quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

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Desculpe.

Bom-dia.

Olá.

Au revoir...

A despedida é sempre algo estranho, não reside em pensamento, apartamento, alma ou palavra, está solta, esperando a próxima razão que vai lhe conceber valor e fazer valer o seu devido uso:


“Adeus, meu amigo.

Espero que a tacada da vida nos leve a outros bares, a nova embriaguês. Que nos leve a cantar perambulando pelas calçadas desta cidade provinciana, quando não há mais noite, nem dia, nem sossego, só o mote para o estampido de nossas vozes em crescente absurdo ressoando no acrílico dos teus óculos, nas vidraças das venezianas pudicas dos vigaristas que nos espionam, riem e choram de nossa coragem, da nossa virilidade exposta e da nossa leviandade incontida.

Adeus, meu amigo.

As tuas horas foram mais minhas que tuas, o teu suor foi mais casto que o meu, teus olhos mais cegos que a faca que atenua o meu terçol, o teu beijo num consciente dormente das minhas mais vagas loucuras sãs. Rebentei-te nos dedos, aprumei-te com amor, carreguei-te nos braços frouxos, com voz rouca aligeirei-te em tuas discórdias com os teus inimigos, insinuei desavenças já com a camisa abençoada com o teu sangue. Bruto. Sereno. Obtuso. Qual é a tua? Que porra honras? Que mentira desfias?

Adeus, meu amigo.

Sou humano na tua dúvida perversa. O caminho de tua sapiência está fincado em códigos binários que pr'o meu governo não representam nada. Mas largo-te, e não é ao acaso que a cena que desenhas com teu abraço é a representação mais linda da fuga do horror que te destrói nas merdas desta vida... Estás lindo, eu sei. Invejo-te na soberba e nas paixões, clamo-te nas dores e nas saudades e na previdente ternura que te perfuma, como sândalo, os teus músculos e o teu sexo.

Adeus, meu amigo.

Estou contigo mesmo na desonra, ainda que precise perfurar os teus olhos para não intimidar-se com os sombrios pensamentos, com a escuridão que o atormentam. Sabido do amor, sabido da coragem, sabido da verdade, dilacerastes com precisão a minha carne a ponto de meu desejo basear-se somente em reconstituí-la provendo de tua alma e de tuas artérias que pulsam vida, desencadeadas por vasos que serpenteiam todo o teu corpo, irrigam tua face, as tuas mãos cavas. Adeus, meu amigo. Os alardes das vilezas trincam até os dentes, desmoronam até o coro que balizam a sinfonia de meu coração...

Permaneço cá, como uma gota num copo transbordado.

Adeus, meu amigo."

*Texto escrito originalmente em 29 de setembro de 2006.

Sendo

Uma pausa às línguas estranhas, ao cotidiano que não é meu, a verdade que não amanhece e não divide a mesa do meu café...

O pão queimou na tentativa de fazer torrada e era apenas um pote e o seu resto de manteiga, agora é só um pote: minha verdade. Na tentativa de comer flores, me engasguei com os espinhos. A realidade está espalhada pelo meu quarto: minha cama, os chinelos, alguns pensamentos jovens já envelhecidos e uma vontade louca e abstrata... tudo por uma felicidade, como todo mundo (ou como poucos).

Desemboca a perspectiva, a percepção, que em mim nunca foram muito boas, talvez fossem quando tive nove anos... hoje são vinte e seis, e o raio desta esfera permanece inalterado desde os nove, mas é como se tivesse se expandido na proporção em que cresço, em que a minha ignorância amadurece e percebo que os musicais do cinema são apenas os movimentos causuísticos da tela, Billie Holliday apenas Billie Holliday, Ovolmatine apenas aglomerado de açúcar misturado ao leite, e meu estômago não é de aço.

Se sou forte? Claro! Eu não teria sobrevido a queda de minha infância, não teria forças então para encarar a mesa do café, a mesma que testemunha o pão queimado e a tentativa frustrada de fazer torrada...

Amigo, uma pausa à sua deficiência, a minha incoerência e a nossa inexatidão, deixe-me que vou lhe mostrar o que me separa do mundo: JANELA. Mas através dela tenho a certeza do sol. (Voltei a sorrir, acho).

*Texto escrito originalmente na noite de 26 de agosto de 2006.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Prum "brejim" pra lá do Wyoming...



