é 'imortal' 'e não sabe o que faz'. Ou sabe?
Diga-se, isso não é a primeira vez que Paulo Coelho infama Borges, ou sei lá coisa que o valha. Pois, em 2005, lançou o livro O Zahir, que, por coincidência ou não, é o nome de um dos contos do Aleph de Borges... e um dos melhores do livro.
Qual é a do mago eu não sei, mas costuma conseguir êxito no que intenta, talvez por isso seja mesmo um mago. A mesma academia que rejeitou Carlos Drummond de Andrade o acolheu de braços abertos, para o aconchego da câmara do chá das cinco... Politicagens: Getúlio Vargas também foi aceito pela academia. Me diga o livro de Getúlio ou a participação dele na cultura deste país? Necas. Getúlio foi eleito graças a uma edição, coligida na época, de seus discursos. Pela terceira vez: Pois é.
Populismo e magia à parte, é preciso considerar que Paulo Coelho é notável para aqueles que consideram a sua produção digna de nota, o que não são poucos. Mas me compadeço com Quintana quando dizem que Paulo Coelho é um mago; acreditam que ele é mesmo um mago, ele faz milagres, não é?
- Por favor, você tem "O Aleph"?
Bom, eu, com um sorriso sorrateiro, ficaria feliz com a busca do cliente, afinal este era um daqueles que de vez em quando me deparava para partilhar algo interessante do mundo da literatura... Ah, eram outros tempos.
Hoje não sou mais vendedor de livros, mas sei que os vendedores de livros de hoje também sabem que se alguém pedir a eles "O Aleph" não será esse um predicado literário voltado àqueles que buscam boa leitura, pelo menos não somente. O Aleph, título do clássico livro de contos de Jorge Luis Borges, é o nome do novo livro de Paulo Coelho. Pois é.
Enquanto Borges foi gênio, de fato, Coelho se autointitula 'mago'. Pois é outra vez.
O livro de Borges é crucial para o que se denomina paixão pelo aprender, pelo saber, por ler, pela metafísica da vida. O título do livro de Coelho: eu não sei, soa uma ignomínia; não à Borges, mas à literatura como um todo.
O mago é 'imortal' 'e não sabe o que faz'. Ou sabe?
Diga-se, isso não é a primeira vez que Paulo Coelho infama Borges, ou sei lá coisa que o valha. Pois, em 2005, lançou o livro O Zahir, que, por coincidência ou não, é o nome de um dos contos do Aleph de Borges... e um dos melhores do livro.
Qual é a do mago eu não sei, mas costuma conseguir êxito no que intenta, talvez por isso seja mesmo um mago. A mesma academia que rejeitou Carlos Drummond de Andrade o acolheu de braços abertos, para o aconchego da câmara do chá das cinco... Politicagens: Getúlio Vargas também foi aceito pela academia. Me diga o livro de Getúlio ou a participação dele na cultura deste país? Necas. Getúlio foi eleito graças a uma edição, coligida na época, de seus discursos. Pela terceira vez: Pois é.
Populismo e magia à parte, é preciso considerar que Paulo Coelho é notável para aqueles que consideram a sua produção digna de nota, o que não são poucos. Mas me compadeço com Quintana quando dizem que Paulo Coelho é um mago; acreditam que ele é mesmo um mago, ele faz milagres, não é?
O milagre não é dar vida ao corpo extinto,
Ou luz ao cego, ou eloquência ao mudo...
Nem mudar água pura em vinho tinto...
Milagre é acreditarem nisso tudo!
Ou luz ao cego, ou eloquência ao mudo...
Nem mudar água pura em vinho tinto...
Milagre é acreditarem nisso tudo!
Mas volto a Borges que por meio de uma simples descrição dizia muito.
Excerto de O Zahir (do Borges, tá?)
Em Buenos Aires, o Zahir é uma moeda comum, de vinte centavos; marcas de navalha ou de canivete riscam as letras N T e o número dois; 1929 é a data gravada no anverso. (Em Guzerat, em fins do século XVIII, um tigre foi Zahir; em Java, um cego da mesquita de Surakarta, que os fiéis apedrejaram; na Pérsia, um astrolábio que Nadir Shah mandou atirar no fundo do mar; nas prisões do Mahdi, por volta de 1892, uma pequena bússola que Rudolf Carl von Slatin tocou, envolta numa dobra de turbante; na mesquita de Córdoba, segundo Zotenberg, um veio no mármore de um dos mil e duzentos pilares; entre os judeus de Tetuan, o fundo de um poço.) Hoje é 13 de novembro; no dia 7 de junho, de madrugada, chegou às minhas mãos o Zahir; não sou o que então eu era, mas ainda me é dado recordar, e talvez contar, o ocorrido. Se bem que, parcialmente, ainda sou Borges.