Simula Factory, de Martha Wainwright, para manter a leveza de todo o dia... Momento de brevidade, sim, mas não único. Ah, caipirinha sertaneja, dos confins canadenses... Idílio é sua voz. Estou idiota. Conecto-me também a canção dos Triplets, do musical The Band Wagon, a essa minha audição, de lá do brejo, lá do norte, bem norte das Américas.

Mas saí do musical, voltei aos braços de Martha, melhor, à voz de Martha, e a ouço cantando tão linear I'll Be Seeing You. É mágica. Até música de natal ela canta. Não é mais natal, nem vai ser. Aliás, vai ser, mais pro fim do ano, só. Está longe? Nada! Vem logo, num instante. As luzinhas voltarão a rodear as árvores. Piscar nas residências. That's enternainment. Pianinhos e corais, crianças com asinhas de anjo. Mas agora é praia. É a palavra. É férias. É o momento. Somos todos momentos, não me atravo a dizer a razão. Mas todos os dias nos dividem, em Ítalo Calvino e Ricardo Piglia, nos misturamos nas comédias dos suspenses de nossos cobertores. Somos felizes? Acho que sim, do nosso jeito de ser sem querer com todas as coisas e acontecimentos da vida. Nunca temos culpa e somos os maiores responsáveis.

Somos nós e desatos, a liberdade de estarmos presos a esses segmentos circulares, sem fim e nem começo de toda a vida. Inicia-se no mesmo momento que termina - ouço Martha cantando música de natal, quando fingia sapatear com os dedos sobre a escrivaninha -. Nossas imprecisões são de alguma forma decências. Cativo o meu lugarzinho, minha paixão; tudo num balaio que se mistura tristeza e vontade de chorar, com lamúrias e um bruto desejo de gargalhar na companhia das músicas e das pessoas mais adoráveis.

Sino toca, sentimento toca, a música também; o coração em compasso, a banda também. O meu destino escrito em almaço, o meu diário na brochura, os meus propósitos nas pautas da agenda do ano passado. Vingou 2007. Vingou 2006. Vingou 2005... Vingou 1979. É a precisão de sempre, o desejo desde de quando houve um porvir e uma sensação de que VIDA é um aforisma de discussão para as faculdades de filosofia - The Great Gig In The Sky. Um grito enorme ecoa, piano e piano. Melodia.

O disco toca já há um tempo, e não termina.

Não precisamos terminar. As nossas rotações são tão infinitas quanto às nossas necessidades de erros e acertos, equilíbrio que se metamorfosea em lírica vésper a se contar nos dias não nublados...

Quantas nuvens não houveram hoje para que pudéssemos contar as estrelas?

Quantas estrelas houveram hoje para que não se pudesse haver nuvens para que não as escondessem e então para que pudéssemos contá-las?

O disco toca, toca.

Como nós, ele não termina. Agora é só a hora do Lado B.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

(What's the Story)?

Sonhei que participava de uma patrulha polar. Patrulha polar que caçava borboleta nas geleiras derretidas. Sonho. Caminhava até Berwick Street. Caminhava. Chega. Hora de voltar a dormir, exato. Com todo o sentido.

domingo, 6 de janeiro de 2008

Propósito de Juventude

Uma das finalidades da arte como um todo é a de resgatar a juventude que reside dentro dos seres insatisfeitos com as condições que o tempo propõe, quando não se é mais tão jovem assim. A arte deve servir como essa ponte que nos leva à dimensão desconhecida de tempo e que perpassa até mesmo por experiências não vividas, com o objetivo de destacar e colocar em nosso exterior a juventude contida, esquecida ou até mesmo só imaginada. Não diferente, a nova produção de Francis Ford Coppola reintera este propósito.

Coppola, depois de quase 10 anos apenas cuidando de sua vinícola, se propôs, agora como hobby, a fazer algo que faz e bem: cinema. Exibido na premiére do Festival Internacional de Cinema de Roma, o seu novo filme, Youth Without Youth, parece ser uma síntese desta eterna busca, da juventude alheia a juventude. O próprio título, numa tradução bem livre e literal, em português, seria Juventude Sem Juventude. Poeticamente, a tradução para o italiano poderia simbolizar coerentemente o significado do filme: Un'altra Giovinezza, que traduzido seria Uma Outra Juventude.