(O Zahir, em O Aleph, de Jorge Luis Borges. São Paulo: Cia das Letras, 2008. Tradução de Davi Arrigucci Jr.)
Excerto de O Zahir (do Borges, tá?)
Em Buenos Aires, o Zahir é uma moeda comum, de vinte centavos; marcas de navalha ou de canivete riscam as letras N T e o número dois; 1929 é a data gravada no anverso. (Em Guzerat, em fins do século XVIII, um tigre foi Zahir; em Java, um cego da mesquita de Surakarta, que os fiéis apedrejaram; na Pérsia, um astrolábio que Nadir Shah mandou atirar no fundo do mar; nas prisões do Mahdi, por volta de 1892, uma pequena bússola que Rudolf Carl von Slatin tocou, envolta numa dobra de turbante; na mesquita de Córdoba, segundo Zotenberg, um veio no mármore de um dos mil e duzentos pilares; entre os judeus de Tetuan, o fundo de um poço.) Hoje é 13 de novembro; no dia 7 de junho, de madrugada, chegou às minhas mãos o Zahir; não sou o que então eu era, mas ainda me é dado recordar, e talvez contar, o ocorrido. Se bem que, parcialmente, ainda sou Borges.
(O Zahir, em O Aleph, de Jorge Luis Borges. São Paulo: Cia das Letras, 2008. Tradução de Davi Arrigucci Jr.)
domingo, 1 de agosto de 2010
Sintonia
Sintonia é algo muito importante. Entre pessoas, no meio familiar, no meio profissional. Ideias, empreendimentos... para tudo dar certo, devem estar em perfeita sintonia.
E não é em vão que falo desta boa ferramenta que faz com que tantos não pereçam à míngua, tudo por causa de uma rele e fina sintonia.
Qual não é a surpresa quando se assiste a um filme de Robert Aldrich e observa Joan Crawford e Bette Davis numa plena, controversa e ilibada sintonia. É de matar. Ou de morrer. Um filme que faz-nos ganir de raiva, ou rir de ódio com a risada macabra de Jane Hudson ao servir uma "iguaria" a Blanche Hudson, sua irmã.
Robert Aldrich sabe que é importante a sintonia, por isso escala Crawford para ser a desavisada e vítima irmã de Davis. Tudo absolutamente perfeito: sintônico!
O que terá acontecido a Baby Jane? é maluco, soberbo, indigesto, frio... e exuberante!
Tudo por causa da sintonia que nos é mostrada desde o início, e nos é vivificada no fim.
Que Deus salve os clichês, mas o filme é um esplendor, vil e tem uma sintonia...
Quem não o assistir não saberá por que e por qual razão fala-se tanto de sintonia ao ver Crawford e Davis lado a lado.
Robert Aldrich sabe que é importante a sintonia, por isso escala Crawford para ser a desavisada e vítima irmã de Davis. Tudo absolutamente perfeito: sintônico!
O que terá acontecido a Baby Jane? é maluco, soberbo, indigesto, frio... e exuberante!
Tudo por causa da sintonia que nos é mostrada desde o início, e nos é vivificada no fim.
Que Deus salve os clichês, mas o filme é um esplendor, vil e tem uma sintonia...
Quem não o assistir não saberá por que e por qual razão fala-se tanto de sintonia ao ver Crawford e Davis lado a lado.
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segunda-feira, 12 de julho de 2010
A vitória
A Espanha fez um bom mundial e merecidamente levou a Copa. Simples. Não é a máquina de futebol que todos agora dizem que é. Como é a campeã, virou moda dizer que a Espanha é a máxima expressão do futebol. Menos.
A "Fúria" é a melhor seleção de futebol dos últimos três anos, e isso é incontestável. Jogou menos do que podia na Copa, mas o suficiente para conquistá-la. É um selecionado competitivo, ofensivo, de bom toque de bola. E só. Os ibéricos não reinventaram o futebol, mas espelharam-se no que de melhor já foi produzido nele: a Hungria, de 1954; o Brasil, de 1970; a Holanda, de 1974... Mas ainda está bem longe destes esquadrões.