O diretor diz ter rejuvenescido com o filme, já que pode se dar ao luxo de fazer e produzir o que lhe convier, sem a preocupação do mercado cinematográfico. Talvez, Coppola esteja mais autoral do que nunca e, portanto, ainda mais jovem e maduro, paradoxalmente falando. Maturidade sempre foi o cerne da cinematografia de Coppola, mas, segundo o próprio diretor, esta maturidade parecia estar embasada numa superficialidade inerente à estrutura do cinema feito hoje, com a preocupação básica de se fazer películas para arrecadar dinheiro, pura e simplesmente, deixando em segundo plano a coerência artística em que o cinema, como outras artes, se propõe e se define.

Claro que Coppola, como poucos, soube muito bem lidar com esta questão e subverteu a linguagem do cinema norte-americano de meados dos anos 70 pra cá, aliando vigor, bilheteria e precisão no gosto de desfiar o pensamento contemporâneo na busca da liberdade, a sua serena odisséia com O Poderoso Chefão e a mordaz apresentação do Vietnã em Apocalypse Now. Com o novo filme, Coppola, pode não renegar ou desdizer o que já fora dito em outras épocas até os dias de hoje, sobre as amarras do viés artístico feitas pela indústria do cinema, impossibilitando vôos mais subversivos, portanto, proposto à moldagens mais previsíveis de se fazer cinema, mas, antes de tudo, Coppola tenta solidificar uma vanguarda já idealizada há muito pelos cineastas franceses dos anos 60, que ainda continua sendo o mito e objeto de veneração por aqueles que calculam o cinema sem maquiagem e com muito suor. O próprio tema de Youth Without Youth, estrelado por Alexandra Maria Lara e Tim Roth, que trata de um jovem atingido por um raio, na ocasião da 2ª Guerra, e então sofre uma espécie de metamorfose regressiva e rejuvenesce 30 anos. Além da juventude, passa a ter também poderes de consciência interdimensional sobre o hoje e o futuro.

Essa interdimensão buscada nas artes, aparece como a parábola do futuro, ou melhor, do presente, desinibido por Coppola. Diariamente procuramos nos definir no paralelo da dimensão restrita do ser humano, que delinea as esferas do tempo que passou, o tempo que é e o tempo que será. Coppola, muito consciente disso, utiliza de sua arte para imprimir ainda mais discussão, o travamento eterno de nos sentirmos interessantes e úteis - de alguma forma sermos jovens.

A representação disso pode vir pelas artes, como bem fez Francis Ford Coppola, através de seu último, mas sintetizada em toda a sua filmografia, mas todos nós podemos, de alguma forma, desde que haja a fé necessária deste resgate, e isto não esteja vinculado ao Cronos.

Youth Withou Youth soma-se à batalha incessante das artes pelo refugo juvenil, pelas arestas que definem a vida intrínseca à sua beleza viril, forte e equilibrada. Saudemos todos os propósitos, tal como o da circular discussão sobre a juventude, sobre às incansáveis e inesgotáveis fontes artísticas que nos alfinetam, nos acordam para uma outra percepção de nossas vidas comuns, desvinculando-nos, por um período, disso que chamamos de realidade, vida presente, para nos mostrar outras possibilidades, e não menos dignas de se encantar com os sismas da vida, ainda que estes sejam apenas impressões impregnadas em negativo ou num Super 8.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Hibernação e a Necessidade

O período de 2 meses sem nenhum post neste blog foi proposital, necessário. Há um turbilhão de pensamentos deslizando pelos meus neurônios, outras mil necessidades advindo de mim para explodir em meus músculos para as ações, nem sempre eficazes. Dezenas de fotografias desajustadas necessitando de algum reparo, não do photoshop, mas da lembrança fulgaz, que seja esta então canonizada ao panteão mítico da lembrança eterna, pra se valer a pena de registrar pelo obturador, guardar-se dentro de mim.
Tão necessário quanto o ajuste é a percepção das mesmas necessidades, das novas, das antigas.
Hemisfério Sul, uma ducha gelada pra libertar os radicais ideais amortizados sob a cabeleira, deixar-se um pouco à vontade só para poder começar a entender um pouco do "inexorável" (palavra tão desnecessária e calculada) que nos rodeia.
No calor superficial, não há necessidade de hibernar, mas na frieza colateral das idéias e dos acontecimentos, necessitamos da reflexão, sem tempo definido.
A volta é o dia indefinido; a indefinição a necessidade da incoerência de se viver e de se manter justo.