O bom de a Espanha ter vencido é que retoma-se com a sua vitória algo que ficou exemplarmente nítido principalmente a partir de 1954, com a Hungria do inominável Puskás. O futebol ofensivo e bonito pode ser vitorioso, ainda que a Hungria não tenha vencido aquela Copa. Pela tristeza do Brasil e pela alegria do futebol, o Brasil não venceu. Ainda bem.
Mediocridades a parte, a Espanha teve o equilíbrio necessário para tornar-se a legítima campeã, pelo fair play, pelo futebol. Quem gosta de futebol, já se cansou do jogo "de contra-ataque", dos volantes brucutus, das estratégias monocórdicas de se chegar ao gol: em vez de jogar no erro do adversário, desenhar os caminhos do acerto.
A vitória ou a derrota são os resultados do esporte. Ainda que se jogue lindamente e limpamente, a vitória poderá não vir. Vencer é ótimo, mas a proposta de como buscar os louros vale até mais do que a própria vitória. E as propostas corajosas ficam para a eternidade. A seleção de 82 ainda é mais lembrada que a de 94, ainda que a segunda seja a campeã; a maratonista Gabriela Andersen-Scheiss é mais lembrada que a vencedora, Joan Benoit, da maratona das Olimpíadas de Los Angeles, em 1984.
Corajosos, vitoriosos ou não, serão sempre dignos de mérito.
O bom de a Espanha ter vencido é que retoma-se com a sua vitória algo que ficou exemplarmente nítido principalmente a partir de 1954, com a Hungria do inominável Puskás. O futebol ofensivo e bonito pode ser vitorioso, ainda que a Hungria não tenha vencido aquela Copa. Pela tristeza do Brasil e pela alegria do futebol, o Brasil não venceu. Ainda bem.
Mediocridades a parte, a Espanha teve o equilíbrio necessário para tornar-se a legítima campeã, pelo fair play, pelo futebol. Quem gosta de futebol, já se cansou do jogo "de contra-ataque", dos volantes brucutus, das estratégias monocórdicas de se chegar ao gol: em vez de jogar no erro do adversário, desenhar os caminhos do acerto.
A vitória ou a derrota são os resultados do esporte. Ainda que se jogue lindamente e limpamente, a vitória poderá não vir. Vencer é ótimo, mas a proposta de como buscar os louros vale até mais do que a própria vitória. E as propostas corajosas ficam para a eternidade. A seleção de 82 ainda é mais lembrada que a de 94, ainda que a segunda seja a campeã; a maratonista Gabriela Andersen-Scheiss é mais lembrada que a vencedora, Joan Benoit, da maratona das Olimpíadas de Los Angeles, em 1984.
Corajosos, vitoriosos ou não, serão sempre dignos de mérito.
***
Mesmo sem nunca ter vencido uma Copa, as intenções dele o tornaram um dos maiores: Ferénc Puskás.
sexta-feira, 18 de junho de 2010
Um planeta tão pequeno
Certas vezes uma professora acadêmica uruguaia, em algumas de nossas conversas, fazia questão de "linchar" o seu compatriota Mario Benedetti, escritor que admiro muito. Benedetti faleceu em 2009. Mas antes mesmo de partir, romances e contos do uruguaio me fizeram rir e, por ventura, me fizeram verter lágrima, mesmo em dia feliz. Eu fazia questão de deixar claro para a professora que eu gostava do Benedetti, mas ela ressaltava que o escritor, em Montevidéu e em todo o Uruguai, era visto como um daqueles meros figurantes da cena literária uruguaia, vá lá da América Latina. Para mim isso nunca foi importante. Benedetti é grande, tal como Onetti, outro grande escritor na literatura uruguaia.
Ressaltava os dotes de Juan Carlos Onetti, escritor que Copacabana e eu conhecemos muito bem. E eu comigo: por que para ela Onetti sim e Benedetti não?
Dois fabulosos, dois grandes, únicos.
Pois é. Por que eu digo tudo isso? Não é por Onetti, nem por Benedetti. É por outro. É por Saramago. Na verdade, este texto não sairia agora, ou talvez nunca. Pois não quero fazer aqui algo que já ocorre mundo afora, falar de alguém só porque esse alguém morreu. Mas Saramago não é alguém. É que a morte de Saramago me lembra um pouco a morte de Benedetti. É lógico que Saramago, por ser um escritor agraciado com um Nobel e ser um escritor de nossa língua portuguesa tenha sua morte mais repercurtida nos jornais. Não é pelo Nobel, mas porque Saramago era quem era.
Em maio de 2009, com a morte de Benedetti, Saramago disse:
O planeta se tornou pequeno para abrigar a emoção das pessoas.
A poesia de Benedetti é um alento em dias difíceis, como a prosa de Saramago é um contínuo redescobrimento de uma língua e do jeito de pensar essa língua.
Os reacionários normalmente têm aversão às letras de Benedetti e Saramago, será porque os dois eram de convicções políticas de esquerda? O segundo mais radical que o primeiro. Mas as convicções políticas agora não são importantes. Importa saber que temos um material riquíssimo quando temos o livro de um ou de outro em mãos. É uma ferramenta e tanto para ajudar a fazer com o que o mundo possa abarcar melhor as emoções.
Lendo ambos, apreendi a consciência de sermos contistuídos de uma matéria infinitamente finita, tal constatação de Saramago me acorda de um sono difícil. Mas as palavras leves de Benedetti em meio a tormentas fazem com que a minha cabeça retorne ao repouso.
É mesmo: mais do que nunca, o mundo tornou-se ainda mais pequeno. Incontestável.
Benedetti era gigante e Saramago assim também achava. Quem sou eu para discordar do português? Fico com os dois.
Ressaltava os dotes de Juan Carlos Onetti, escritor que Copacabana e eu conhecemos muito bem. E eu comigo: por que para ela Onetti sim e Benedetti não?
Dois fabulosos, dois grandes, únicos.
Pois é. Por que eu digo tudo isso? Não é por Onetti, nem por Benedetti. É por outro. É por Saramago. Na verdade, este texto não sairia agora, ou talvez nunca. Pois não quero fazer aqui algo que já ocorre mundo afora, falar de alguém só porque esse alguém morreu. Mas Saramago não é alguém. É que a morte de Saramago me lembra um pouco a morte de Benedetti. É lógico que Saramago, por ser um escritor agraciado com um Nobel e ser um escritor de nossa língua portuguesa tenha sua morte mais repercurtida nos jornais. Não é pelo Nobel, mas porque Saramago era quem era.
Em maio de 2009, com a morte de Benedetti, Saramago disse:
O planeta se tornou pequeno para abrigar a emoção das pessoas.
A poesia de Benedetti é um alento em dias difíceis, como a prosa de Saramago é um contínuo redescobrimento de uma língua e do jeito de pensar essa língua.
Os reacionários normalmente têm aversão às letras de Benedetti e Saramago, será porque os dois eram de convicções políticas de esquerda? O segundo mais radical que o primeiro. Mas as convicções políticas agora não são importantes. Importa saber que temos um material riquíssimo quando temos o livro de um ou de outro em mãos. É uma ferramenta e tanto para ajudar a fazer com o que o mundo possa abarcar melhor as emoções.
Lendo ambos, apreendi a consciência de sermos contistuídos de uma matéria infinitamente finita, tal constatação de Saramago me acorda de um sono difícil. Mas as palavras leves de Benedetti em meio a tormentas fazem com que a minha cabeça retorne ao repouso.
É mesmo: mais do que nunca, o mundo tornou-se ainda mais pequeno. Incontestável.
Benedetti era gigante e Saramago assim também achava. Quem sou eu para discordar do português? Fico com os dois.
domingo, 6 de junho de 2010
Os finais
O final de um filme é como o recomeço da vida. Nos desligamos da tela e voltamos a prestar atenção nas luzes, nas pessoas, no amigo, no amor que está ao lado. Alguém que dividiu uma alienação para uma outra vida que se passava na tela; uma vida em que as coisas são mais fáceis ou mais difíceis - conforme os roteiros e personagens - que a nossa.
Para que saiamos da sala de cinema com um ar de satisfação, com um sentimento de que aquela hora, uma hora e meia, duas horas, três que sejam, é preciso que o fim do filme seja bom, não necessariamente feliz, mas bom no sentido de "bem realizado", de "emblemático".