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Mulheres do Iêmen e Uma Dose Extra de Chantilly

"It rains like manchester", foi o que disse Liam Gallagher naquela noite de 20 de março de 2006, no show do Oasis aqui em São Paulo, quando eu, batizado pela chuva, já mal me movia com os meus jeans, calça e jaqueta, encharcados, pesavam quilos, e eu sentia bem o efeito do peso da água acumulada, curvava-me então capenga, pelo peso e pelo cansaço, do show e da água que ainda estava nas fibras do algodão da calça e da jaqueta. Era já início de dia e fim de noite quando terminou o show. Um aguaceiro só: exaustão inesquecível!
Hoje não foi muito diferente daquele 20 de março de 2006 (na verdade ontem, este texto começou a ser redigido às 0h06min de 25 de outubro de 2007, mas a referência é do 24). Mas, diferentemente daquele 20 de março, neste 24 de outubro eu não fui a show nenhum, mas o aguaceiro atravessou todo o dia e bem que poderia ter sido um belo e verdadeiro coadjuvante na atmosfera que se comprimia para o que se programava. Se os nossos prognósticos otimistas fossem ótimos a ponto de serem suficientes para que algo desse certo, hoje eu teria assistido a última sessão de Control, a cinebiografia de Ian Curtis, na Mostra de Cinema de SP, mas não deu. Chuva, distância, ingressos (em tese, a falta destes), foram determinantes para que não conseguisse ver a película sobre a "estória" de Ian, vocalista responsável pelo Joy Division, banda também de Manchester. O céu cinza, chuvoso, criava a atmosfera ideal para que se assistisse um filme desse personagem, dessa banda chuvosa, cinzenta, a definição poética para esta atmosfera seria "um dia desespero choroso de céu plumbeo".
18h45. O horário de desembarque do 11º ao térreo do Conjunto. Cavuquei então na bolsa-carteiro o guia da Mostra já judiadinho. Sessão: 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias - ESGOTADA. Pesquisar? É. Pesquisar! Sem me demorar, depois, fui lá, comprei ingresso para a sessão das 19h10: Programa Duplo 3, dos médias metragens: Cada Passo Que Você Dá, de Nino Leitner, e Amor e Letras, de Sylvie Ballyot.
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Dois documentários, o primeiro trata sobre a questão das CCTV (câmeras de circuito fechado), a proliferação destas nas esquinas da Grã-Bretanha, da bigbroderização do universo britânico, de todo o mundo que as utiliza justificando-se pela segurança que, em teoria, traz para as instituições, cidades, pessoas, empresas que lançam mão de seus serviços para tudo vigiar e tudo ver. Deu um pouco de sono, mas valeu. O diretor, Nino Leitner, inclusive, estava presente na sessão e foi brevemente apresentado no início da projeção e brevemente papeou também. O filme, nos primeiros 5 minutos travou, literalmente. Por três vezes os técnicos se dirigiram a cabininha mágica pra consertar o filme. Cabininha mágica que lança um raio na tela branca que vira imagem e som e faz muita gente rir ou chorar, faz gente ser feliz ou faz gente motivar-se um pouco para fazer alguma coisa ou qualquer coisa. Ofício de imaginação ou de se embarcar nela.

Emendada à projeção sobre as CCTV, veio o Amor e Letras, média metragem de Sylvie, como dito. Também documental, Sylvie foi ao Iêmen para filmar uma mulher, uma egípcia naturalizada francesa, a qual também serviu como intérprete da diretora naquele país. Mas, para quem não sabe, o Iêmen é um dos países islâmicos no qual as mulheres não podem mostrar o corpo e nem o rosto, devem conviver socialmente com uma vestimenta negra iemenita, de tradição shiita, com diferença à Burca afegã, já que deixa à mostra apenas os olhos.

As mulheres estrangeiras no Iêmen são consideradas pertencentes ao 3° sexo, ou seja, não são obrigadas a vestir tais vestimentas, mas, são indispensáveis um xale para cobrir o cabelo e, claro, vestes discretas (ou pensa que poderá andar pelas esquinas do Iêmen de shortinho, já que lá faz muito calor?).

Mas, Sylvie foi abordada por representantes islâmicos e do governo local, os quais a proibiam de prosseguir com tais gravações, já que a egípcia era islâmica. Todo o material filmado até então foi retido por estes indivíduos. Pertimitiram que as filmagens prosseguissem a partir de então, desde que não filmasse o rosto da mulher ou a filmasse de corpo inteiro. Ah, revoltada, a diretora passou a se filmar, estática, em meio a multidão, já que o objeto de filmagem era proibido e toda a sua construção criativa se via impedida pelos costumes ditatoriais locais. Em vários locais, Sylvie, tal como nas ruas e nos mercados públicos mostra-se estática em frente à câmera, deixando-se filmar, sem ação, apenas ali, parada.