Há finais felizes que são uma tragédia, há finais tristes que são soberbos. O final de um filme tem que funcionar tal como uma aula para o que chamamos de vida real. Se aprendemos ou desaprendemos com esta arte é relativo, mas dali pode incorrer sonhos, desatinos, tristezas, alegrias, humores, amores, fome, cansaço e um rol quase infinito de sensações e sentimentos. Seja qual for o que lhe cause, a cena final de um filme deve despertar pensamentos ricos, saudáveis, inteligentes. É lógico que não só o fim do filme, mas todo ele deve ser assim.
É importante não confundir bons finais com finais complexos, porque alguns acreditam que um bom final de filme são aqueles em que o roteirista e o diretor trabalham para que o final seja quase como uma "teoria inversa às leis surrealistas sob a ótica romântica da relatividade". Esqueçam essa teoria que eu acabei de inventar, um final é sublime quando calcado na simplicidade, não quando "simplista"; quando faz-nos refletir sobre a mensagem, não quando pretende relativizar sobre o mundo e sobre todas as coisas que há nele.
É difícil falar e lembrar de finais de filmes marcantes. Foram tantos desde a infância, mas eu posso dizer que há alguns que me marcaram, como o de "Rainha Cristina", com Greta Garbo; o de "Paisá", de Rossellini; de "Os Incompreendidos", de Truffaut; o de "Nove Rainhas", de Fabián Belinsky; de "A Malvada", com Bette Davis; "Noites de Cabíria", do Fellini, enfim, tantos outros, que não vou conseguir lembrar de todos agora.
Mas há um final que é extremamente marcante para mim, como o de tantos outros, mas de uma maneira estranha, peculiar, única. Neste final não há diálogos, há um gesto (que eu não vou falar qual é) de extrema força, ainda que simples. O filme é "A Aventura", de Antonioni. O filme em si já é perturbador, um filme "anticlímax", por esta razão o clímax do filme será esperado pelo espectador até o fim, o "grand finale". Quem já assistiu ao filme, sabe do que estou falando, e quem não assistiu entenderá quando assisti-lo.
O filme de Antonioni é só um exemplo entre tantos que eu poderia utilizar; a força de "A Aventura" é muito mais do que poderia supor quando o vi pela primeira vez, por esta razão utilizo-o como exemplo. Mas finais de filmes podem ser marcantes, podem ser chatos, pois são tantos os filmes que lembramos por ter sido bons, mas com finais chatos, e dos tão ruins com os seus finais tão bons (isso quando há paciência de se esperar o fim de um filme ruim). Em mais de um século, já se fez tanto no cinema; tantos créditos, atores, personagens, vidas, espectadores marcaram ou foram marcados, com os filmes de seus intangíveis finais. É muito coisa para um texto pequeno num blog perdido no Cone Sul.
Algo parecido acontece com os romances; no entanto não concluimos a leitura de um romance em 90 minutos. Por esta razão, por questões de tempo e paciência, é muito mais fácil terminamos um filme ruim, do que um livro ruim.
Bem, independentemente do final desse ou daquele filme, o legal é que, de alguma maneira, os destinos de personagens, a conclusão dramática, o diálogo final de um filme, de uma peça, de um livro, sejam sempre enriquecedores, no que se refere à vida que levamos fora da representação: a vida de obrigações, de problemas, das contas a vencer etc. Se o final de um filme não é feliz, não é o mais importante; importa sim que o final de um filme seja um pequenino recomeço, ainda que em um milésimo de nossa constituição, para a vida que retornamos quando são acesas as luzes do cinema.
A vida segue e outras nos esperam nas próximas sessões.
Para que saiamos da sala de cinema com um ar de satisfação, com um sentimento de que aquela hora, uma hora e meia, duas horas, três que sejam, é preciso que o fim do filme seja bom, não necessariamente feliz, mas bom no sentido de "bem realizado", de "emblemático".
Há finais felizes que são uma tragédia, há finais tristes que são soberbos. O final de um filme tem que funcionar tal como uma aula para o que chamamos de vida real. Se aprendemos ou desaprendemos com esta arte é relativo, mas dali pode incorrer sonhos, desatinos, tristezas, alegrias, humores, amores, fome, cansaço e um rol quase infinito de sensações e sentimentos. Seja qual for o que lhe cause, a cena final de um filme deve despertar pensamentos ricos, saudáveis, inteligentes. É lógico que não só o fim do filme, mas todo ele deve ser assim.
É importante não confundir bons finais com finais complexos, porque alguns acreditam que um bom final de filme são aqueles em que o roteirista e o diretor trabalham para que o final seja quase como uma "teoria inversa às leis surrealistas sob a ótica romântica da relatividade". Esqueçam essa teoria que eu acabei de inventar, um final é sublime quando calcado na simplicidade, não quando "simplista"; quando faz-nos refletir sobre a mensagem, não quando pretende relativizar sobre o mundo e sobre todas as coisas que há nele.
É difícil falar e lembrar de finais de filmes marcantes. Foram tantos desde a infância, mas eu posso dizer que há alguns que me marcaram, como o de "Rainha Cristina", com Greta Garbo; o de "Paisá", de Rossellini; de "Os Incompreendidos", de Truffaut; o de "Nove Rainhas", de Fabián Belinsky; de "A Malvada", com Bette Davis; "Noites de Cabíria", do Fellini, enfim, tantos outros, que não vou conseguir lembrar de todos agora.
Mas há um final que é extremamente marcante para mim, como o de tantos outros, mas de uma maneira estranha, peculiar, única. Neste final não há diálogos, há um gesto (que eu não vou falar qual é) de extrema força, ainda que simples. O filme é "A Aventura", de Antonioni. O filme em si já é perturbador, um filme "anticlímax", por esta razão o clímax do filme será esperado pelo espectador até o fim, o "grand finale". Quem já assistiu ao filme, sabe do que estou falando, e quem não assistiu entenderá quando assisti-lo.
O filme de Antonioni é só um exemplo entre tantos que eu poderia utilizar; a força de "A Aventura" é muito mais do que poderia supor quando o vi pela primeira vez, por esta razão utilizo-o como exemplo. Mas finais de filmes podem ser marcantes, podem ser chatos, pois são tantos os filmes que lembramos por ter sido bons, mas com finais chatos, e dos tão ruins com os seus finais tão bons (isso quando há paciência de se esperar o fim de um filme ruim). Em mais de um século, já se fez tanto no cinema; tantos créditos, atores, personagens, vidas, espectadores marcaram ou foram marcados, com os filmes de seus intangíveis finais. É muito coisa para um texto pequeno num blog perdido no Cone Sul.
Algo parecido acontece com os romances; no entanto não concluimos a leitura de um romance em 90 minutos. Por esta razão, por questões de tempo e paciência, é muito mais fácil terminamos um filme ruim, do que um livro ruim.
Bem, independentemente do final desse ou daquele filme, o legal é que, de alguma maneira, os destinos de personagens, a conclusão dramática, o diálogo final de um filme, de uma peça, de um livro, sejam sempre enriquecedores, no que se refere à vida que levamos fora da representação: a vida de obrigações, de problemas, das contas a vencer etc. Se o final de um filme não é feliz, não é o mais importante; importa sim que o final de um filme seja um pequenino recomeço, ainda que em um milésimo de nossa constituição, para a vida que retornamos quando são acesas as luzes do cinema.
A vida segue e outras nos esperam nas próximas sessões.
sábado, 5 de junho de 2010
1970
Eu viria em uma encomenda 9 anos depois, embalado pela Lei 6.683, a da Anistia, promulgada 11 dias antes de eu nascer. A ditadura perdia forças, mas ainda ecoava em todos os setores da sociedade brasileira. E quando se fala em ditadura, não há como ignorar o ato mais repressor desse período - o AI-5, que cerceou todo e qualquer resquício que ainda houvesse de liberdade e de direito de opinião. O Ato Institucional n° 5 foi decretado 11 anos antes da encomenda de meus pais que viria a ser eu; e um ano antes daquilo que costumamos hoje qualificar (e ganha força em época de Copa do Mundo) como o mais representativo "futebol arte": o escrete canarinho que viria a encantar o planeta com "manobras" realizadas com os pés.
Pois é, e quando se fala daquela seleção brasileira de futebol, é impossível indissociá-la dos tempos sombrios por que o país passava, vivia. Mas para os ultrajantes governantes deste continente "Brasil", a esquadra futebolística brasileira era a sua melhor propaganda, o seu maior símbolo - o de um Brasil vitorioso, progressista, combativo, guerreiro, forte e bonito.