A proximidade com a mulher, pela intérprete, o foco inicial de seu trabalho, com a amizade crescente, experiências pessoais trocadas, tudo isso transforma-se numa paixão incandescente entre as duas, e Sylvie passa a focaliza-lo nas filmagens. Essa paixão mútua, entre Sylvie e a mulher (o nome dela não é citado no filme) era um outro desafio na continuação das filmagens, já que num país onde uma mulher não pode mostrar o rosto, vá lá mulheres se relacionarem-se com mulheres. Seguem-se os relatos das noites de amor entre as duas e a paixão desenvolvida, por poesia, citações rasgadas.

A diretora intercala, então, entrevistas com jovens locais com as suas auto-filmagens nos lugares públicos, com as imagens púdicas da mulher por quem se apaixonou. Nas entrevistas, Sylvie questiona os jovens sobre casamento, amizade e, principalmente, homossexualidade.

Bom, a diretora resumiu a sua rotina, censurada em parte pela Charia (lei islâmica) que a impedia de veicular o retrato de seu amor. Era lugar proibido para sentimento proibido.
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Findada a sessão, percebi que a chuva rasgava com mais força o céu, que eu imaginara quando ouvira só o barulho dela. Saí do Conjunto Nacional e vi os pinguinhos de água excessivos e refrescantes para aquela noite, bem esperada por mim aquela chuva: dias quentes. Foi presença certa por dois dias, não começara ali, naquele momento, naquela noite.

Ainda procurava a possibilidade de uma nova sessão, mas já esgotadas mesmo nos cinemas ao redor. Ainda tomei da chuva pra ver mesmo se tinha como ter uma nova sessão interessante. Não. Resultou em lamento, pra combinar com a chuva que já esfriava bem. Já me encontrava subindo a rua Augusta, entrei na galeria, dei de cara com a Starbucks ali, porque não esquentar um pouco com um chocolate ou café, agora que não tinha cinema? Era a alternativa. Fui-me até o balcão, procurei no cardápio, do quadro de luz pregado à parede, as opções possíveis. Ah, por que então não misturar o útil café ao agradável chocolate, mas sem o melado costumeiro de um capuccino?

Solicitei um Cáfé Mocha (lê-se Móca) - um expresso com chocolate, leite vaporizado e Chantilly... e então? Sabe-se que, lá fora, essa rede de cafeterias tem por hábito personalizar o atendimento chamando o cliente pelo próprio nome, inclusive, dispensando uma atenção fora do comum aos seus clientes. Pois bem, já estava pago o café e então esperava pela bebida no balcãozinho ao lado do caixa, enquanto os baristas (certificados e treinados rigorosamente pela cafeteria) preparavam o meu Mocha. Pronto! Chega o Mocha na mãozinha da barista e eu já preparado para "tomá-lo" sou surpreendido pelo chamado da menina, "Henrique, o seu Café Mocha já está pronto". Fiquei quieto. Mas, oras, cadê o Henrique? A menina barista repetiu, "Henrique, pode vir retirar o seu Café Mocha, já está pronto". Continuei quieto. Enfim, no terceiro chamado, questionei a barista, muito atenciosa, "Bem, eu pedi um Mocha, eu acho que esse que este que está na sua mão é o meu, não?" A menina, "Qual é o seu nome?" Eu, "Marcelo", a barista, "Escreveram que este Mocha era do Henrique". Eu, "Sim, mas o Henrique era quem estava na minha frente, já retirou o pedido e saiu". A barista, "Oh, desculpe, Marcelo, pelo equívoco." Pelo engano cometido, você tem direito a uma dose extra de Chantilly, tudo bem? Eu, "...ah, sim, sim, tudo bem." Mas, a menina barista viu que o Mocha, neste interim, já não estava em sua temperatura dantes, então, disse, "Marcelo, vou preparar um novo Café Mocha para você, pois, pelos testes, este já não se encontra na temperatural ideal, e ainda adicionarei a ele a dose extra de Chantilly".

Peguei, enfim, o meu Mocha, e gozei com o calor e o sabor dele, na chuva, até que chegasse à Consolação, na caminhada. Mas a Consolação era, pelos filmes não assistidos, de fato, a dose extra de Chantilly.