Sabe-se que o povo brasileiro, a começar pelos nossos ancestrais colonizados pelos europeus, é tudo isso e mais um pouco, mas a propaganda - meio de comunicação aprimorado pelos nazistas, era agora uma arma ou uma aliada para usá-la junto à massa pelos governos populistas, para justificar tamanha reprimenda e limitação, e assim no Chile de Pinochet; no Paraguai de Stroessner; na Argentina de Videla; na Cuba de Batista; no Uruguai de Bordaberry; e no Brasil de Médici, apenas para ficar nas Américas.
Política e tirania à parte, quando nos deparamos com as pessoas, grupos, que faziam da arte e do esporte algo muito maior que não se restringe aos seus respectivos campos artísticos e esportivos, observamos que o panis et circenses infringe a sua própria razão e existência, desde a Antiga Roma.
Muitos indivíduos tiveram sua individualidade e vida corrompidos, num tempo em que era comum ouvir Beatles no rádio, ou no long play, porque eles não eram a história que fizeram, eles eram a história que faziam. Elvis, Warhol, Hitchcock, Morrisson, Kerouac, Pelé, Bardot; Woodstock, Nouvelle Vague e tantos outros marcos que compunham aquela era, que poderia ser a minha, mas os meus pais eram ainda muito jovens e não se conheciam.
Personalidades e fatos que hoje estão nas milhões de memórias que os presenciaram, e no video tape. Mas o video tape só reproduz as imagens, enquanto as pessoas ensinam o quão foi bom viver aquilo.
Tudo grande, majestoso, como se todos, apesar das limitações impostas pelos generais, entendiam cada segundo como a grandeza suficiente para uma coisa maior - "a celebração" -, como se um breve momento, rápido e fustigado que fosse, já brindaria à vida, que não se sabia até onde poderia durar. Ou até onde poderia haver encanto, e por isso encantaram.
Até os dias de hoje, nada disso pereceu.
Não é preciso gostar de futebol para gostar de ver "o jogo".
Pois é, e quando se fala daquela seleção brasileira de futebol, é impossível indissociá-la dos tempos sombrios por que o país passava, vivia. Mas para os ultrajantes governantes deste continente "Brasil", a esquadra futebolística brasileira era a sua melhor propaganda, o seu maior símbolo - o de um Brasil vitorioso, progressista, combativo, guerreiro, forte e bonito.
Sabe-se que o povo brasileiro, a começar pelos nossos ancestrais colonizados pelos europeus, é tudo isso e mais um pouco, mas a propaganda - meio de comunicação aprimorado pelos nazistas, era agora uma arma ou uma aliada para usá-la junto à massa pelos governos populistas, para justificar tamanha reprimenda e limitação, e assim no Chile de Pinochet; no Paraguai de Stroessner; na Argentina de Videla; na Cuba de Batista; no Uruguai de Bordaberry; e no Brasil de Médici, apenas para ficar nas Américas.
Política e tirania à parte, quando nos deparamos com as pessoas, grupos, que faziam da arte e do esporte algo muito maior que não se restringe aos seus respectivos campos artísticos e esportivos, observamos que o panis et circenses infringe a sua própria razão e existência, desde a Antiga Roma.
Muitos indivíduos tiveram sua individualidade e vida corrompidos, num tempo em que era comum ouvir Beatles no rádio, ou no long play, porque eles não eram a história que fizeram, eles eram a história que faziam. Elvis, Warhol, Hitchcock, Morrisson, Kerouac, Pelé, Bardot; Woodstock, Nouvelle Vague e tantos outros marcos que compunham aquela era, que poderia ser a minha, mas os meus pais eram ainda muito jovens e não se conheciam.
Personalidades e fatos que hoje estão nas milhões de memórias que os presenciaram, e no video tape. Mas o video tape só reproduz as imagens, enquanto as pessoas ensinam o quão foi bom viver aquilo.
Tudo grande, majestoso, como se todos, apesar das limitações impostas pelos generais, entendiam cada segundo como a grandeza suficiente para uma coisa maior - "a celebração" -, como se um breve momento, rápido e fustigado que fosse, já brindaria à vida, que não se sabia até onde poderia durar. Ou até onde poderia haver encanto, e por isso encantaram.
Até os dias de hoje, nada disso pereceu.
Não é preciso gostar de futebol para gostar de ver "o jogo".
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