Todos esses fatos, são mais uns desses que acontecem, bem ordinários, fatos que, num instante, num momento específico, a sós ou acompanhados, nos surpreendem e nos alimentam de energia; podem ser chuviscos dosados enfaiscantes, ou apocalipses encrispados de águas vindas do céu, como naquele março de 2006, pode ser num encontro inesperado, casual; ou um chocolate quente energizante que partilha o gosto do cacau com o do café, com o leite, esquentando da língua às nossas cavidades internas, e todos acompanhados de uma formosa, alva e fofa dose extra de Chantilly.
Assim, tudo será incomum, mesmo o ordinário dos ordinários, o comum dos comuns...

domingo, 21 de outubro de 2007

Livros novos nada novos - Lançamentos

Rápido. Novas publicações mas nada novas no mercado editorial nacional.




O Coração é um Caçador Solitário - Carson McCullers (Cia. das Letras)


detalhe da capa

Enfim, uma editora nacional tomou vergonha e vai republicar um romance da magnífica Carson McCullers. O Coração é um Caçador Solitário é o seu romance mais célebre, mas, McCullers é dona de uma bibliografia maravilhosa (vide texto publicado neste blog em agosto/07). Espero, sim, que seja o início para toda a releitura da obra desta escritora norte-americana aqui no Brasil.

O Coração, diríamos, é o romance, em sua natureza, de incomunicabilidade. Os protagonistas, Spiros Antonapoulos e John Singer são dois surdos-mudos inseparáveis. A introdução do livro, da qual me utilizo da edição portuguesa da Europa-América, dispensa mais comentários:
“Havia na cidade dois mudos que eram inseparáveis. Todas as manhãs, cedinho, saíam juntos de casa e desciam a rua de braço dado, a caminho do emprego. Eram muito diferentes um do outro, os dois amigos. Um deles, grego obeso e sonhador, era o guia do par." (...)

"Humedeceu o lenço na torneira e tamponou com ele o rosto tenso e estirado. Ocorreu-lhe que ainda não tinha enrolado o toldo. Encaminhou-se para a porta, e o seu andar ganhou firmeza. E quando, enfim, voltou para dentro, tinha recobrado toda a compostura e sobriedade, e esperou pelo romper do sol.”

Um detalhe bobinho, mas interessante: Para quem assisitiu o filme Uma Canção de Amor Para Bobby Long, uma explícita referência à literatura de McCullers, evidenciada pela inclassificável Scarlet Johannson (filme também estrelado por John Travolta), que a mostra lendo o livro na película.

Para deliciar-se.

Domingos de Sesmarias

björk
Com muito sol na cabeça hoje, 21/10, é o primeiro dos dois domingos que prometem ser de penitência, para alguém como eu que gosta de cinema e música. Estou já de saída para garimpar no circuito, horários e sessões possíveis da Mostra Internacional de Cinema de SP. As possibilidades são variadas, mas não me engano, pois sei que terei de penar em decidir entre as opções, os horários a fim de que coincidam com os filmes que quero ver, com os que desejo ver em seguida e depois e depois.

Perdido em Pequim (Ping Guo) - Foto Divulgação

Entre chineses, canadenses, americanos e franceses ainda estou confuso, mas vou à labuta, neste 1° domingo de penitência.

O próximo, 28/10, será o da música, é o dia do Tim Festival. Estarei lá para ver Björk. É, principalmente, para vê-la, embora as outras atrações sejam relevantes, mas o princípio fundamental de ir ao Anhembi, num dia que promete ser de muito abafo e sol, é vê-la. O show tem início previsto às 16h30 e vai varar a madrugada de segunda. Eu ainda não sei como vou trabalhar em 29/10, mas posso imaginar como será o dia antecessor, de abafo, de sol e de suor.
Vou ser gauche, nestes dois finais de semana. Ah, que venha a redenção...

video de earth intruders, do cd volta

domingo, 30 de setembro de 2007

As Coisas Maravilhosas de Sarah Blasko

Sarah Blasko é "menina linda", diria eu carinhosamente. Pouco conhecida por aqui (pra variar), mas ela chama minha atenção já há, pelo menos, 2 anos.

Sua voz é uma coisa maravilhosa, pra mim, desde que a ouvi cantando Flame Trees, regravação de seu conterrâneo australiano Cold Chiesel.

Outra coisa maravilhosa é este single de Sarah, do seu mais recente CD What The Sea Wants, The Sea Will Have.

Amazing Things, como tanto seremos...